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segunda-feira, 19 de abril de 2010

A maioridade de um clássico

Adaptação de “O Auto da Compadecida”, da Dramart Produções, completa 18 anos em cartaz

Difícil encontrar um espetáculo que tenha permanecido tantos anos na estrada sem grandes alterações. Ainda mais, em se tratando de um grupo tão extenso. A montagem Dramart Produções reúne, ao todo, 15 atores, cinco músicos e quatro técnicos, que juntos, completam amanhã 18 anos de apresentações ininterruptas, se gabando de terem sofrido apenas algumas poucas substituições. A data especial será celebrada em uma única apresentação, às 19h30, no Teatro do Parque. Com ingresso promocional de aniversário no valor de R$10 para todos.

Para saber um pouco mais sobre a história por traz da história, a Folha de Pernambuco conversou com atores que acompanharam toda esta jornada: Socorro Rapôso, Compadecida e fundadora da Dramart; Luiz César, padre João e co-fundador da Dramart; Célio Pontes, Severino do Aracaju e ex-assistente de direção do espetáculo; Williams Sant’Anna, Chicó e atual assistente de direção; e Leidson Ferraz, que vive os papéis do frade e do demônio, relembraram fatos e curiosidades divertidas, e outras que guardam com carinho, dessa montagem que caiu nas graças do público e já faz parte da história do teatro pernambucano.

Começando do começo, em 1991, a produtora Socorro Rapôso iniciou o planejamento de um espetáculo para celebrar os 10 anos da Dramart Produções, comemorados no ano seguinte. De Ariano Suassuna, dramaturgo admirado e amigo de Socorro, a farsa “O Auto da Compadecida” foi a eleita. A escolha do texto também tinha origem na relação pessoal de Socorro com a peça. “O Auto...” foi o primeiro espetáculo da vida da produtora, tendo feito a Compadecida com o grupo Teatro Adolescente do Recife em 1956. Na direção, mais um amigo, o professor Marco Camarotti, PhD em Teatro Popular.

A estreia da nova montagem aconteceu no dia 14 de marco de 1992, no teatro Valdemar de Oliveira. De lá pra cá foram muitas temporadas e muita história. A própria Socorro teve a chance de ir à Sapucaí com seu personagem. “Em 2002 a Império Serrano fez o desfile em homenagem a Ariano. Na época a minissérie da TV estava no auge, e todo elenco foi convidado. Mas em uma entrevista para o Jornal do Brasil, Ariano disse que gostaria que, com relação à Compadecida, convidassem ‘a de ontem, de hoje e de sempre’. Se referindo a mim”, conta Socorro, recordando o desfile que a emocionou muito.

Como co-fundador da Dramart Produções, o ator e produtor Luiz César chegou ao elenco meio que por acaso. Quando cursava Relações Públicas na mesma faculdade de Socorro, Luiz foi confundido com um padre que estudava na mesma sala. Do episódio, veio um namoro e um convite para integrar o elenco. “Acho que ela me achou com cara de padre. Desde então, esse acabou sendo um papel recorrente na minha vida”, brinca Luiz César.

As histórias são muitas. Célio Pontes tem lembranças de quase toda uma vida. Entrou para Dramart quando ainda tinha 14 anos, no espetáculo “O Mágico de Oz”. Pouco tempo depois, foi convidado por Socorro para fazer parte do elenco do Auto. Mas, foi um convite de Camarotti que foi decisivo na carreira de Célio. “Marco Camarotti me chamou para ser assistente de direção do espetáculo. Isso me deu a oportunidade de aprender muito sobre todos os aspectos do teatro”, destaca o ator.

Outro que atribui ao “Auto...” a emoção é Williams Sant’Anna. Além de ter com Sóstenes Vidal, seu companheiro de cena que vive João Grilo, uma enorme cumplicidade, o ator tem uma relação bastante próxima com os demais companheiros de palco. “Fazer o Palco Giratório do Sesc era um grande sonho. Em 1998, quando finalmente havíamos conseguido e estava tudo pronto para começarmos a turnê pelo Interior do Estado, eu fiquei muito doente. Tínhamos a opção de desistir de um sonho e frustrar o grupo inteiro, ou tentar fazer, mesmo assim. E nós fizemos”, lembra ele.

Leidson Ferraz, o caçula da turma, também foi um dos últimos a entrar no elenco - três anos depois do debut da montagem. “Estreei com o teatro Santa Isabel lotado. Como meu personagem tem uma relação com a plateia, foi uma coisa muito especial”, recorda Leidson.

Além da apresentação deste domingo, o grupo aguarda a finalização do edital Funcultura 2009, no qual concorrem com um projeto de oito apresentações populares do “Auto...”, com distribuição gratuita de 200 convites.Outro projeto que a Dramart tem na gaveta, à espera de patrocínio, é apresentação do espetáculo usando igrejas como cenário para montagem.

* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 13/03/2010

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Damas do teatro Pernambucano: quatro gerações e muitas histórias

Foto: Robert Fabisak
Não é novidade para ninguém que o teatro pernambucano tem uma das produções mais expressivas e consistentes do País, mesmo estando afastado do eixo Rio-São Paulo. Ao longo de várias décadas, atores, diretores e produtores trabalharam e enfrentaram todo tipo de obstáculo, para garantir que suas peças chegassem aos palcos. Nessa jornada, alguns nomes já se tornaram consagrados, enquanto outros começam a construir uma história. Em comum, uma mesma paixão: O teatro.

Para ajudar a contar um pouco dessa trajetória, a Folha de Pernambuco reuniu quatro gerações de mulheres do teatro pernambucano. Geninha da Rosa Borges (87), considerada a primeira-dama do teatro de Pernambuco, Socorro Raposo (77), a eterna compadecida de Ariano Suassuna, Fabiana Pirro (34), sócia e companheira de palco de Lívia Falcão no premiado espetáculo “Caetana”, e Olga Ferrario (17), protagonista da peça infantil “A árvore de Júlia”, despiram-se de rótulos, e ajudaram a fazer o registro de uma história da qual foram protagonistas. O cenário dessa conversa não podia ser outro: Teatro de Santa Isabel. Palco de tantas histórias vividas por essas atrizes, que escolheram o teatro como forma de expressão.

Entrevista:

Folha: Voltando ao passado, quais são as principais diferenças entre o teatro daquela época e o de hoje?
Geninha: O que existia era um preconceito muito grande. Uma mulher não podia pisar num palco. Dr. Valdemar (de Oliveira) dizia que as mocinhas podiam pisar num palco até para receber diploma de datilografia. Mas nunca para fazer teatro. Era o mesmo que ser uma mulher vagabunda.
Socorro: Tornar-se atriz não era uma profissão bem vista.
Geninha: Foi quando Dr. Valdemar, por conta do centenário da medicina, recebeu um convite para fazer um show com médicos. Ele disse vamos fazer uma peça de teatro só com médicos, senhoras e filhas de médicos. A plateia o que seria? Os amigos dos médicos. Dessa forma ninguém iria falar da mulher dos amigos que estavam no palco.O sucesso foi tão grande, que foi o estopim para criação do Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP). Ele pegou gente da mais alta sociedade recifense de todas as áreas e colocou no palco no TAP.
Olga: Pois é, hoje isso já se democratizou mais, não é?!

Folha: Graças a momentos como esse de Geninha, que forçou a barra e foi para o palco.

Olga: Pois é, eu tenho que agradecer. Elas são as precursoras nisso. Por acabar com o preconceito. Hoje posso estar no palco sem ter que enfrentar esse tipo de coisa.

Folha: E por que teatro, e não qualquer outra forma de expressão artística?

Geninha: Eu hoje tenho a experiência de todos os ramos. Já fiz televisão, teatro, cinema, curta, média, longa. Já fiz de tudo. Eu respondo, sem titubear, que escolho o meu teatro. Quando fiz “Da Cor do Pecado” o diretor pedia para que todo mundo olhasse para uma mesa e imaginasse um templo, que não estava lá, ia ser colocado pelo computador. Eu quero lá um negócio desse? Prefiro, meu teatrinho que a gente cresce na emoção. (risos)
Socorro: Eu digo sempre que o teatro é a arte nua e crua. Se você faz bem, está dado o recado. E cinema e televisão você repete quantas vezes for necessário. Em teatro, não.O teatro é emoção pura, e o ator trabalha com emoção.
Fabiana: Todos dizem que o cinema é uma arte muito do editor. O teatro eu acho que é arte do ator mesmo, a gente tem diretor, figurino, cenário, mas quem está no palco com a cara, a emoção e a bagagem é o ator. Você escutar de Geninha que é o teatro que ela escolhe, uma pessoa que tem tantos anos dedicados às artes cênicas, é porque realmente é onde chamamos a responsabilidade pra gente.

Folha: O que mudou em relação a produção e ao público?

Geninha: O esvaziamento do teatro. Eu entendo, porque, naquela época, só existia o teatro como atração. As pessoas se vestiam bem para irem às peças. Agora você liga a televisão tem vários programas, tem shows, muitas escolhas. Agora, já que estamos só mulheres reunidas, acredito que temos que lutar pela volta do bom teatro. Porque hoje em dia só se vai ao teatro para rir e ouvir safadeza.
Fabiana: Mas nós temos essa preocupação. Temos duas companhias, já montamos “Caetana”, “A Árvore de Júlia” e sempre temos esse cuidado. Nosso teatro é experimental, é um teatro buscando uma linguagem, e um texto, que realmente faça a pessoa pensar.
Socorro: Não sou contra o escracho, nem contra o deboche. Mas eu acho que é importante a gente fazer alguma coisa que ajude a elevar nosso espírito Que possa gratificante para quem faz, e também interessante para quem assiste.
Olga: Também acho que não vale a pena reproduzir algo que a gente já vê na vida, já vê na TV. Arte pra reproduzir aquilo que já existe. Só manter igual. Não é interessante.

Folha: Existe uma tendência dos espetáculos fazerem uma reprodução, como Olga falou, para garantir o mínimo de bilheteria. Uma espécie de fórmula do sucesso?

Socorro: Mas ai é que está, no nosso tempo a gente fazia teatro sem ganhar dinheiro.Hoje, a primeira coisa que o ator pergunta, é qual é o cachê? Nunca ninguém se preocupou com isso, a gente fazia teatro por amor.
Geninha: E o meu continua sendo. Não seria no fim da minha vida que eu iria rasgar a minha bandeira de amadorista.
Fabiana: É aí onde está um pouquinho da diferença da época delas para a nossa. Eu acho lindo, quando eu escuto elas falarem que o importante não era o dinheiro, era o amor. É quase um pouco como a gente fala do futebol. Querer comparar aqueles grandes jogadores de antigamente, que jogavam por amor a camisa. Agora é tudo pelo dinheiro. Geninha e Socorro tinham esse amor ao time. Mas ao mesmo tempo, hoje em dia, eu digo isso porque eu sou mãe, tenho uma companhia para tocar e a gente tem uma folha de pagamento para cumprir e poder manter os espetáculos.

Folha: Hoje em dia também percebemos que os elencos estão cada vez mais reduzidos. De uma certa forma, isso não limita a escolha dos textos?

Fabiana: É uma opção de praticidade, para conseguir conciliar a disponibilidade do elenco. Mas o texto dependendo da história que se queira contar, isso é bem flexível. Em “Caetana” mesmo, eu faço sete personagens. Às vezes as pessoas até brincam dizendo que parece que a peça tem mais gente.
Olga: É a montagem que vai se adaptando ao elenco. Nada fica submisso ao texto, isso é algo que se constrói.

Folha: Saindo um pouco do universo do teatro, no começo do ano Geninha fez mais uma participação na televisão, vivendo um personagem de destaque na trama global “A Favorita”. Como foi essa experiência?

Geninha: O diretor me perguntou se eu queria ganhar um presente de Natal. Eu respondi que sim, mesmo sem saber o que era. Foi ai que ele me convidou para interpretar a mãe de Silveirinha. Recebi as passagens junto com o texto. Agora eu perdi minha identidade. Não sou mais Geninha da Rosa Borges, sou a mãe de Silveirinha. (risos)
Fabiana: Você pode ter certeza que o Recife inteiro parou no dia para lhe ver.
Geninha: Mas sabia que isso me deu uma renovada, que vocês não podem imaginar.


A minha primeira vez no palco...


Sejam elas divas consagradas, ou atrizes começando a trilhar um caminho no teatro. Foi quando pisaram pela primeira vez em cima de um palco, que elas perceberam que seria aquilo que fariam até o resto de suas vidas. Aqui, Geninha da Rosa Borges, Socorro Raposo, Fabiana Pirro e Olga Ferrario dividem conosco as emoções que sentiram em suas estreias inesquecíveis.

Geninha da Rosa Borges:
Descobri que seria atriz antes, ainda no colégio. Na verdade, as freiras me descobriram. Tudo que acontecia no colégio, quando chegava uma visita importante, mandavam me chamar. O Papa Pio XII, quando ainda era núncio apostólico, veio ao Recife, e foi fazer uma visita ao Colégio São José. As freiras me deram a missão de recitar uma poesia em italiano. Eu não tinha a menor ideia do que estava dizendo. Por isso, minha vida já foi dirigida pequenininha, eu não tive trabalho nenhum. Um pouco mais tarde, Dr. Valdemar (de Oliveira) foi pedir aos meus pais para que eu entrasse no TAP, ele precisou fazer o convite na minha casa e com hora marcada. E depois que eu entrei no teatro, a família toda passou a se envolver. Meu pai ficou sendo o tesoureiro do teatro, minha mãe virou contra-regra. Em dia de espetáculo a casa ficava vazia, porque até os móveis vinham para o teatro.

Fabiana Pirro:

“Desde de muito pequena, minha mãe me levava ao teatro. Sempre que passava aqui pelo Santa Isabel, ficava encantada e dizia para mim mesma, que um dia ia estar no palco desse teatro. No início, falava da boca pra fora, mas no fundo acreditava nisso. Depois eu comecei a fotografar, passei 10 anos trabalhando como modelo, mas ainda assim dizia: Eu quero me apresentar nesse teatro! Uma vez eu disse isso a minha mãe, e ela me disse que o único jeito era virar atriz. Comecei a pensar que já estava envolvida no meio artístico (moda, fotografia), e já fazia parte do mesmo caldeirão. Depois disso fui parar lá na Paixão de Cristo. Em uma das minhas vindas de São Paulo, Xuruca Pacheco me convidou para fazer a cena do bacanal de Herodes. Quando eu vi 10 mil pessoas na frente tive certeza de que fiz a escolha certa. Logo depois, quando subi no palco do Santa Isabel percebi que o que você quer de coração, você consegue. Me tornei atriz por culpa do Santa Isabel.”

Olga Ferrario:
Na verdade eu costumo dizer que comecei na barriga da minha mãe (Lívia Falcão), ela esteve em cena durante os nove meses da gestação. Desde muito pequena, quando me perguntavam o que eu queria ser, eu respondia: Atriz! Continuei fazendo teatro na escola e já tinha muita desenvoltura no palco. Em um curso do TAP, participei da peça “Mateus e Caterina”. Ali foi a primeira vez que senti a energia do grupo todo reunido antes de entrar em cena. Depois disso, lembro de dizer a minha mãe que tinha decidido que era isso o que queria fazer. Foi então que surgiu a oportunidade em “A Árvore de Júlia”. Elas já tinham o texto, e queriam montar há algum tempo, mas faltava uma atriz para viver a protagonista. Foi então que Fabiana disse a minha mãe que Júlia era eu.

Socorro Raposo:

Eu comecei como rádio-atriz na rádio Clube Tamandaré. Mas em teatro mesmo, eu entrei por uma acaso. Clênio Vanderlei foi quem me deu convites para eu ir assistir ao “Auto da compadecida”. Eu fiquei muito feliz, porque nunca tinha ido a um teatro de verdade. Dois dias depois, Clênio foi à minha escola e disse que iria me levar a casa dele para que eu decorasse o texto do “Auto”. Eu perguntei: Mas não é o espetáculo que eu vou assistir? E ele disse: Você não vai mais assistir, você vai fazer. A atriz que ia fazer o papel, Mírian Nunes, havia desistido. E ele lembrou da minha emoção quando recebi os convites. No dia 11 de setembro de 1956, fiz minha estreia como atriz, vivendo a compadecida, aqui no Santa Isabel. Estava tão nervosa que quando procurei o texto na mente, não me veio uma palavra. Rezei com fé, pedindo para conseguir dar todo o texto. De repente consegui falar tudo certinho. Só sei que quando terminou o espetáculo eu estava com 40 graus de febre, com os olhos e a boca tão inchados, que fui parar no pronto socorro. Foi uma estreia inesquecível.

* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 08/06/2009

terça-feira, 21 de abril de 2009

Entrevista: Bandeira, Lacca, Aragão*

O novo cinema pernambucano, numa rodada de café

na foto, cortesia de Jedson Nobre, da esquerda para a direita: Bandeira, Lacca e Aragão


A partir de amanhã (21-abril-2009) Recife será palco do "Festival des 3 Continetes", que é realizado pela cidade francesa de Nantes, e tem os olhos voltados para os trabalhos cinematográficos da Ásia, África e América Latina. Dentro da programação itinerante do Festival, foi criado, desde 2000, o Ateliê "Produire au Sud" (PAS): Uma oficina de produção que tem como principal objetivo discutir, analisar e apresentar as ferramentas técnicas necessárias para a realização de filmes, cuja aspiração é uma carreira de âmbito internacional. A ideia é selecionar projetos para receberem a consultoria de uma equipe internacional de especialistas em roteiro, produção, vendas e pitching.

Pela segunda vez o PAS acontecerá em Recife (a primeira foi em 2006). Entre os oito projetos selecionados para partircipar do Ateliê, dentro do universo de 40 inscritos, foram escolhidos três longas pernambucanos. (dois do RJ, dois de SP e um do CE). A escolha da curadoria realizada em Nantes reflete o talento de uma nova geração de cineastas que, a excessão de Daniel Bandeira, fará seu debut em longas-metragens. Reunimos os cineastas Daniel Aragão, Bandeira e Leonardo Lacca, no café Castigliani, na Fundação Joaquim Nabuco, para um bate papo descontraído sobre seus projetos selecionados, "Boa Sorte, Meu Amor", "Propriedade Privada" e "Décimo segundo", respectivamente, sobre cinema, produção e mercado internacional. Os Produtores Pedro Severien (PS) e Sarah Hazin também participaram da conversa que rendeu muitas ideias e risadas.

Dentro dos projetos selecionados pela comissão do Produire au Sud, em Nantes, o que vocês identificam de peculiar no projeto de vocês, que acreditam que tenha chamado a atenção da curadoria, existe algo em comum entre eles?

Lacca Isso é interessante porque eu conheço o trabalho de Bandeira, de Aragão nem tanto, mas eu acho que nenhum dos três tem um apelo regional pernambucano. Carregam Pernambuco, mas não são nada característicos da regionalidade. Ao mesmo tempo tem porque são todos filmes daqui.

Bandeira Eu acho que é mais uma questão de esfera, porque a gente de Pernambuco considera o regionalismo como uma coisa do interior de Pernambuco. Mas agora que a gente está numa esfera mais global, o que é brasileiro, e que é típico do terceiro mundo, é que é a medida do regional pra eles. Então embora a gente não se considere regional porque não está tratando das coisas de Pernambuco, também temos que ficar atento a um certo carimbo de filmes de terceiro mundo. Isso eu percebo muito pelo menos na minha história, que tem essa coisa de conflitos de classe. Eu te contei (pergunta a Lacca), tu sabe qual é a história? Tu também Pedro?... É a historia da mulher num carro blindado

Lacca É o teu tem essa coisa da parte urbana que vai para um conflito com a parte rural. Eu não conheço bem, mas o que eu entendi...

Bandeira É o que ta muito forte, pelo menos na minha história é essa representação do discurso clássico do conflito entre classes. Então muito embora aparentemente seja a história dessa mulher no carro de classe alta, que vai pro interior e fica presa nesse ambiente rural que não é o ambiente dela. Ai dentro você tem esse discurso de classe que é muito presente na agenda dos países de terceiro mundo.

Aragão A minha relação é tipo, o jogo da classe mais alta já ta ganho, entendeu? Ai o problema chega a ser deles com eles mesmos. Já existe uma disputa por igual, eu não estou do lado nem de um nem do outro. Os fatos já indicam que a vitória está dentro dessa classe rica e como ela lida com ela mesma. E é curioso porque eu também estava falando com o Pedro que também trata de isolamento, porque a gente está buscando um pouco de trazer a identidade de um cinema sobre essa classe mais rica daqui, mas um filme só não vai conseguir fazer isso. Eu acho que isso é muito particular. A gente vive aqui e a gente sabe que existem suas particularidades, mas a gente não sabe como vai traduzir isso cinematograficamente. Não é um filme só que vai fazer isso. Tem que ser diversos filmes. Talvez nesse (Boa sorte. Meu amor) eu tenha mirado fazer o primeiro trabalho sobre esse universo. Você também tem isso, só que talvez num momento mais extremo deles, não é? (pergunta a Bandeira)

Bandeira É, pois é. Mas é porque eu também não tenho um discurso muito didático não. Eu pretendo fazer de uma maneira que quem quiser vai ver um filme de suspense e quem quiser pode também desenvolver uma tese social. Eu realmente não apontar um caminho não. Agora eu queria saber de Leo, porque a gente ta falando de todo um discurso de classes, mas não cabe..

Aragão É, o teu é o mais "gayzinho", né? É o mais do coração. (risos)

Lacca Talvez o meu seja o que tem mais uma sutileza nesse sentido de não deixar tão exposto essa questão social de classes. Eu acho que tem também, até porque o curta é um fragmento do roteiro, que mostra a relação entre o casal. No longa aparecem a relação com a cidade, com outros personagens... Enfim tem uma questão de "focularização" de Pernambuco por parte do pessoal do sul, tem isso também no filme, ta lá. Mas é um filme que eu não parti disso. É uma historia que se eu for interpretar eu começo a enxergar esse tipo de coisa, mas só depois. Também eu não quero estar com nenhum discurso feito, é uma história que eu tenho a contar. Mas esse elemento vai estar lá presente.

No caso de vocês dois (Daniel Aragão e Leo Lacca) Aragão teve o curta "Uma vida e outra" que foi um tipo de fragmento do roteiro original que é de 2003...

Aragão Porque na verdade a minha idéia, quando eu vi que não ia fazer o longa nem tão cedo, foi que eu comecei a pegar esses personagens e desenvolver outras histórias. Não tem nada a ver com os personagens do longa. Mas tem a ver porque é a mesma idade, mesma classe, situações parecidas. Sendo que o longa vai por outro caminho. É outro conceito. Tanto que no novo curta que eu vou lançar agora (Não me deixe em casa), talvez tenha mais relação. Nesse outro eu não tenho um personagem só, eu já quis expandir essa vontade de fazer um longa criando mais personagens. Porque eu gosto do cinema narrativo clássico e pronto. Eu gosto de filme com narrativa hollywoodiana dos anos setenta, com pai, mãe, todos os personagens que eu puder botar. Claro que de acordo com as necessidades do filme.

Certo. Mas no caso de Lacca, parece que aconteceu o inverso. Como você estava falando, em Décimo Segundo primeiro houve o formato em curta, e agora você expandiu a perspectiva do filme, é isso?

Lacca Na verdade eu até tenho medo por estar usando o mesmo título, porque as pessoas começam a achar que é um curta esticado. Mas na verdade, o curta foi algo que não deveria ter acontecido, foi um pouco precipitado ter feito o curta. É como se eu tivesse pegado um fragmento do longa e feito o curta. O processo dele foi caminhando e quando eu tava filmando o curta eu já tinha parte do roteiro do longa sendo desenvolvido. E ao mesmo tempo isso é um ponto positivo, no sentido em que eu pude fazer o filme quase como um laboratório de personagens. Tanto é que no curta os próprios personagens, os atores na preparação, eles já tiveram uma coisa do longa na caracterização e na expansão desse universo. Então o longa na verdade é isso, a expansão do universo, e o curta é apenas um fragmento.

Em relação ao Cinema Pernambucano vocês falaram da questão do regionalismo, mas podíamos dissociar o rótulo de "Cinema Pernambucano" tido como um pacote único, quando na verdade não existe uma unidade, cada projeto tem suas peculiaridades. Podemos cair no erro de dizer que os três foram selecionados pelo PAS por serem parte desse pacote. Essa diferenciação vocês percebem na escolha dos roteiros, o diferencial seria porque vocês estão fazendo um cinema que acima de tudo é universal? Daí o interesse de fazer com que vocês participem de uma oficina que vai fazer com que o processo de produção se torne mais internacional?

Severien Eu tenho um comentário em relação a isso. É talvez uma característica desse cinema pernambucano que não é uma escola, porque os filmes não têm necessariamente ligação estética ou mesmo de conteúdo, são bastante diversos. Mas eu acho que aqui, há algum tempo já, vem acontecendo algo que é meio mágico que é um grupo de pessoas que se mantém muito integras na forma e na proposta de produção do tipo de filme. Se você pensar que aqui tem vários cineastas, no sentido mais amplo, produtores, diretores, editores... que acreditam no cinema de autor. Isso não quer dizer que esse cinema seja menor ou mais fechado...

Hazin Ou mais sofrido, né?

Severien Pois é, nada disso. Vários filmes dessa nova turma têm o desejo cada vez maior de se comunicar, de ter um diálogo com o público. Não existe o interesse de se manter no nincho fechado. Mas quando o cara se mantém conectado com a proposta artística que todos os filmes têm, isso é o que eu acho que chama a atenção de uma comissão que vai lá ler os projetos. E não necessariamente questões de regionalismos, ou manifestações folclóricas, ou exotismos... Muitos dos filmes que estamos discutindo são totalmente contemporâneos, com todo o misto de aspectos que se envolvem. São relações muito contemporâneas, mesmo quando tratam temas antigos, se colocam de forma moderna.

Bandeira Acho que existe esse interesse da gente se comunicar com o público até no sentido técnico. Pelo menos da minha geração, Leo, Daniel... Tem uma galera que começou a fazer filme meio que na marra, fazendo em casa. Cada qual somos roteirista, diretores dos próprios filmes, mas a gente também sabe pegar a câmera e filmar. A gente vai absolvendo diversas funções para desempenhar o trabalho da gente. Daí nessa preocupação muito atual da gente se comunicar com as pessoas, acabamos incorporando também um pouco essa função de distribuidor e produtor do próprio filme. É muito sintomático que o PAS chame para o workshop o produtor, mas também o diretor. O diretor supostamente não deveria estar preocupado com isso, mas faz parte dessa lógica de produção o diretor incorporar o trabalho dele já pensando como vender o resultado, quando, e se o filme ficar pronto.

Hazin Inclusive, não necessariamente seria o diretor, poderia ser só o roteirista e o produtor. Porque nem sempre o diretor também é o roteirista. Essa é uma lógica que funciona bem principalmente para a gente.

Bandeira Pois é, ai vem o questionamento... O que é exatamente que o PAS detecta daquilo que a gente faz? O que é que ele espera da gente e o que é que ele espera trazer para a gente? A mim interessa pessoalmente saber que público é esse que eu estou querendo atingir onde quer que seja. E, a partir daí, eu gostaria de manter minha autonomia de conhecer esse público e dizer que aqui eu abro concessões, e aqui eu não abro concessões.

Aragão Talvez a seleção deles se deva também muito ao conjunto do nosso trabalho.

Vocês não escreveram só esses projetos que foram selecionados, vocês mandaram mais coisas, é isso?

Hazin Na verdade cada um enviava uma cópia do seu último projeto. E o argumento do novo.

Lacca Na verdade tinha que ser porque não foi nem um roteiro completo, foi só um argumento puramente narrativo. O DVD ta presente lá sua linguagem cinematográfica.

Aragão Eu acho que o curta que a gente mandou junto com o projeto ajudou pra C... Porque é muito poético dizer que foi por causa do blá, blá, blá da justificativa. (risos)

Bandeira Na verdade eu vim acompanhando algumas críticas na internet sobre o interesse específico do Festival 3 Continentes (Ásia, África e América do Sul) em filmes de países ditos em desenvolvimento. Independente do local onde será ministrado, eu escutava essa critica que é um festival Europeu que teria interesse num tipo de "freak show" do terceiro mundo. Tem muita daquela expectativa sobre o que exatamente o festival quer ver desses países. Eu realmente não sei, a julgar pelas seleções do Festival, as itinerantes, os filmes que já foram apoiados e tal, eu acredito que de fato exista um interesse nesse sentido de captar a diversidade da produção e das vivências, mas não saberia dizer até que ponto existe esse fascínio mórbido.

Aragão Na verdade esse projeto passou por uma fase que pra mim foi um laboratório. Eu pensei assim, eu vou escrever um roteiro que não importa se eu só vou fazer ele daqui a dez anos, vai ser meu laboratório, meu estudo. Serviu até para que eu aprendesse a escrever os roteiros dos curtas que eu escrevi posteriormente. Por mais bizarro que seja essa opção. Por isso o roteiro passou por tantas versões. Até quando Pedro entrou no projeto. Quando foi Pedro?

Pedro 2007.

Aragão Pronto. Quando Pedro entrou no projeto, já foi no momento de fazer com que agora ele se torne realidade e entrar no PAS é como se tivesse sido o primeiro passo no sentido de colocar a prova. Eu estou esperando ouvir alguma coisa dos especialistas. Quero que eles cheguem para dizer... Olha o seu roteiro ta uma m... Sei lá... Algo do tipo.

Vocês querem ter um feedback do que vocês estavam fazendo?

Aragão Pois é, durante o processo eu tive vários feedbacks que estavam fragmentados até pelo trabalho nos curtas. Tipo saber que uma funcionou, e que o longa também vai ter. E até dos amigos e das pessoas que estão envolvidas.

Então essa etapa seria mais de profissionalização do processo. De ter o crivo dos "experts" dizendo o que é que vocês estão acertando, o que estão errando, o que vocês precisam fazer para melhorar a carreira dos filmes lá fora. Basicamente é esse suporte?

Aragão Pois é, até porque uma vez eu estava em um Festival e um cara de Sundance chegou pra mim e falou, "Só converso com você quando você tiver um longa". Se nem com longa os caras conseguem ganhar dinheiro. Com curta não dá. Você está num processo diferente (falando com Bandeira), esse teu projeto agora pode ser o primeiro projeto com potencial internacional, mas você já tem um longa na bagagem. Você vai pelo menos poder negociar com os produtores internacionais. Traduzindo, não adianta você ir para um Festival Internacional sem ter pelo menos um longa escrito.

Bandeira É na verdade, é aquilo que a gente já vivia como realizador de vídeo digital, já havia esse preconceito. Você é meio que café-com-leite.

Aragão Eu respeito muito Fernando Spencer, Edgar Navarro... Que passaram muito tempo fazendo curta, mas assim, comercialmente é o inverso. Curta é menos, infelizmente. Você ter 150 mil para fazer um curta, tudo bem, no fim das contas a gente sabe que é o que tem que ser. Mas o trabalho que dá e o processo.

Lacca É interessante porque entre a gente aqui, eu pensei agora que nunca ganhamos dinheiro para produzir curta, sempre só para finalizar. (risos) Essa questão de orçamento é outra coisa que eu fico me questionando, porque muitos orçamentos aqui de longas, e de curtas, se baseiam em publicidade e na verdade a gente tem que se basear em outra coisa, é outra proposta, mas também não é fazer sem dinheiro. É fazer com todo mundo ganhando, mas de forma consciente. Você vê projetos de curtas com 300 mil, que é um orçamento quase possível de fazer um longa dependendo do projeto.

Bandeira Pois é, mas é que se existe uma lógica - a lógica do terceiro mundo - eu acho que é exatamente essa. Existem projetos para curtas mesmo, e cada projeto tem seu respectivo orçamento pra ser feito da maneira correta, gerando empregos, com estimativa de público e etc.. Tem filmes que são pensados pra ser feitos com R$200,00, tem filmes que são pensados para serem feitos com R$ 300 mil, isso é legítimo. Acontece que a gente vive dentro de um sistema onde quem pega R$300 mil tem que pensar imediatamente em que é esse dinheiro, que vai para cultura, não foi gasto. É como se esse patrocínio dado pelo Estado para cultura, fosse tido como um saque dos artistas, mas isso é porque a gente vive o tempo inteiro com a falta de dinheiro para fazer as coisas. Então num país como esse, ou você usa o dinheiro do Estado, ou o dinheiro de um produtor privado que vai colocar a grana dele e vai correr o risco. A questão do risco é que a gente não está acostumado a lhe dar.

Hazin Não tem um mercado. A gente literalmente não tem um mercado, a gente tem um patrocinador único que é um “papai” que dá o dinheiro para você fazer um filme sem se preocupar com nada, com lucro garantido tanto para sua empresa, como todos os salários pagos. E depois já era não existe a preocupação de criar esse mercado.

Bandeira Pois é, independente desses fatores, o fato é um só. Por conta disso tudo, se faz cinema realmente de um jeito diferente. Temos uma narrativa diferente, uma estética diferente, tudo sempre acompanhando essa questão do dinheiro e de como vai ser usado. Por exemplo: a gente filma "Amigos de Risco" usando uma câmera SD, que na época já era muito corrente, mas não era tida como profissional para fazer um filme para cinema. Outro exemplo, que é uma questão pessoal minha, eu não filmo histórias que tenham chuva. Por quê? Porque eu penso numa produção de um carro de bombeiro fazendo uma chuva artificial, molhando toda cidade, desperdiçando, pra fazer uma cena do meu filme. O fato é que isso altera a forma como eu penso as minhas histórias.

Severien Uma coisa que é importante é que quando o processo criativo é dissociado da produção, pode se tornar algo simplesmente do mundo da fantasia. Se você começa a pensar no filme, sem pensar em como você vai realizar aquilo, você ta se assassinando como realizador. No sistema que a gente vive, e que é muito recente, porque há menos de 20 anos atrás estava sendo lançado o primeiro longa-metragem depois de uma lacuna de três décadas. Muito do que está acontecendo agora é fruto de um processo de aceleração de produção de muita gente. Há muito pouco tempo atrás a gente tava no nada, tava no zero, e em 15 anos muita gente começou a trabalhar pensar, e levar em conta essas questões para poder hoje a gente ter um cinema, uma produção.

Hazin E tentando se equiparar a um mercado internacional que não teve essa lacuna, que hora nenhuma parou. E hoje a gente ta correndo conta o tempo para tirar o atraso.

Lacca É na verdade, eu acho que a maior lacuna que você falou é com relação ao mercado principalmente. Porque em relação à realização, a gente já tem uma boa base de curta, sem falar em película. Longa é que ainda é difícil porque, por exemplo, nessa premiação de ontem (Abracine) ainda negligenciam cineasta como Tonacci, Julio Bressani, e tantos outros... Apesar de que o filme que ganhou foi um filme que realmente teve muito público, né?

É, inclusive, eu ia pedir para vocês comentarem os prêmios de "KFZ-1348" e "Estômago", que foram dois filmes que passaram pelo PAS na edição de 2006. Como vocês lidam com essa questão de premiação. É um retorno do trabalho, vocês fazem cinema para isso?

Lacca Não, não. Eu acho que todos concordam que premiação é uma coisa que está quase como previsão do tempo. (risos) Não é uma coisa que você vai se basear também. Mas o que eu falo não é nem necessariamente relativo às premiações em si, mas o que eu falo também é em relação às indicações. Para mim nenhum ali é uma referência minha de cineasta brasileiro. O cinema brasileiro ainda fica naquele impasse de achar que o filme que dá público é aquele filme engraçado. O problema não é a narrativa do filme, é uma questão muito maior e estrutural. Por exemplo, Carlão, com o "Filme Demência", deu muito mais público do que "Estômago".

Aragão É, anos 70.

Lacca É outra coisa, é outro momento. Agora a gente não pode entrar nessa de abrir mão e começar a fazer "Se eu Fosse Você" para estar dentro.

Bandeira É porque também a gente costuma falar de público sempre no singular. Mas na verdade existem uma série de públicos que não vão para o cinema. Existe um público hegemônico que tem a grana para freqüentar e usualmente o gosto desse público é tido como referência. Mas não é bem assim, não é que você faz um filme para ninguém. Sempre existe alguém para vera aquele teu filme. Só que esse público dificilmente vai ao cinema, dificilmente se encontra e troca idéias.

Aragão Eu acho que o pior filme lançado em Holywood dá mais público do que "Se eu fosse você".

Para encerrar, qual a expectativa que vocês têm em relação a esse quatro dias de oficinas. Como cineastas, diretores, produtores, o que vocês acreditam que pode mudar no trabalho de vocês?

Lacca No meu caso, eu estou muito interessado na parte de roteiro...

Aragão É, eu também.

Lacca Eu acho que é a que mais pode me ajudar a entender e enxergar o meu projeto. Porque questões relacionadas ao pitching, eu acho que tem mais a ver com produção. Mas como Daniel mesmo falou que o diretor participa desse processo, eu também me interesso. Só que o que de verdade eu estou muito empolgado é a questão de roteiro.

Aragão O que for melhor para gente aqui para que a gente se aproxime mais do mercado internacional é proveitoso. Porque o mercado tem interesse em contratar diretor de terceiro mundo; São os caras que fazem filmes mais baratos, são mais sensíveis; mais criativos e menos mimados. Sabem dar valor a dinheiro. (risos). Para mim Rio de Janeiro e São Paulo é outro país, cinema de lá para mim é M... Eu não vi nenhum filme de lá que eu gostei esse ano. Acho que só Eduardo Coutinho (Jogo de Cena). Os filmes que a gente faz aqui é outra coisa, existe uma divisão mesmo, é outra história tudo diferente.

Lacca Inclusive quando se tenta trazer esse mote de lá pra cá, eu acho que é um desastre

Hazin Cinema de Guerrilha, não é Daniel?

Aragão A questão não é nem essa. Isso já era. A discussão já é outra, não é a questão de fazer com muito, ou pouco dinheiro. Se a gente tiver muita grana para fazer o longa a gente vai continuar fazendo diferente.

Bandeira Eu acho que é consenso aqui que o PAS é uma ferramenta importante, mas ela não é vital, não é uma tábua de salvação. Eu acho que a relação da gente com o Produire é exatamente um ponto de comunicação, de contato com um outro mercado. É uma nova etapa que a gente está querendo atingir. Mas a lógica continua exatamente a mesma de quando a gente começou. Sem a gente se conhecer, sem a gente se falar, e sem a gente trocar idéia entre a gente, ninguém tinha saído do canto. Então com o PAS nós estamos reproduzindo essa tática. Não é uma novidade para a gente, na verdade é só a instância que está um pouco mais ampla.

Severien Eu acho que tem uma parte das informações de como esse jogo é jogado no nível internacional, que não está na internet, não ta em livro, não ta em lugar nenhum... ta dentro das pessoas que participam desse jogo. Isso é uma coisa que me cria expectativa em relação ao PAS como produtor, que eu acho que é importante esse tipo de diálogo, de conversa que não é publicada, digamos assim. (risos)


* A entrevista foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 20/04/2009 e pelo site cinemaescrito.com

segunda-feira, 16 de março de 2009

Pernambuco em cartaz em Curitiba*

Festival de Teatro terá três produções pernambucanas, de amanhã até o dia 29

O teatro pernambucano já nos deu muitas provas de sua força e qualidade. A partir dessa semana, o talento desses artistas deverá ser reconhecido por outros públicos. O Festival de Teatro de Curitiba, que acontece de 17 a 29 de março, selecionou em sua programação três espetáculos de companhias do Estado. São eles: “Fio invisível da minha cabeça”, da Companhia do Ator Nú; “... No Humor Como na Guerra”, da trupe Galpão das Artes; e “Uma viagem através das estrelas” do grupo Ciência Cênica. Sendo as duas últimas de municípios do interior: Limoeiro e Petrolina, respectivamente. A escolha ratifica o espaço que o teatro local vem ganhando em âmbito nacional, já que o Festival de Curitiba é um dos mais importantes festivais do País.

Nas apresentações o público curitibano terá a oportunidade de ver diferentes facetas do que tem sido produzido nos palcos daqui. Em “Fio invisível da minha cabeça”, o diretor Breno Fittipaldi explora o viés dramático do texto através da busca pela verdade dos sentimentos e questionamentos acerca de conceitos pré-concebidos. Monólogo baseado no conto “Além do Ponto”, do livro “Morangos Mofados”, do escritor gaúcho Caio Fernando Abreu, o espetáculo revela o cotidiano conflituoso de um homem em uma atmosfera noturna e urbana muito próxima da que viveu o autor.

Já em “...No humor Como na Guerra”, a trupe de teatro limoeirense usa o tom mais irreverente e busca na comédia uma forma de fazer uma crítica à política do país. Na bagagem, o grupo também leva peças características do artesanato local e panos de pratos estampados com poesias de autores de Limoeiro. Tudo isso, para dar mais suporte às artes cênicas e também para unir as diferentes linguagens com que o Galpão das Artes trabalha. O espetáculo, que tem direção de Charlon Cabral, recebeu o apoio das prefeituras de Limoeiro e Recife para conseguirem as passagens.

Com o espetáculo “Em Viagem através das Estrelas”, o grupo “Ciência Cênica” formado pelos alunos da Universidade do Vale de são Francisco, os arte-educadores encontraram no teatro uma excelente forma de fazer a relação entre arte e ciência. A peça conta a história da Revolução Copérnica e mostra como ela alterou a percepção do que até então, as pessoas entendiam pelo Cosmo. É abordando esse universo das conquistas científicas da humanidade, sem deixar de lado as temáticas e elementos da cultura nordestina,que o grupo de jovens atores tem emocionado plateias em todo o Estado, e agora também ganha os palcos de Curitiba.

Todos os espetáculos selecionados farão pelo menos quatro apresentações em datas diferentes. A programação completa do Festival de Curitiba está disponível no site www.festivaldecuritiba.com.br


* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 16/03/2009