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segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Uma verdade cheia de “clichês”

Se existe um mérito para o novo filme do diretor Robert Luketic, “A verdade nua e crua” (The Ugly Truth, EUA, 2009), é o fato da narrativa de uma comédia romântica ser construída sob a perspectiva masculina de relacionamentos. Fato pouco visto em filmes do gênero. Apesar de ter uma mulher como protagonista da história - a produtora de TV obsessiva, controladora e solitária, Abby Richter, vivida pela atriz Katherine Heigl - a verdade que Luketic pretende expor são as mais profundas aspirações dos “machões” de plantão.

O problema é que para cumprir seu objetivo o diretor pesa na mão, e exagera na dose de “clichês” para retratar o universo dos machos alfas. Mike Chadway, interpretado por um dos atuais queridinhos de Hollywood, Gerard Butler, é o apresentador de um programa sobre relacionamentos especializado em dar conselhos para mulheres desesperadas, dispostas a aceitar qualquer tipo de opinião machista para conquistar um namorado. Depois de um embate com uma telespectadora revoltada, a própria Abby Richter, Mike é convidado a trabalhar na emissora de Abby, que passa a ser sua produtora. A missão de ambos: elevar os índices de audiência às custas dos conselhos de Mike. Ou seja, às custas de muita baixaria. Em paralelo, Mike também tem a missão de ajudar Abby a conquistar Colin (Eric Winter) A partir daí, o filme segue uma receita de bolo tão precisa que chega a ser tediosa. E claro que os dois vão acabar se apaixonando.

É bem verdade que alguns momentos rendem boas risadas, como a cena em que Abby usa uma calcinha com vibrador durante uma reunião de negócios. Mas apesar dos poucos momentos bem sucedidos, a fórmula usada é a mesma conhecida por todos. A ideia inicial de expor o “lado b” da relação acaba sendo descaracterizada, os personagens perdem seus traços mais extremados (que eram os mais interessantes), e tornam-se iguais a diversos outros já bastante íntimos do público. Reafirmando o conceito desgastado de que nesse gênero de filme, o que mais vale é deixar o espectador livre de surpresas.

* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 18/09/2009

terça-feira, 21 de abril de 2009

Entrevista: Bandeira, Lacca, Aragão*

O novo cinema pernambucano, numa rodada de café

na foto, cortesia de Jedson Nobre, da esquerda para a direita: Bandeira, Lacca e Aragão


A partir de amanhã (21-abril-2009) Recife será palco do "Festival des 3 Continetes", que é realizado pela cidade francesa de Nantes, e tem os olhos voltados para os trabalhos cinematográficos da Ásia, África e América Latina. Dentro da programação itinerante do Festival, foi criado, desde 2000, o Ateliê "Produire au Sud" (PAS): Uma oficina de produção que tem como principal objetivo discutir, analisar e apresentar as ferramentas técnicas necessárias para a realização de filmes, cuja aspiração é uma carreira de âmbito internacional. A ideia é selecionar projetos para receberem a consultoria de uma equipe internacional de especialistas em roteiro, produção, vendas e pitching.

Pela segunda vez o PAS acontecerá em Recife (a primeira foi em 2006). Entre os oito projetos selecionados para partircipar do Ateliê, dentro do universo de 40 inscritos, foram escolhidos três longas pernambucanos. (dois do RJ, dois de SP e um do CE). A escolha da curadoria realizada em Nantes reflete o talento de uma nova geração de cineastas que, a excessão de Daniel Bandeira, fará seu debut em longas-metragens. Reunimos os cineastas Daniel Aragão, Bandeira e Leonardo Lacca, no café Castigliani, na Fundação Joaquim Nabuco, para um bate papo descontraído sobre seus projetos selecionados, "Boa Sorte, Meu Amor", "Propriedade Privada" e "Décimo segundo", respectivamente, sobre cinema, produção e mercado internacional. Os Produtores Pedro Severien (PS) e Sarah Hazin também participaram da conversa que rendeu muitas ideias e risadas.

Dentro dos projetos selecionados pela comissão do Produire au Sud, em Nantes, o que vocês identificam de peculiar no projeto de vocês, que acreditam que tenha chamado a atenção da curadoria, existe algo em comum entre eles?

Lacca Isso é interessante porque eu conheço o trabalho de Bandeira, de Aragão nem tanto, mas eu acho que nenhum dos três tem um apelo regional pernambucano. Carregam Pernambuco, mas não são nada característicos da regionalidade. Ao mesmo tempo tem porque são todos filmes daqui.

Bandeira Eu acho que é mais uma questão de esfera, porque a gente de Pernambuco considera o regionalismo como uma coisa do interior de Pernambuco. Mas agora que a gente está numa esfera mais global, o que é brasileiro, e que é típico do terceiro mundo, é que é a medida do regional pra eles. Então embora a gente não se considere regional porque não está tratando das coisas de Pernambuco, também temos que ficar atento a um certo carimbo de filmes de terceiro mundo. Isso eu percebo muito pelo menos na minha história, que tem essa coisa de conflitos de classe. Eu te contei (pergunta a Lacca), tu sabe qual é a história? Tu também Pedro?... É a historia da mulher num carro blindado

Lacca É o teu tem essa coisa da parte urbana que vai para um conflito com a parte rural. Eu não conheço bem, mas o que eu entendi...

Bandeira É o que ta muito forte, pelo menos na minha história é essa representação do discurso clássico do conflito entre classes. Então muito embora aparentemente seja a história dessa mulher no carro de classe alta, que vai pro interior e fica presa nesse ambiente rural que não é o ambiente dela. Ai dentro você tem esse discurso de classe que é muito presente na agenda dos países de terceiro mundo.

Aragão A minha relação é tipo, o jogo da classe mais alta já ta ganho, entendeu? Ai o problema chega a ser deles com eles mesmos. Já existe uma disputa por igual, eu não estou do lado nem de um nem do outro. Os fatos já indicam que a vitória está dentro dessa classe rica e como ela lida com ela mesma. E é curioso porque eu também estava falando com o Pedro que também trata de isolamento, porque a gente está buscando um pouco de trazer a identidade de um cinema sobre essa classe mais rica daqui, mas um filme só não vai conseguir fazer isso. Eu acho que isso é muito particular. A gente vive aqui e a gente sabe que existem suas particularidades, mas a gente não sabe como vai traduzir isso cinematograficamente. Não é um filme só que vai fazer isso. Tem que ser diversos filmes. Talvez nesse (Boa sorte. Meu amor) eu tenha mirado fazer o primeiro trabalho sobre esse universo. Você também tem isso, só que talvez num momento mais extremo deles, não é? (pergunta a Bandeira)

Bandeira É, pois é. Mas é porque eu também não tenho um discurso muito didático não. Eu pretendo fazer de uma maneira que quem quiser vai ver um filme de suspense e quem quiser pode também desenvolver uma tese social. Eu realmente não apontar um caminho não. Agora eu queria saber de Leo, porque a gente ta falando de todo um discurso de classes, mas não cabe..

Aragão É, o teu é o mais "gayzinho", né? É o mais do coração. (risos)

Lacca Talvez o meu seja o que tem mais uma sutileza nesse sentido de não deixar tão exposto essa questão social de classes. Eu acho que tem também, até porque o curta é um fragmento do roteiro, que mostra a relação entre o casal. No longa aparecem a relação com a cidade, com outros personagens... Enfim tem uma questão de "focularização" de Pernambuco por parte do pessoal do sul, tem isso também no filme, ta lá. Mas é um filme que eu não parti disso. É uma historia que se eu for interpretar eu começo a enxergar esse tipo de coisa, mas só depois. Também eu não quero estar com nenhum discurso feito, é uma história que eu tenho a contar. Mas esse elemento vai estar lá presente.

No caso de vocês dois (Daniel Aragão e Leo Lacca) Aragão teve o curta "Uma vida e outra" que foi um tipo de fragmento do roteiro original que é de 2003...

Aragão Porque na verdade a minha idéia, quando eu vi que não ia fazer o longa nem tão cedo, foi que eu comecei a pegar esses personagens e desenvolver outras histórias. Não tem nada a ver com os personagens do longa. Mas tem a ver porque é a mesma idade, mesma classe, situações parecidas. Sendo que o longa vai por outro caminho. É outro conceito. Tanto que no novo curta que eu vou lançar agora (Não me deixe em casa), talvez tenha mais relação. Nesse outro eu não tenho um personagem só, eu já quis expandir essa vontade de fazer um longa criando mais personagens. Porque eu gosto do cinema narrativo clássico e pronto. Eu gosto de filme com narrativa hollywoodiana dos anos setenta, com pai, mãe, todos os personagens que eu puder botar. Claro que de acordo com as necessidades do filme.

Certo. Mas no caso de Lacca, parece que aconteceu o inverso. Como você estava falando, em Décimo Segundo primeiro houve o formato em curta, e agora você expandiu a perspectiva do filme, é isso?

Lacca Na verdade eu até tenho medo por estar usando o mesmo título, porque as pessoas começam a achar que é um curta esticado. Mas na verdade, o curta foi algo que não deveria ter acontecido, foi um pouco precipitado ter feito o curta. É como se eu tivesse pegado um fragmento do longa e feito o curta. O processo dele foi caminhando e quando eu tava filmando o curta eu já tinha parte do roteiro do longa sendo desenvolvido. E ao mesmo tempo isso é um ponto positivo, no sentido em que eu pude fazer o filme quase como um laboratório de personagens. Tanto é que no curta os próprios personagens, os atores na preparação, eles já tiveram uma coisa do longa na caracterização e na expansão desse universo. Então o longa na verdade é isso, a expansão do universo, e o curta é apenas um fragmento.

Em relação ao Cinema Pernambucano vocês falaram da questão do regionalismo, mas podíamos dissociar o rótulo de "Cinema Pernambucano" tido como um pacote único, quando na verdade não existe uma unidade, cada projeto tem suas peculiaridades. Podemos cair no erro de dizer que os três foram selecionados pelo PAS por serem parte desse pacote. Essa diferenciação vocês percebem na escolha dos roteiros, o diferencial seria porque vocês estão fazendo um cinema que acima de tudo é universal? Daí o interesse de fazer com que vocês participem de uma oficina que vai fazer com que o processo de produção se torne mais internacional?

Severien Eu tenho um comentário em relação a isso. É talvez uma característica desse cinema pernambucano que não é uma escola, porque os filmes não têm necessariamente ligação estética ou mesmo de conteúdo, são bastante diversos. Mas eu acho que aqui, há algum tempo já, vem acontecendo algo que é meio mágico que é um grupo de pessoas que se mantém muito integras na forma e na proposta de produção do tipo de filme. Se você pensar que aqui tem vários cineastas, no sentido mais amplo, produtores, diretores, editores... que acreditam no cinema de autor. Isso não quer dizer que esse cinema seja menor ou mais fechado...

Hazin Ou mais sofrido, né?

Severien Pois é, nada disso. Vários filmes dessa nova turma têm o desejo cada vez maior de se comunicar, de ter um diálogo com o público. Não existe o interesse de se manter no nincho fechado. Mas quando o cara se mantém conectado com a proposta artística que todos os filmes têm, isso é o que eu acho que chama a atenção de uma comissão que vai lá ler os projetos. E não necessariamente questões de regionalismos, ou manifestações folclóricas, ou exotismos... Muitos dos filmes que estamos discutindo são totalmente contemporâneos, com todo o misto de aspectos que se envolvem. São relações muito contemporâneas, mesmo quando tratam temas antigos, se colocam de forma moderna.

Bandeira Acho que existe esse interesse da gente se comunicar com o público até no sentido técnico. Pelo menos da minha geração, Leo, Daniel... Tem uma galera que começou a fazer filme meio que na marra, fazendo em casa. Cada qual somos roteirista, diretores dos próprios filmes, mas a gente também sabe pegar a câmera e filmar. A gente vai absolvendo diversas funções para desempenhar o trabalho da gente. Daí nessa preocupação muito atual da gente se comunicar com as pessoas, acabamos incorporando também um pouco essa função de distribuidor e produtor do próprio filme. É muito sintomático que o PAS chame para o workshop o produtor, mas também o diretor. O diretor supostamente não deveria estar preocupado com isso, mas faz parte dessa lógica de produção o diretor incorporar o trabalho dele já pensando como vender o resultado, quando, e se o filme ficar pronto.

Hazin Inclusive, não necessariamente seria o diretor, poderia ser só o roteirista e o produtor. Porque nem sempre o diretor também é o roteirista. Essa é uma lógica que funciona bem principalmente para a gente.

Bandeira Pois é, ai vem o questionamento... O que é exatamente que o PAS detecta daquilo que a gente faz? O que é que ele espera da gente e o que é que ele espera trazer para a gente? A mim interessa pessoalmente saber que público é esse que eu estou querendo atingir onde quer que seja. E, a partir daí, eu gostaria de manter minha autonomia de conhecer esse público e dizer que aqui eu abro concessões, e aqui eu não abro concessões.

Aragão Talvez a seleção deles se deva também muito ao conjunto do nosso trabalho.

Vocês não escreveram só esses projetos que foram selecionados, vocês mandaram mais coisas, é isso?

Hazin Na verdade cada um enviava uma cópia do seu último projeto. E o argumento do novo.

Lacca Na verdade tinha que ser porque não foi nem um roteiro completo, foi só um argumento puramente narrativo. O DVD ta presente lá sua linguagem cinematográfica.

Aragão Eu acho que o curta que a gente mandou junto com o projeto ajudou pra C... Porque é muito poético dizer que foi por causa do blá, blá, blá da justificativa. (risos)

Bandeira Na verdade eu vim acompanhando algumas críticas na internet sobre o interesse específico do Festival 3 Continentes (Ásia, África e América do Sul) em filmes de países ditos em desenvolvimento. Independente do local onde será ministrado, eu escutava essa critica que é um festival Europeu que teria interesse num tipo de "freak show" do terceiro mundo. Tem muita daquela expectativa sobre o que exatamente o festival quer ver desses países. Eu realmente não sei, a julgar pelas seleções do Festival, as itinerantes, os filmes que já foram apoiados e tal, eu acredito que de fato exista um interesse nesse sentido de captar a diversidade da produção e das vivências, mas não saberia dizer até que ponto existe esse fascínio mórbido.

Aragão Na verdade esse projeto passou por uma fase que pra mim foi um laboratório. Eu pensei assim, eu vou escrever um roteiro que não importa se eu só vou fazer ele daqui a dez anos, vai ser meu laboratório, meu estudo. Serviu até para que eu aprendesse a escrever os roteiros dos curtas que eu escrevi posteriormente. Por mais bizarro que seja essa opção. Por isso o roteiro passou por tantas versões. Até quando Pedro entrou no projeto. Quando foi Pedro?

Pedro 2007.

Aragão Pronto. Quando Pedro entrou no projeto, já foi no momento de fazer com que agora ele se torne realidade e entrar no PAS é como se tivesse sido o primeiro passo no sentido de colocar a prova. Eu estou esperando ouvir alguma coisa dos especialistas. Quero que eles cheguem para dizer... Olha o seu roteiro ta uma m... Sei lá... Algo do tipo.

Vocês querem ter um feedback do que vocês estavam fazendo?

Aragão Pois é, durante o processo eu tive vários feedbacks que estavam fragmentados até pelo trabalho nos curtas. Tipo saber que uma funcionou, e que o longa também vai ter. E até dos amigos e das pessoas que estão envolvidas.

Então essa etapa seria mais de profissionalização do processo. De ter o crivo dos "experts" dizendo o que é que vocês estão acertando, o que estão errando, o que vocês precisam fazer para melhorar a carreira dos filmes lá fora. Basicamente é esse suporte?

Aragão Pois é, até porque uma vez eu estava em um Festival e um cara de Sundance chegou pra mim e falou, "Só converso com você quando você tiver um longa". Se nem com longa os caras conseguem ganhar dinheiro. Com curta não dá. Você está num processo diferente (falando com Bandeira), esse teu projeto agora pode ser o primeiro projeto com potencial internacional, mas você já tem um longa na bagagem. Você vai pelo menos poder negociar com os produtores internacionais. Traduzindo, não adianta você ir para um Festival Internacional sem ter pelo menos um longa escrito.

Bandeira É na verdade, é aquilo que a gente já vivia como realizador de vídeo digital, já havia esse preconceito. Você é meio que café-com-leite.

Aragão Eu respeito muito Fernando Spencer, Edgar Navarro... Que passaram muito tempo fazendo curta, mas assim, comercialmente é o inverso. Curta é menos, infelizmente. Você ter 150 mil para fazer um curta, tudo bem, no fim das contas a gente sabe que é o que tem que ser. Mas o trabalho que dá e o processo.

Lacca É interessante porque entre a gente aqui, eu pensei agora que nunca ganhamos dinheiro para produzir curta, sempre só para finalizar. (risos) Essa questão de orçamento é outra coisa que eu fico me questionando, porque muitos orçamentos aqui de longas, e de curtas, se baseiam em publicidade e na verdade a gente tem que se basear em outra coisa, é outra proposta, mas também não é fazer sem dinheiro. É fazer com todo mundo ganhando, mas de forma consciente. Você vê projetos de curtas com 300 mil, que é um orçamento quase possível de fazer um longa dependendo do projeto.

Bandeira Pois é, mas é que se existe uma lógica - a lógica do terceiro mundo - eu acho que é exatamente essa. Existem projetos para curtas mesmo, e cada projeto tem seu respectivo orçamento pra ser feito da maneira correta, gerando empregos, com estimativa de público e etc.. Tem filmes que são pensados pra ser feitos com R$200,00, tem filmes que são pensados para serem feitos com R$ 300 mil, isso é legítimo. Acontece que a gente vive dentro de um sistema onde quem pega R$300 mil tem que pensar imediatamente em que é esse dinheiro, que vai para cultura, não foi gasto. É como se esse patrocínio dado pelo Estado para cultura, fosse tido como um saque dos artistas, mas isso é porque a gente vive o tempo inteiro com a falta de dinheiro para fazer as coisas. Então num país como esse, ou você usa o dinheiro do Estado, ou o dinheiro de um produtor privado que vai colocar a grana dele e vai correr o risco. A questão do risco é que a gente não está acostumado a lhe dar.

Hazin Não tem um mercado. A gente literalmente não tem um mercado, a gente tem um patrocinador único que é um “papai” que dá o dinheiro para você fazer um filme sem se preocupar com nada, com lucro garantido tanto para sua empresa, como todos os salários pagos. E depois já era não existe a preocupação de criar esse mercado.

Bandeira Pois é, independente desses fatores, o fato é um só. Por conta disso tudo, se faz cinema realmente de um jeito diferente. Temos uma narrativa diferente, uma estética diferente, tudo sempre acompanhando essa questão do dinheiro e de como vai ser usado. Por exemplo: a gente filma "Amigos de Risco" usando uma câmera SD, que na época já era muito corrente, mas não era tida como profissional para fazer um filme para cinema. Outro exemplo, que é uma questão pessoal minha, eu não filmo histórias que tenham chuva. Por quê? Porque eu penso numa produção de um carro de bombeiro fazendo uma chuva artificial, molhando toda cidade, desperdiçando, pra fazer uma cena do meu filme. O fato é que isso altera a forma como eu penso as minhas histórias.

Severien Uma coisa que é importante é que quando o processo criativo é dissociado da produção, pode se tornar algo simplesmente do mundo da fantasia. Se você começa a pensar no filme, sem pensar em como você vai realizar aquilo, você ta se assassinando como realizador. No sistema que a gente vive, e que é muito recente, porque há menos de 20 anos atrás estava sendo lançado o primeiro longa-metragem depois de uma lacuna de três décadas. Muito do que está acontecendo agora é fruto de um processo de aceleração de produção de muita gente. Há muito pouco tempo atrás a gente tava no nada, tava no zero, e em 15 anos muita gente começou a trabalhar pensar, e levar em conta essas questões para poder hoje a gente ter um cinema, uma produção.

Hazin E tentando se equiparar a um mercado internacional que não teve essa lacuna, que hora nenhuma parou. E hoje a gente ta correndo conta o tempo para tirar o atraso.

Lacca É na verdade, eu acho que a maior lacuna que você falou é com relação ao mercado principalmente. Porque em relação à realização, a gente já tem uma boa base de curta, sem falar em película. Longa é que ainda é difícil porque, por exemplo, nessa premiação de ontem (Abracine) ainda negligenciam cineasta como Tonacci, Julio Bressani, e tantos outros... Apesar de que o filme que ganhou foi um filme que realmente teve muito público, né?

É, inclusive, eu ia pedir para vocês comentarem os prêmios de "KFZ-1348" e "Estômago", que foram dois filmes que passaram pelo PAS na edição de 2006. Como vocês lidam com essa questão de premiação. É um retorno do trabalho, vocês fazem cinema para isso?

Lacca Não, não. Eu acho que todos concordam que premiação é uma coisa que está quase como previsão do tempo. (risos) Não é uma coisa que você vai se basear também. Mas o que eu falo não é nem necessariamente relativo às premiações em si, mas o que eu falo também é em relação às indicações. Para mim nenhum ali é uma referência minha de cineasta brasileiro. O cinema brasileiro ainda fica naquele impasse de achar que o filme que dá público é aquele filme engraçado. O problema não é a narrativa do filme, é uma questão muito maior e estrutural. Por exemplo, Carlão, com o "Filme Demência", deu muito mais público do que "Estômago".

Aragão É, anos 70.

Lacca É outra coisa, é outro momento. Agora a gente não pode entrar nessa de abrir mão e começar a fazer "Se eu Fosse Você" para estar dentro.

Bandeira É porque também a gente costuma falar de público sempre no singular. Mas na verdade existem uma série de públicos que não vão para o cinema. Existe um público hegemônico que tem a grana para freqüentar e usualmente o gosto desse público é tido como referência. Mas não é bem assim, não é que você faz um filme para ninguém. Sempre existe alguém para vera aquele teu filme. Só que esse público dificilmente vai ao cinema, dificilmente se encontra e troca idéias.

Aragão Eu acho que o pior filme lançado em Holywood dá mais público do que "Se eu fosse você".

Para encerrar, qual a expectativa que vocês têm em relação a esse quatro dias de oficinas. Como cineastas, diretores, produtores, o que vocês acreditam que pode mudar no trabalho de vocês?

Lacca No meu caso, eu estou muito interessado na parte de roteiro...

Aragão É, eu também.

Lacca Eu acho que é a que mais pode me ajudar a entender e enxergar o meu projeto. Porque questões relacionadas ao pitching, eu acho que tem mais a ver com produção. Mas como Daniel mesmo falou que o diretor participa desse processo, eu também me interesso. Só que o que de verdade eu estou muito empolgado é a questão de roteiro.

Aragão O que for melhor para gente aqui para que a gente se aproxime mais do mercado internacional é proveitoso. Porque o mercado tem interesse em contratar diretor de terceiro mundo; São os caras que fazem filmes mais baratos, são mais sensíveis; mais criativos e menos mimados. Sabem dar valor a dinheiro. (risos). Para mim Rio de Janeiro e São Paulo é outro país, cinema de lá para mim é M... Eu não vi nenhum filme de lá que eu gostei esse ano. Acho que só Eduardo Coutinho (Jogo de Cena). Os filmes que a gente faz aqui é outra coisa, existe uma divisão mesmo, é outra história tudo diferente.

Lacca Inclusive quando se tenta trazer esse mote de lá pra cá, eu acho que é um desastre

Hazin Cinema de Guerrilha, não é Daniel?

Aragão A questão não é nem essa. Isso já era. A discussão já é outra, não é a questão de fazer com muito, ou pouco dinheiro. Se a gente tiver muita grana para fazer o longa a gente vai continuar fazendo diferente.

Bandeira Eu acho que é consenso aqui que o PAS é uma ferramenta importante, mas ela não é vital, não é uma tábua de salvação. Eu acho que a relação da gente com o Produire é exatamente um ponto de comunicação, de contato com um outro mercado. É uma nova etapa que a gente está querendo atingir. Mas a lógica continua exatamente a mesma de quando a gente começou. Sem a gente se conhecer, sem a gente se falar, e sem a gente trocar idéia entre a gente, ninguém tinha saído do canto. Então com o PAS nós estamos reproduzindo essa tática. Não é uma novidade para a gente, na verdade é só a instância que está um pouco mais ampla.

Severien Eu acho que tem uma parte das informações de como esse jogo é jogado no nível internacional, que não está na internet, não ta em livro, não ta em lugar nenhum... ta dentro das pessoas que participam desse jogo. Isso é uma coisa que me cria expectativa em relação ao PAS como produtor, que eu acho que é importante esse tipo de diálogo, de conversa que não é publicada, digamos assim. (risos)


* A entrevista foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 20/04/2009 e pelo site cinemaescrito.com

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Harvie Krumpt (Adam Elliot, Austrália, 2003)


Não é por menos que o filme do diretor australiano, Adam Elliot, faturou o Oscar de melhor curta-metragem de animação em 2003. Harvie Krumpt, além de ser meticulosamente bem executado, é um filme tocante. A narrativa que conta a trajetória de vida de seu personagem principal é cercada de episódios um tanto quanto, pouco usuais. E acima de tudo, sua história é cercada por fatos. Fatos comuns a vida de todos nós, mas que por algum motivo são omitidos. Na maioria das vezes, por que preferimos ignorá-los! Fatos como a beleza da nudez, a impetuosidade das crianças com o que é diferente, ou mesmo a imprevisibilidade da morte. Adam Elliot explora em seu filme as idiossincrasias dos seres humanos.


Animação feita em “Stop Motion” (técnica que usa imagens paradas filmadas em sequência), Harvie Krumpet chama atenção também pelos detalhes: que vão desde rachaduras nas paredes aos efeitos de luz, e expressão dos personagens. Elliot também utiliza muitos efeitos de “fade in” e “fade out” para pontuar as passagens de tempo da história, dando ao público uma sensação de transição dos momentos de vida do personagem.


A narração feita pelo ator, Geoffrey Rush, também merece destaque. É ela que dá o tom e a intensidade do filme, sem que para isso tenha que brigar com a imagem. Um exemplo disso, é o momento em que Harvie decide se tornar nudista: Tanto a narração de Rush, quanto a trilha sonora ganham um ritmo ofegante. Dando a dimensão e o impacto que as mudanças tinham trazido à vida de Harvie.


Adam Elliot e Harvie Krumpet chegam, em alguns momentos, a terem semelhanças físicas. Entretanto, seria precipitado dizer que o diretor reproduziu momentos de sua infância tímida em Melbourne. O fato, é que o simpático bonequinho tem fácil identificação com as lembranças de qualquer pessoa. Ainda que ele viva em um mundo a parte. A história, que muitas vezes nos arremete às fábulas infantis, é repleta de pequenas “morais”. Porém, o humor irônico de Elliot dá ao filme um certo caráter subversivo.Além de dialogar com um estilo tragicômico. Harvie Krumpet é um excelente exercício de questionamento de valores e visões de mundo, no qual somos conduzidos através do olhar de um personagem que nunca desiste de sua vida e busca sempre uma explicação para as coisas.

Assista o filme:

Parte 1:
http://www.youtube.com/watch?v=CSJVl24LRtk

Parte 2:
http://www.youtube.com/watch?v=Fxv1w2CDKQU&feature=related

parte 3:
http://www.youtube.com/watch?v=VdLyYvytutA&feature=related



sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Ensaio Sobre a Cegueira


Que Fernando Meirelles era um diretor capaz de fazer proezas num filme, isso todo mundo já sabia. Que a sua estética é diferenciada e que tem uma forma de filmar bastante característica, também. Mas o que ninguém sabia, era que Meirelles ainda tinha várias cartas na manga (ou melhor, dentro da cabeça). Ensaio sobre a cegueira, uma co-produção entre Brasil, Canadá e Japão, é a prova disso. No filme, o diretor solidifica o seu, já garantido, lugar entre os diretores brasileiros mais bem sucedidos no exterior.

"Cegueira" é um filme que já começou sua história dividindo opiniões. Após sua estréia de gala, na qual teve a imensa responsabilidade de abrir o Festival de Cannes (um dos mais importantes do mercado cinematográfico), o filme dividiu opiniões. Muitos jornais foram implacáveis chegando a chamar o filme de medíocre, como o argentino La Nación. Entretanto, críticos renomados como Peter Bradshaw, do britânico The Guardian, chegaram a dar ao filme quatro estrelas, classificação para poucos.

O fato é que para mim, Fernando Meirelles mais uma vez se superou. Já havia lido o livro homônimo de José Saramago (em que se baseia o filme), e estava deverás apreensiva com a responsabilidade que o diretor tinha nas mãos. Afinal, o livro de Saramago é um primor da literatura contemporânea, tanto que ganhou um nobel. É um prato cheio para aqueles que se deleitam ao dar asas à imaginação através da leitura. Traduzir esse universo imaginativo para as telas não era tarefa fácil. Principalmente ao optar por ser fiel a narrativa original.

Confesso que fui assistir ao filme meio ressabiada, principalmente depois de visto Cidade de Deus e o Jardineiro Fiel (também adaptações de livros), filmes que pra mim são perfeitos. Mas Meirelles não deixou nada a desejar! Construiu um filme sensorial! Sensorial, inclusive, é a melhor definição para Ensaio Sobre a Cegueira. A montagem do filme é impecável, com cortes rápidos, quase que desconfortáveis. A sensação de perturbação visual é constante, inclusive nas inserções de claridade total que antecedem os momentos de cegueira, tão bem descritas no livro como "um mar de leite". Esse era o meio maior receio: que o filme não me causasse o mesmo impacto e desconforto que o livro me causou. Fui surpreendida, cheguei ao fim da sessão com as pernas bambas.

Meirelles deu ao filme a sensação de caos e de fim dos tempos, onde não existem regras e o que prevalece é a violência e a irracionalidade. Ensaio Sobre a Cegueira traz no elenco Julianne Moore, Mark Ruffalo, Alice Braga (sobrinha de Sonia Braga), Danny Glover e Gael Garcia Bernal, que, diga-se de passagem, conseguiu me despertar repulsa, feito inédito em se tratando da figura.

Apesar das críticas ferrenhas que recebeu, Ensaio Sobre a Cegueira conseguiu arrebatar os cinéfilos de plantão. E, conseguiu ainda, o mais irrefutável dos elogios, o de José Saramago.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Kinoplex Plaza Shopping

Estou na velha correria de sempre, mas fiz questão de vir aqui registrar minha impressão sobre o novo cinema do Shopping Plaza, em Casa Forte.

Ontem fiquei indignada com a recepção que tivemos chegando ao cinema. De cara, esperamos mais de 20 minutos. Tudo bem, pensei! Afinal, hoje é domingo, o cinema ainda é novidade, ainda deve estar em fase de adptação.

Mas quando chegamos no caixa para comprar os ingressos, uma mocinha, muito da descarada (diga-se de passagem), nos perguntou se tínhamos um real. Eu respondi que não. E ela, dando um “muchôcho”, nos disse que não tinha como vender os ingressos porque não tinha troco para tirar dois tickets de vinte, pois estava sem notas de dois.

Ora, a obrigação de ter dinheiro trocado é de quem compra ou de quem vende os bilhetes? E ainda que tivesse acontecido um imprevisto, cabe a ela encontrar uma solução. Ou sugerir algo ao cliente, e não apenas fazer bico e dizer que não pode vender.

Felizmente, antes que eu iniciasse uma discussão desnecessária, minha amiga ofereceu uma nota de dois, para que ela pudesse dar seis reais de troco. Problema solucionado! Mas achei péssimo para a imagem de um local que está começando a funcionar ter um atendimento dessa qualidade. É uma pena.

Tirando esse pequeno incidente, achei as salas super confortáveis. Cadeiras reclináveis com uma boa diferença de altura de uma fila para outra, excelente sistema de som. Gostei bastante da sala, me lembrou o Box Guararapes numa versão mais compacta. O que pra mim é ótimo.

Assisti Ensaio sobre a Cegueira (Fernando Meirelles) na sala 4. Amei o filme. Volto logo mais com um post com as minhas observações.