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segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Hamlet mais perto do povo no Barreto Júnior

No outro lado da cidade, mais uma estreia também promete causar furor entre os amantes do bom teatro. Trata-se de “Encruzilhada Hamlet”, terceiro espetáculo montado pela Cia. do Ator Nu, formada pelos atores Edjalma Freitas e Henrique Ponzi. Com texto e direção do dramaturgo João Denys, a peça faz um recorte de um dos textos mais conhecidos de William Shakespeare, entretanto é importante destacar que o espetáculo não é apenas uma adaptação da obra que retrata os dilemas do jovem príncipe dinamarquês. Em “Encruzilhada...” Denys propõe uma análise diferente acerca dos personagens de Hamlet e do Coveiro. Precisamente sobre as relações e tensões entre um representante do povo e um representante da nobreza, partindo de uma condição única: a de estarem sob a terra.

“Uso o Hamlet como matéria prima para a criação. Parti de um personagem existente, e de uma situação existente, para fazer cruzamentos e abusar da intertextualidade”, explica Denys. Em sua versão, os espíritos de Hamlet e do Coveiro aparecem em cena num túmulo de vidro. Como estátuas de mármore em um cemitério, inteiramente nuas e enterradas até o abdômen, as duas personagens encenam o conflito entre o grande e o pequeno, o rico e o pobre, o erudito e o ignorante.
Na construção da narrativa, o diretor ainda faz uso de citações de diversos dramaturgos que lhe serviram de referência ao logo de sua carreira nos palcos. Samuel Beckett, Lorca, Brecht, e até referências bíblicas são apenas alguns exemplos. “É como se eu estivesse dizendo aqui, como eu entendo teatro, como eu gosto de fazer teatro. Teatro para mim é poesia. Estou fazendo um inventário de mim mesmo”, afirmou Denys.

Serviço:
“Encruzilhada Hamlet”
Teatro Barreto Júnior - Pina
Sábados e Domingos, às 20h30
Ingressos: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia-entrada)
Informações: 3232-3054
* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 12/09/2009

terça-feira, 30 de junho de 2009

Wagner e seu “repaginado” Hamlet

Contemporaneidade é a palavra chave para definir o espetáculo

No último sábado, com o teatro da Universidade Federal de Pernambuco lotado (e com ingressos esgotados para o segundo dia de apresentação antes mesmo da estreia), Wagner Moura, ao lado de um elenco de mais nove atores, apresentou ao público recifense um Hamlet diferente... Poético, porém sem precisar ser coloquial demais. E moderno, de moletom e dono de um vinil dos Beatles.

Mas calma, não vá achar que a montagem de um dos maiores clássicos do dramaturgo inglês Willian Shakespeare é um ultraje à obra original. Muito pelo contrário, o espetáculo, que conta com direção Aderbal Freire-Filho, tem um frescor que consegue aproximar o público de um texto que foi escrito no final do século XVI. A história do príncipe dinamarquês que para vingar a morte do pai vive na fronteira entre a sanidade e a loucura está presente, assim como toda a essência do texto.

No palco, além da atuação irretocável de Moura, um elenco respeitável embasa toda trama. A atriz Georgiana Góes dá vida à delicada e sensível Ofélia, grande paixão de Hamlet - a cena de sua morte é um dos momentos mais poéticos e belos do espetáculo.

As imagens projetadas em um telão, e feitas pelos atores do próprio elenco, ajudam na composição visual e a dar a devida dramaticidade ao momento. O suporte do telão, inclusive, é usado com bastante maestria e, em nenhum momento, briga com a interpretação dos atores. O recurso é utilizado como forma de valorizar a teatralidade de cenas pontuais, numa espécie de realce do trabalho do ator, tão questionado e enfatizado pelo próprio Hamlet.

O toque cômico do espetáculo (que é uma tragédia) fica por conta da excelente interpretação de Gillray Coutinho. Além dele, Fábio Lago, Tonico Pereira, Carla Ribas, Cândido Damm, Felipe Koury, Marcelo Flores e Caio Junqueira estão presentes.

Nesse novo Hamlet, de Freire-Filho e Wagner Moura, contemporaneidade é palavra chave. A montagem reafirma a máxima de que os clássicos nunca morrem, porém nada impede que eles sejam reinterpretados, adaptados a novos questionamentos.

Naquele sábado, o público presente viu um Hamlet diferente, que ouvia Beatles e era bem debochado. E, depois de ovacionar o elenco e cantar parabéns para o protagonista (foi o aniversário de Wagner), não por acaso, deixou o teatro ao som de “Thriller”, de Michael Jackson. Surpresinha da produção?

* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 29/06/2009