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sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

A morte segundo Abujamra

Controverso e dono de um humor ácido, Antônio Abujamra não é o que pode-se chamar de artista carismático. Entretanto, seu talento cênico, como diretor e ator - são quase 58 anos de palcos -, é incontestável. Longe dos palcos recifenses desde agosto de 2008, quando encenou seu monólogo, “A voz do provocador” - inspirado no programa de TV “Provocações”, que vai ao ar pela TV Cultura -, ele volta a Cidade, agora com o espetáculo “Começar a Terminar”, da Companhia Anjos Pornográficos.

A montagem é uma das principais atrações de final de semana da programação do 16° Janeiro de Grandes Espetáculos, com apresentações amanhã e domingo, às 20h30, no teatro Barreto Júnior. As sessões terão entrada franca e os ingressos estarão serão distribuídos com 1h de antecedência, ficando sujeitos a lotação do teatro.

Em um palco escuro, sob duas grandes lâmpadas, um homem solitário compartilha suas inquietações. As palavras de diversos personagens do dramaturgo Samuel Beckett estão presentes nos textos de diferentes origens e épocas são unânimes na temática: morte e iminência do fim. O texto “Começar...”, assinado por Abujamra, teve como inspiração na do autor irlandês, que curiosamente nunca foi um dos mais admirados pelo ator. Conhecidamente um partidário convicto do dramaturgo alemão Bertold Brecht. Abujamra divide a direção do espetáculo com Hugo Rodas e o palco com os atores Miguel Hernandez e Nathália Corrêa.

Vale a pena

Duas montagens pernambucanas que cumpriram temporada em 2009 também são destaque na programação do final de semana. A primeira delas é “A Dona da História”, da Trup Errante & Pé Nu Palco Grupo de Teatro. O espetáculo é uma comédia-romântica, na qual duas atrizes vivem uma mesma mulher - uma no passado, outra no futuro. O texto, de João Falcão, foi sucesso nos palcos com a interpretação de Marieta Severo e Andréa Beltrão e ganhou uma adaptação para o cinema, sob direção de Daniel Filho. Agora, o espetáculo é encenado pelas atrizes Cátia Cardoso & Raphaela de Paula, e direção de Thom Galiano.

Outras atrações

Chuva de Caju - Hoje, às 21h, no teatro de Santa Isabel - Ingressos R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada)

II Trasporto Umano - Amanhã, às 17h, no teatro Apolo - Ingressos R$ 10 (preço único)

O Encontro de Capiba e Nelson Ferreira no Céu - Amanhã, às 20h, teatro de Santa Isabel - Ingressos R$ 30 e R$ 15

Entre - Amanhã, às 21h, no teatro Marco Camarotti - Ingressos R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia-entrada)

Sobre Um Paroquiano - Domingo, às 19h, no teatro Hermilo Borba Filho - Ingressos R$ 10 (inteira) R$ 5 (meia-entrada)

Por Um Fio Em Lã - Domingo, às 20h30, no teatro Apolo - Ingressos R$ 10 (inteira) R$ 5 (meia-entrada)

* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 22/01/2010

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Dona Flor traz novidades para palco da UFPE

Faz pouco mais de um ano que a montagem de um dos maiores clássicos da literatura brasileira, “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, passou pelos palcos do Recife. Agora, o espetáculo, que faz uma adaptação da obra de Jorge Amado, retorna à cidade comemorando dois anos de sucesso de sua temporada pelo Brasil, e com mudanças no elenco. A maior delas, é relativa à personagem principal do triângulo amoroso mais conhecido da história. Florípedes (a Dona Flor), antes interpretada por Carol Castro, agora ganha vida na pele de Fernanda Paes Leme, que ao lado de Marcelo Faria (Vadinho), e Duda Ribeiro (Theodoro), dá à peça um tom ainda mais apimentado.

“Com a entrada da Fê começamos a fazer um desenho novo para o espetáculo. A nova Flor é mais alegre e espevitada. Isso também fez com que o Vadinho ficasse mais safado. Apesar da estrutura da montagem ainda ser a mesma, estamos mais leves, mais soltos mesmo” afirmou Marcelo Faria, que também assina a produção da montagem.

Outra novidade no elenco é a entenda do ator Jonas Torres no papel de Mirandão, amigo de Vadinho. “Mesmo com as mudanças continuamos bastante afinados com o texto. Ensaiamos em todo lugar que chegamos, repassamos a parte musical do espetáculo... tem sido uma ótima experiência” destacou o ator.

E de fato “Dona Flor...” se confirma como uma dos grandes sucessos teatrais da história recente. Ao todo, a montagem já soma 44 cidades visitadas, e um público na casa dos 210 mil expectadores. Números impressionam dentro do cenário das artes cênicas.

Serviço
“Dona Flor e Seus Dois Maridos”
Teatro da UFPE - Cidade Universitária
Sábado, às 21h, e Domingo às 20h
Ingressos: R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia-entrada)

Informações: 3207-5757

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Maior idade do deboche

Trupe do Barulho completa 18 anos de muito riso e casa cheia

Quando começaram apresentando um “pocket-show” na boate “Araras Dancing Bar” no início da década de noventa, os atores que viriam a formar a companhia de teatro “ Trupe do Barulho”, não podiam esperar que fariam uma trajetória de tanto sucesso nos palcos. O show de humor “Cinderela a História que sua Mãe não Contou” era baseado no escracho e tinha duração de 40 minutos. Em menos de um ano o púbico praticamente dobrou e a casa já não dava mais conta da demanda. Foi quando surgiu a ideia de estender o show e transformá-lo em um espetáculo para teatro.

Mas, subir aos palcos não foi tarefa tão fácil. O grupo, formado na época pelos atores Jason Walace, Aurino Xavier, Jô Ribeiro , Flávio Luiz, Ináldo Oliveira, Luciano Rodrigues e Edílson Ryggard, encontrou muitos obstáculos para conseguir que a montagem baseada no humor rasgado fosse aceita pelos teatros da Cidade. Chegaram ao teatro Valdemar de Oliveira, casa que acolheu o grupo, e os abriga até hoje. “Devemos isso a Reinaldo Oliveira, que nos abriu as portas com a condição de que a equipe estivesse de acordo. Graças a ele estamos lá até hoje”, relembra Aurino Xavier, um dos fundadores da companhia.

Estrearam no palco à 0h do dia 20 de setembro de 1991 com casa lotada. “ Tivemos uma recepção muito boa porque na época havia um ‘boom’ do movimento das dragqueens e retratamos exatamente esse universo. Nossa estratégia para atrair o público era dizer que o espetáculo tinha de tudo, mas o que acontecia é que estávamos contando uma fábula infantil de uma forma diferente. O que fazemos é brincar com a safadeza, usar a linguagem popular da forma que ela realmente é falada, isso nos aproxima do público. Não existe baixaria. O palavrão está dentro de um contexto”, destaca o ator.

Hoje, 18 anos depois, foi justamente o escracho e o deboche tão característicos da Trupe que os alçou a categoria de uma das mais antigas e bem sucedidas companhias de teatro do Estado. Ao todo, são 10 espetáculos no repertório de comédia do grupo, sendo apenas um deles voltado para o público infantil: “O Mistério das Outras Cores”.

É bem verdade que ao longo dessa jornada a Trupe sofreu algumas baixas. Ainda no final da década de noventa, Jason Walace, protagonista do principal espetáculo da companhia, deixou o grupo para apostar em novas possibilidades para seu personagem “Cinderela”. E em 1997, o falecimento de Edilson Ryggard - que dava vida ao personagem do príncipe do espetáculo - também abalou bastante o elenco. Porém, nada que apagasse o brilho e a vontade de fazer rir.

Em meio a uma trajetória controversa, e aquém do olhar atravessado dos críticos, que insistiam em torcer o nariz para o tipo de representação feita pela Trupe do Barulho, o grupo conseguia, ano após ano, renovar seu público e garantir o sucesso das bilheterias. Eduardo Japiassú, um dos atores do elenco de “Apareceu a Margarida” - montagem mais recente da companhia - lembra que ao entrar para a Trupe conseguiu pela primeira vez o reconhecimento dos fãs, mesmo depois de mais de 20 anos nos palcos. “ A relação do público com a trupe é o que existe de mais fascinante. Temos blogs, fã-clubes, e gente que não perde um só espetáculo”, Disse Japiassú.

O reconhecimento é o reflexo de um trabalho sério e profissional feito por todos aqueles que apóiam o trabalho da companhia. “ Fazemos um trabalho de pesquisa igual ao de qualquer outro grupo, temos compromisso e responsabilidade com nossos personagens. Com isso, conseguimos atingir todos os públicos. Nossa plateia não é segmentada, temos gente que vem de Boa Viagem, e do Auto do Mandu. Todos se divertem da mesma forma”, afirma Flávio Luiz.

HISTÓRIA

Entre alguns dos muitos sucessos que marcam a trajetória da Trupe do Barulho, “Cinderela - A História que Sua Mãe não Contou”, é sem sombra de dúvidas o espetáculo que teve mais repercussão no repertório da companhia. Tanto que foi o personagem que projetou Jason Walace a uma perspectiva Nacional. E fez do bordão “Ôxe Mainha” um verdadeiro hit.

O sucesso foi tanto que os atores costumam contar com orgulho um episódio no qual, certa vez, quando se apresentavam pelo projeto “Todos com a Nota” esgotaram a capacidade do teatro do Parque e levaram uma multidão à Avenida Conde da Boa Vista em busca de ingressos. A procura foi tanta, que forçou os organizadores do evento a agendarem uma nova apresentação. Dessa vez o local escolhido foi o ginásio do Geraldão que também teve sua capacidade esgotada e confirmou perante todos que a fórmula do riso e do deboche dá resultado.

* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 21/09/2009

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Teatro que faz a diferença

Malkavian encontrou no próprio corpo sua melhor forma de expressão

Para muitos, subir em um palco, encarar uma plateia e representar um personagem é um verdadeiro desafio. Difícil de ser enfrentado! Imagine agora, fazer tudo isso quando se tem vergonha do próprio corpo. Quando se tem uma deficiência física que o torna diferente da maioria das pessoas. O obstáculo a ser transposto torna-se ainda maior. Márcio Malkavian tem 23 anos, e já pode dizer que tem uma longa carreira nos palcos. São quase dez anos de experiência trabalhando como ator e bailarino, e, não fosse por um problema de má formação congênita que lhe tirou o movimento das duas pernas, Márcio seria igual a qualquer outro ator.

Porém, foi justamente a sua deficiência que o levou a fazer escolhas diferentes. Ainda adolescente ele tinha muita dificuldade em aceitar sua condição. “Eu me sentia muito tímido, tinha vergonha de ir para a escola porque meu irmão mais velho costumava me levar carregado nas costas”. Foi quando, aos 14 anos, ele decidiu entrar para uma oficina de teatro que acontecia em frente à escola onde estudava, no Sítio da Trindade. Na época, Márcio vivia uma fase muito difícil. “Já tinha pensado várias vezes em suicídio, não conseguia ver possibilidades”, disse o ator. O primeiro contato com as artes cênicas foi um verdadeiro divisor de águas. A oficina ministrada pelo diretor Gustavo Vilar dava ênfase a tudo o que Márcio mais temia: a expressão corporal. Era um teatro físico e vigoroso que buscava, principalmente, ressaltar as diferenças de biótipos humanos.

Em “Paralelas”, seu primeiro espetáculo oficial como ator, Márcio pôde testar em definitivo sua capacidade de exposição. “Eu testei o meu limite, estava no palco para me mostrar para as pessoas do jeito que eu sou. A partir dali eu perdi essa posição de coitadinho e quebrei todos os meus tabus”.
Este foi apenas o começo de uma carreira repleta de superações. Dedicado e empenhado ao ofício que escolheu, Márcio nunca parou de aprender. E os desafios nunca pararam de surgir. Em 2008, ele que até então só havia estado no palco como ator, foi convidado pela diretora do grupo de dança Grial, Maria Paula Costa Rêgo, para fazer parte do corpo de bailarinos do grupo. “Ela me perguntou se eu já havia pensado em ser bailarino, e eu respondi que não, justamente porque a minha deficiência é nas pernas”, lembrou Márcio. Na época o grupo estava trabalhando em um projeto no qual os bailarinos dançavam presos a uma parede. Foi a oportunidade perfeita. O espetáculo permitia que ele dançasse adaptando a coreografia às suas possibilidades.

As oportunidades e as conquistas que foram sendo trilhadas em seu caminho profissional serviram para fortalecer o ator também como pessoa. “Hoje sou um homem totalmente diferente. No teatro nunca senti nenhum tipo de preconceito, sempre consegui trabalhar de igual para igual. O preconceito maior ainda é fora do palco, as pessoas acham estranho até o fato de eu ser deficiente e usar piercings, como se a minha deficiência fosse um empecilho para minha maneira de me expressar”, ressaltou Malkavian.

E foi justamente pelo fato de nunca ser taxado de “diferente” que Márcio conseguiu alcançar resultados tão positivos. “O trabalho que fazemos com o Márcio é igual ao de qualquer outro ator, inclusive no que diz respeito à preparação corporal. O que faz a diferença no trabalho dele é a qualidade da sua interpretação. Ele se dedica, estuda, e isso se sobrepõe a sua deficiência. Ele é parte do grupo como qualquer outro”, afirmou o diretor Benedito Serafim, que atualmente dirige Márcio nos espetáculos “O Auto da Barca do Inferno” e “Ex-miseráveis”, da Cia. de Teatro Falaz.

Nesse último espetáculo, inclusive, Márcio realizou a conquista de mais um sonho. Divide o palco com a diva do teatro Pernambucano, Geninha da Rosa Borges. “Quase não acreditei quando ela chegou para o ensaio. É uma responsabilidade bem pesada estar no palco ao lado de Geninha”, disse Márcio com um sorriso estampado no rosto de quem conseguiu reverter a história de uma vida em função dos palcos.

* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 27/08/2009

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Damas do teatro Pernambucano: quatro gerações e muitas histórias

Foto: Robert Fabisak
Não é novidade para ninguém que o teatro pernambucano tem uma das produções mais expressivas e consistentes do País, mesmo estando afastado do eixo Rio-São Paulo. Ao longo de várias décadas, atores, diretores e produtores trabalharam e enfrentaram todo tipo de obstáculo, para garantir que suas peças chegassem aos palcos. Nessa jornada, alguns nomes já se tornaram consagrados, enquanto outros começam a construir uma história. Em comum, uma mesma paixão: O teatro.

Para ajudar a contar um pouco dessa trajetória, a Folha de Pernambuco reuniu quatro gerações de mulheres do teatro pernambucano. Geninha da Rosa Borges (87), considerada a primeira-dama do teatro de Pernambuco, Socorro Raposo (77), a eterna compadecida de Ariano Suassuna, Fabiana Pirro (34), sócia e companheira de palco de Lívia Falcão no premiado espetáculo “Caetana”, e Olga Ferrario (17), protagonista da peça infantil “A árvore de Júlia”, despiram-se de rótulos, e ajudaram a fazer o registro de uma história da qual foram protagonistas. O cenário dessa conversa não podia ser outro: Teatro de Santa Isabel. Palco de tantas histórias vividas por essas atrizes, que escolheram o teatro como forma de expressão.

Entrevista:

Folha: Voltando ao passado, quais são as principais diferenças entre o teatro daquela época e o de hoje?
Geninha: O que existia era um preconceito muito grande. Uma mulher não podia pisar num palco. Dr. Valdemar (de Oliveira) dizia que as mocinhas podiam pisar num palco até para receber diploma de datilografia. Mas nunca para fazer teatro. Era o mesmo que ser uma mulher vagabunda.
Socorro: Tornar-se atriz não era uma profissão bem vista.
Geninha: Foi quando Dr. Valdemar, por conta do centenário da medicina, recebeu um convite para fazer um show com médicos. Ele disse vamos fazer uma peça de teatro só com médicos, senhoras e filhas de médicos. A plateia o que seria? Os amigos dos médicos. Dessa forma ninguém iria falar da mulher dos amigos que estavam no palco.O sucesso foi tão grande, que foi o estopim para criação do Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP). Ele pegou gente da mais alta sociedade recifense de todas as áreas e colocou no palco no TAP.
Olga: Pois é, hoje isso já se democratizou mais, não é?!

Folha: Graças a momentos como esse de Geninha, que forçou a barra e foi para o palco.

Olga: Pois é, eu tenho que agradecer. Elas são as precursoras nisso. Por acabar com o preconceito. Hoje posso estar no palco sem ter que enfrentar esse tipo de coisa.

Folha: E por que teatro, e não qualquer outra forma de expressão artística?

Geninha: Eu hoje tenho a experiência de todos os ramos. Já fiz televisão, teatro, cinema, curta, média, longa. Já fiz de tudo. Eu respondo, sem titubear, que escolho o meu teatro. Quando fiz “Da Cor do Pecado” o diretor pedia para que todo mundo olhasse para uma mesa e imaginasse um templo, que não estava lá, ia ser colocado pelo computador. Eu quero lá um negócio desse? Prefiro, meu teatrinho que a gente cresce na emoção. (risos)
Socorro: Eu digo sempre que o teatro é a arte nua e crua. Se você faz bem, está dado o recado. E cinema e televisão você repete quantas vezes for necessário. Em teatro, não.O teatro é emoção pura, e o ator trabalha com emoção.
Fabiana: Todos dizem que o cinema é uma arte muito do editor. O teatro eu acho que é arte do ator mesmo, a gente tem diretor, figurino, cenário, mas quem está no palco com a cara, a emoção e a bagagem é o ator. Você escutar de Geninha que é o teatro que ela escolhe, uma pessoa que tem tantos anos dedicados às artes cênicas, é porque realmente é onde chamamos a responsabilidade pra gente.

Folha: O que mudou em relação a produção e ao público?

Geninha: O esvaziamento do teatro. Eu entendo, porque, naquela época, só existia o teatro como atração. As pessoas se vestiam bem para irem às peças. Agora você liga a televisão tem vários programas, tem shows, muitas escolhas. Agora, já que estamos só mulheres reunidas, acredito que temos que lutar pela volta do bom teatro. Porque hoje em dia só se vai ao teatro para rir e ouvir safadeza.
Fabiana: Mas nós temos essa preocupação. Temos duas companhias, já montamos “Caetana”, “A Árvore de Júlia” e sempre temos esse cuidado. Nosso teatro é experimental, é um teatro buscando uma linguagem, e um texto, que realmente faça a pessoa pensar.
Socorro: Não sou contra o escracho, nem contra o deboche. Mas eu acho que é importante a gente fazer alguma coisa que ajude a elevar nosso espírito Que possa gratificante para quem faz, e também interessante para quem assiste.
Olga: Também acho que não vale a pena reproduzir algo que a gente já vê na vida, já vê na TV. Arte pra reproduzir aquilo que já existe. Só manter igual. Não é interessante.

Folha: Existe uma tendência dos espetáculos fazerem uma reprodução, como Olga falou, para garantir o mínimo de bilheteria. Uma espécie de fórmula do sucesso?

Socorro: Mas ai é que está, no nosso tempo a gente fazia teatro sem ganhar dinheiro.Hoje, a primeira coisa que o ator pergunta, é qual é o cachê? Nunca ninguém se preocupou com isso, a gente fazia teatro por amor.
Geninha: E o meu continua sendo. Não seria no fim da minha vida que eu iria rasgar a minha bandeira de amadorista.
Fabiana: É aí onde está um pouquinho da diferença da época delas para a nossa. Eu acho lindo, quando eu escuto elas falarem que o importante não era o dinheiro, era o amor. É quase um pouco como a gente fala do futebol. Querer comparar aqueles grandes jogadores de antigamente, que jogavam por amor a camisa. Agora é tudo pelo dinheiro. Geninha e Socorro tinham esse amor ao time. Mas ao mesmo tempo, hoje em dia, eu digo isso porque eu sou mãe, tenho uma companhia para tocar e a gente tem uma folha de pagamento para cumprir e poder manter os espetáculos.

Folha: Hoje em dia também percebemos que os elencos estão cada vez mais reduzidos. De uma certa forma, isso não limita a escolha dos textos?

Fabiana: É uma opção de praticidade, para conseguir conciliar a disponibilidade do elenco. Mas o texto dependendo da história que se queira contar, isso é bem flexível. Em “Caetana” mesmo, eu faço sete personagens. Às vezes as pessoas até brincam dizendo que parece que a peça tem mais gente.
Olga: É a montagem que vai se adaptando ao elenco. Nada fica submisso ao texto, isso é algo que se constrói.

Folha: Saindo um pouco do universo do teatro, no começo do ano Geninha fez mais uma participação na televisão, vivendo um personagem de destaque na trama global “A Favorita”. Como foi essa experiência?

Geninha: O diretor me perguntou se eu queria ganhar um presente de Natal. Eu respondi que sim, mesmo sem saber o que era. Foi ai que ele me convidou para interpretar a mãe de Silveirinha. Recebi as passagens junto com o texto. Agora eu perdi minha identidade. Não sou mais Geninha da Rosa Borges, sou a mãe de Silveirinha. (risos)
Fabiana: Você pode ter certeza que o Recife inteiro parou no dia para lhe ver.
Geninha: Mas sabia que isso me deu uma renovada, que vocês não podem imaginar.


A minha primeira vez no palco...


Sejam elas divas consagradas, ou atrizes começando a trilhar um caminho no teatro. Foi quando pisaram pela primeira vez em cima de um palco, que elas perceberam que seria aquilo que fariam até o resto de suas vidas. Aqui, Geninha da Rosa Borges, Socorro Raposo, Fabiana Pirro e Olga Ferrario dividem conosco as emoções que sentiram em suas estreias inesquecíveis.

Geninha da Rosa Borges:
Descobri que seria atriz antes, ainda no colégio. Na verdade, as freiras me descobriram. Tudo que acontecia no colégio, quando chegava uma visita importante, mandavam me chamar. O Papa Pio XII, quando ainda era núncio apostólico, veio ao Recife, e foi fazer uma visita ao Colégio São José. As freiras me deram a missão de recitar uma poesia em italiano. Eu não tinha a menor ideia do que estava dizendo. Por isso, minha vida já foi dirigida pequenininha, eu não tive trabalho nenhum. Um pouco mais tarde, Dr. Valdemar (de Oliveira) foi pedir aos meus pais para que eu entrasse no TAP, ele precisou fazer o convite na minha casa e com hora marcada. E depois que eu entrei no teatro, a família toda passou a se envolver. Meu pai ficou sendo o tesoureiro do teatro, minha mãe virou contra-regra. Em dia de espetáculo a casa ficava vazia, porque até os móveis vinham para o teatro.

Fabiana Pirro:

“Desde de muito pequena, minha mãe me levava ao teatro. Sempre que passava aqui pelo Santa Isabel, ficava encantada e dizia para mim mesma, que um dia ia estar no palco desse teatro. No início, falava da boca pra fora, mas no fundo acreditava nisso. Depois eu comecei a fotografar, passei 10 anos trabalhando como modelo, mas ainda assim dizia: Eu quero me apresentar nesse teatro! Uma vez eu disse isso a minha mãe, e ela me disse que o único jeito era virar atriz. Comecei a pensar que já estava envolvida no meio artístico (moda, fotografia), e já fazia parte do mesmo caldeirão. Depois disso fui parar lá na Paixão de Cristo. Em uma das minhas vindas de São Paulo, Xuruca Pacheco me convidou para fazer a cena do bacanal de Herodes. Quando eu vi 10 mil pessoas na frente tive certeza de que fiz a escolha certa. Logo depois, quando subi no palco do Santa Isabel percebi que o que você quer de coração, você consegue. Me tornei atriz por culpa do Santa Isabel.”

Olga Ferrario:
Na verdade eu costumo dizer que comecei na barriga da minha mãe (Lívia Falcão), ela esteve em cena durante os nove meses da gestação. Desde muito pequena, quando me perguntavam o que eu queria ser, eu respondia: Atriz! Continuei fazendo teatro na escola e já tinha muita desenvoltura no palco. Em um curso do TAP, participei da peça “Mateus e Caterina”. Ali foi a primeira vez que senti a energia do grupo todo reunido antes de entrar em cena. Depois disso, lembro de dizer a minha mãe que tinha decidido que era isso o que queria fazer. Foi então que surgiu a oportunidade em “A Árvore de Júlia”. Elas já tinham o texto, e queriam montar há algum tempo, mas faltava uma atriz para viver a protagonista. Foi então que Fabiana disse a minha mãe que Júlia era eu.

Socorro Raposo:

Eu comecei como rádio-atriz na rádio Clube Tamandaré. Mas em teatro mesmo, eu entrei por uma acaso. Clênio Vanderlei foi quem me deu convites para eu ir assistir ao “Auto da compadecida”. Eu fiquei muito feliz, porque nunca tinha ido a um teatro de verdade. Dois dias depois, Clênio foi à minha escola e disse que iria me levar a casa dele para que eu decorasse o texto do “Auto”. Eu perguntei: Mas não é o espetáculo que eu vou assistir? E ele disse: Você não vai mais assistir, você vai fazer. A atriz que ia fazer o papel, Mírian Nunes, havia desistido. E ele lembrou da minha emoção quando recebi os convites. No dia 11 de setembro de 1956, fiz minha estreia como atriz, vivendo a compadecida, aqui no Santa Isabel. Estava tão nervosa que quando procurei o texto na mente, não me veio uma palavra. Rezei com fé, pedindo para conseguir dar todo o texto. De repente consegui falar tudo certinho. Só sei que quando terminou o espetáculo eu estava com 40 graus de febre, com os olhos e a boca tão inchados, que fui parar no pronto socorro. Foi uma estreia inesquecível.

* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 08/06/2009

terça-feira, 14 de abril de 2009

Superação através do palco

Pessoas comuns encontram no teatro uma forma para vencer a timidez

Característica, charme, cautela... A timidez pode ser vista de várias maneiras diferentes e, muitas vezes, pode ser mal interpretada dentro de certos contextos sociais. Quando existe em excesso, este traço pode deixar de ser parte da personalidade e passar a ser um problema na vida de uma pessoa. Branco de memória, medo de falar em público e até mesmo o bloqueio total de conversas com desconhecidos podem ser alguns dos efeitos resultados da vergonha excessiva. De acordo com a psicóloga Marta Hazin, a timidez passa a ser patologia quando impede o indivíduo de se relacionar socialmente. “ Quando isso atrapalha a vida pessoal e profissional da pessoa, é necessário um acompanhamento médico para que ela consiga romper esse bloqueio”, explica.

É nesse momento que a magia do teatro entra ação. As aulas de Artes Cênicas são um reduto bastante frequentado pelo tímidos de plantão. O curso de interpretação é um recurso indicado por terapeutas para pessoas com perfil de timidez patológica. “Usamos esse artifício para estimulá-los a vencer a vergonha usando a arte como forma de se expressar”, diz Marta.

Com um tom de voz baixo e ainda extremamente reservado o estudante, Marcos Aurélio, de 20 anos, é um exemplo de como o teatro tem o poder de ajudar a vencer o bloqueio da timidez. Frequentando aulas de interpretação há 3 anos, o jovem conta que já foi muito mais tímido do que ainda é. “Tinha medo de falar em público e de conversar com as pessoas. Mal saía do quarto, sempre fui uma criança tímida”, conta Marcos, ainda de braços cruzados e cabeça baixa. Depois de cinco anos de terapia, o curso ajudou-o a se abrir mais e melhorar seu relacionamento com as pessoas. Hoje ele já vivenciou a experiência de se apresentar em três espetáculos e até já se aventurou fazendo um teste para o elenco de um curta-metragem. “Sonho em fazer o curso de jornalismo e continuar no teatro amador. O teatro foi fundamental para mim”.

O ator e professor de teatro, Williams Sant’Anna, já viu muitos casos como o de Marcos. Ao longo de quase 20 anos de curso, já passaram por suas aulas médicos, engenheiros, professores e advogados. Todos com o interesse comum de usar a dramaturgia como forma de vencer o excesso de timidez. “ Mais de 60% das turmas são de profissionais das mais diferentes áreas que vêem no teatro benefícios para vida pessoal”, diz o professor, que dá aulas no projeto “Mergulho Teatral” do Espaço Cultural Inácia Raposo Meira. “Mas é importante respeitar o tempo de cada um, as limitações que eles tem, e aos poucos vamos conseguindo resultados”, completa.

Nem sempre a timidez atinge níveis que precise receber um diagnóstico clínico, o que não quer dizer que mesmo em escala menor, o problema não atrapalhe a vida de quem é assim. A assessora parlamentar, Nazaré de Lemos, é considerada uma pessoa extrovertida entre colegas de trabalho e amigos, mas basta que ela precise fazer uma apresentação em público para ser travada pela timidez. “Não conseguia ser o foco das atenções, hoje consigo usar as técnicas de interpretação no meu dia a dia. Até consegui fazer uma pós-gradução e apresentar trabalhos na sala de aula”, conta Nazaré que foi convidada para fazer uma figuração especial na Paixão de Cristo do Recife. Para Socorro Raposo, proprietária do Espaço Cultural, o teatro tem o poder de transformar vidas além de não ter contra-indicação. “Trabalhamos com crianças, jovens e adultos, não existe limite de idade. O único perigo é ser contaminado pelo vírus do teatro e não querer deixar os palcos nunca mais”, brinca Socorro.

Serviço
Espaço Cultural Inácia Raposo Meira
Mergulho Teatral
Informações: 3421-3503

* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 12/04/2009