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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

A supremacia de um bom texto

Há tempos andava meio cética em relação ao riso. Em tempos de “stand ups” e o sucesso da comédia pastelão esvaída de sentido, é comum ver no teatro uma plateia que se obriga a rir porque pagou ingresso para isso. É um riso nervoso e quase que forçado, eu diria. Na última sexta-feira (29), na primeira das duas apresentações do espetáculo “O Púlcaro Búlgaro” (encerrando a programação do 16º Janeiro de Grandes Espetáculos), o que se viu foi exatamente o oposto: uma plateia totalmente imersa no jogo de palavras sedutor e redundante feito pelo atores em cena.

A montagem dirigida por Aderbal Freire-Filho, a partir da adaptação do romance hormônio do autor mineiro Walter Campos de Carvalho, tem o tom exato para fazer rir da forma mais inteligente. Saem as firulas, e as piadas óbvias e preconceituosas - ainda que por ventura, alguém possa não ter gostado da cena em que o personagem Hilário é assaltado sorrateiramente por um Nordestino que encontrou casualmente em Copacabana - e prevalece o raciocínio intricado, que para contar uma história absurda, usa referências históricas reais.

Estruturada como se cada ator fosse narrador de suas próprias personagens, o espetáculo apresenta ao público as anotações do diário de Hilário, um homem que resolve organizar uma expedição para verificar se a Bulgária de fato existe. Depois de publicar um anúncio no jornal convocando expedicionários, juntam-se a ele os tipos mais estranhos e bizarros.

Os atores Ana Barroso, Cândido Damm, Gillray Coutinho, Isio Ghelman e José Mauro Brant fazem um verdadeiro, e brilhante, rodízio de personagens. Com destaque digno de registro para interpretação impagável Gillray Coutinho, como um professor de bugarologia e bugarosofia, que tem um gato na mão.

* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 01/02/2010

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Vale tudo pela arte?

Atores exploram os limites do próprio corpo em “Meu Grito de Dor”

O dramaturgo francês Antonin Artaud além de ter feito carreira na Literatura e nos palcos, ficou conhecido mundialmente como louco. Tendo passado por diversos manicômios franceses, Artaud tinha uma forma diferente de pensar a Arte e o Teatro, chegando a desenvolver, inclusive, a teoria do “Teatro da Crueldade”, na qual a distância entre ator e plateia deixa de existir e todos fazem parte de um mesmo processo. Foi com base no pensamento de Artaud, que os intérpretes Gessé Rosa e Jefferson Cirino criaram o espetáculo “Meu Grito de Dor”, que faz hoje única apresentação, às 20h, no teatro Armazém, dentro da programação do 16° Janeiro de Grandes Espetáculos.

O espetáculo fez sua estreia oficial há pouco mais de um mês, em Ipatinga, em Minas Gerais. Cidade da qual pertence o Coletivo Dois Contemporâneo, do qual fazem parte os artistas. “Essa será nossa primeira apresentação fora de Minas. A montagem ainda é muito recente. Estamos ansiosos”, destaca Gessé, que é pernambucano, e durante muito tempo fez parte do Núcleo de Formação em Dança, do Grupo Experimental. Por causa de sua carreira nos palcos, Gessé já vive há dois anos em Minas Gerais.

Em “Meu Grito de Dor” o que causa mais impacto e estranheza por parte do público é o sofrimento físico e mental do qual padecem os dois intérpretes em cena. “As pessoas têm saído do espetáculo meio assustadas. Em cena tentamos mostrar não apenas a crueldade, mas sim a experiência do ‘não fingir’ o fazer artístico. Se é para sentir dor não vamos fingir. Vamos sentir de fato” explica Gessé.

No palco, ofensas à Bíblia, nudez, sadomasoquismo, tortura e violência - como furar o outro com uma seringa ou forçar o colega a levantar-se pelo queixo - são algumas das cenas protagonizadas. “Saímos exaustos. Para a gente, tanto quanto para o público, também é uma encenação bastante chocante. É a primeira vez que desenvolvemos algo dessa forma mais intensa. É super difícil fazer, pensar e levar para o público. Essa montagem mudou muito nossa forma de pensar e de construir teatro”, observa o ator.

O espetáculo conta ainda com uma trilha feita ao vivo pelo músico Natanael Mariano. Os ingressos custam R$ 5 (preço único promocional) e a censura é de 18 anos.

* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 26/01/2010

A morte segundo Abujamra

Controverso e dono de um humor ácido, Antônio Abujamra não é o que pode-se chamar de artista carismático. Entretanto, seu talento cênico, como diretor e ator - são quase 58 anos de palcos -, é incontestável. Longe dos palcos recifenses desde agosto de 2008, quando encenou seu monólogo, “A voz do provocador” - inspirado no programa de TV “Provocações”, que vai ao ar pela TV Cultura -, ele volta a Cidade, agora com o espetáculo “Começar a Terminar”, da Companhia Anjos Pornográficos.

A montagem é uma das principais atrações de final de semana da programação do 16° Janeiro de Grandes Espetáculos, com apresentações amanhã e domingo, às 20h30, no teatro Barreto Júnior. As sessões terão entrada franca e os ingressos estarão serão distribuídos com 1h de antecedência, ficando sujeitos a lotação do teatro.

Em um palco escuro, sob duas grandes lâmpadas, um homem solitário compartilha suas inquietações. As palavras de diversos personagens do dramaturgo Samuel Beckett estão presentes nos textos de diferentes origens e épocas são unânimes na temática: morte e iminência do fim. O texto “Começar...”, assinado por Abujamra, teve como inspiração na do autor irlandês, que curiosamente nunca foi um dos mais admirados pelo ator. Conhecidamente um partidário convicto do dramaturgo alemão Bertold Brecht. Abujamra divide a direção do espetáculo com Hugo Rodas e o palco com os atores Miguel Hernandez e Nathália Corrêa.

Vale a pena

Duas montagens pernambucanas que cumpriram temporada em 2009 também são destaque na programação do final de semana. A primeira delas é “A Dona da História”, da Trup Errante & Pé Nu Palco Grupo de Teatro. O espetáculo é uma comédia-romântica, na qual duas atrizes vivem uma mesma mulher - uma no passado, outra no futuro. O texto, de João Falcão, foi sucesso nos palcos com a interpretação de Marieta Severo e Andréa Beltrão e ganhou uma adaptação para o cinema, sob direção de Daniel Filho. Agora, o espetáculo é encenado pelas atrizes Cátia Cardoso & Raphaela de Paula, e direção de Thom Galiano.

Outras atrações

Chuva de Caju - Hoje, às 21h, no teatro de Santa Isabel - Ingressos R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada)

II Trasporto Umano - Amanhã, às 17h, no teatro Apolo - Ingressos R$ 10 (preço único)

O Encontro de Capiba e Nelson Ferreira no Céu - Amanhã, às 20h, teatro de Santa Isabel - Ingressos R$ 30 e R$ 15

Entre - Amanhã, às 21h, no teatro Marco Camarotti - Ingressos R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia-entrada)

Sobre Um Paroquiano - Domingo, às 19h, no teatro Hermilo Borba Filho - Ingressos R$ 10 (inteira) R$ 5 (meia-entrada)

Por Um Fio Em Lã - Domingo, às 20h30, no teatro Apolo - Ingressos R$ 10 (inteira) R$ 5 (meia-entrada)

* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 22/01/2010

Freddy Krueger é pesadelo no universo da dança

É muito comum encontram espetáculos com nomes inusitados, mas talvez a montagem intitulada “Não Me Fales de Freddy Krueger” seja, por hora, uma das mais curiosas. O solo de dança contemporânea, que tomou como base para o processo criativo os sonhos da bailarina Andrea Anhaia, faz única apresentação hoje, às 19h, no teatro de Santa Isabel, dentro da programação do 16° Janeiro de Grandes Espetáculos.

Em cena, Anhaia apresenta uma viagem coreográfica entre a força pungente do sonhar e o acordar. O nome pouco comum para um espetáculo de dança foi sugestão do diretor, Asier Zabaleta, que trabalhou no processo de montagem junto com a bailarina. “Ele sugeriu esse nome porque achou interessante o fato de uma mulher adulta ter vários medos, inclusive esse, que é uma bobagem tão grande”, disse Anhaia referindo-se ao clássico personagem de “A Hora do Pesadelo” - referência do gênero de terror na década de 1980. “Também existe uma relação dos sonhos, e pesadelos, com a minha vida. Eu realmente tive todos os sonhos que estão no espetáculo”, completa.

A montagem costura momentos de dança, de texto, e de projeções que ao mesmo tempo em que se justificam, também se completam. Andrea Anhaia é pernambucana, radicada em Minas Gerais, e bailarina do Movasse - Coletivo de Criação. Os ingressos custam R$10 (preço promocional para todos).

Shakespeare

Também hoje, às 20h30, no teatro Barreto Júnior, a Companhia do Ator Nú faz única apresentação com o espetáculo “Encruzilhada Hamlet”. Na montagem, o jovem príncipe Hamlet, e seu coveiro, removem a cova onde foram enterrados há cinco séculos e ressurgem para um duelo de classes, de opostos e de sonhos. No elenco, Edjalma Freitas e Henrique Ponzi dão vida aos personagens dessa interessante montagem, levemente inspirada da obra Shakespeare. Os ingressos custam R$10 (inteira) e R$5 (meia-entrada). Veja a programação completa do 16° Janeiro de Grandes Espetáculo na Folha Digital.

* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 19/01/2010

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

“ O Grande Inquisidor” para um grande janeiro

Leitura dramática dá início à programação do Festival que vai até o dia 31

Era para ser apenas uma forma de movimentar a pauta teatral da Cidade em um mês “morto” para as artes cênicas.Mas o projeto que surgiu de maneira tímida e discreta, acabou tornando-se um dos principais festivais de teatro do Recife, e fazendo com que o mês de janeiro passasse a ser o mês de maior relevância entre os profissionais envolvidos com o setor. Chegando a sua 16ªedição, o Janeiro de Grandes Espetáculo atingiu a sua maturidade, e pode-se dizer que agora começa a se aventurar em novos voos. A exemplo do espetáculo escolhido para a abertura do evento, que acontece hoje (6), às 20h, no teatro de Santa Isabel.

Fugindo das escolhas mais óbvias, a leitura dramática “ O Grande Inquisidor” terá a responsabilidade, e a honra, de dar início a programação do Festival. O texto retirado da obra “Os Irmãos Karamazov”, de Fédor Dostoievski, relata a volta de Jesus Cristo à Sevilha do século XVI. Em sua chegada, Jesus é aclamado por uma multidão em delírio e, neste exato momento, o Inquisidor, que por ali passava, fica ressentido e manda prendê-lo. À noite, vai visitá-lo em sua cela e o repreende por sua volta, já que esta perturbou profundamente a Igreja.

O texto foi escolhido depois de uma visita do produtor, Paulo de Castro, ao “Porto Alegre em Cena” de 2007, no qual a montagem foi apresentada. “Deixei o teatro com a certeza de que queria montar o texto, já tinha até em mente os nomes que queria comigo” disse o produtor referindo-se a José Mário Austregésilo, que assina a direção, e Germano Haiut, como intérprete. A escolha dos nomes também foi bastante ousada, uma vez que tanto Austragésilo quanto Haiut já estavam afastados da cena teatral há algum tempo.

“Como todos os anos o Janeiro tem uma programação de espetáculos que atendem todos os gostos. Fazemos questão de contemplar todos os gêneros. Desde o drama, passando pela comédia, infantis, dança e até mesmo convidados com textos de outros países”, destacou Paulo de Castro. Que ainda completou. “ O diferencial é que esse ano fizemos questão de dar ênfase ao texto e à interpretação do ator, que são a verdadeira essência do teatro. Por isso, resgatamos as leituras dramáticas. Há muito não se via o gênero em grandes Festivais”.

Está será a estreia de “O Grande Inquisidor” nos palcos recifenses. Fato que motivou ainda mais a escolha. “Sempre tentamos dar preferência as produções locais na abertura do Festival. Além disso, o texto de Dostoievski também é pouco visto nos palcos. Queremos fazer um resgate do gênero”, afirmou. Para cumprir tal façanha, a programação contempla ainda a leitura dramática de três clássicos da tragédia grega: “Antígona”, “Prometeu Acorrentado” e “As Troianas”.

Homenagem

Nesta edição, o Janeiro de Grandes Espetáculos presta homenagem aos 160 anos do Teatro de Santa Isabel e ao teatrólogo Joacir Castro, que, no início da década de 1960, foi um dos fundadores do Teatro de Cultura Popular (TCP), uma das ações do Movimento de Cultura Popular (MCP), extinto pelo Golpe Militar, e integrou o elenco do Teatro Popular do Nordeste (TPN), participando de peças memoráveis como “O Inspetor”, “O Cabo Fanfarrão” (ambas em 1966), “O Santo Inquérito” e “Antígona” (as duas últimas em 1967).

Curiosidades Paulo de Castro

A primeira edição do Festival foi montada com R$500 e ninguém da equipe recebeu cachê para participar

Janeiro foi escolhido porque era mês de férias e não havia programação teatral na cidade

Desde o início o festival foi pensado para ser um evento dirigido à própria classe teatral

Tanto os espetáculos da programação, quanto os membros do júri, são escolhidos por atores, diretores e produtores de teatro da cena local.

* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 06/01/2010

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

A dança rende-se a novos espaços

Entre os destaques da temporada está o Festival Internacional de Dança do Recife

Uma das principais marcas da XIV edição do Festival Internacional de Dança do Recife tem sido romper as barreiras do palco e ocupar espaços diferenciados que aproximam a linguagem da dança do grande público. Ao longo da programação foram apresentações em sinais de trânsito, praças, e parques da cidade. Agora, rumo à reta final, a programação se intensifica ainda mais e ocupa outros lugares inusitados.

Hoje e amanhã, a partir das 17h, a Casa da Cultura será palco do espetáculo “As Partes do Todo”, da Cia. Solo do Outro. A apresentação faz uma investigação corporal que tem como inspiração criativa a história do local, que já foi uma casa de detenção. Não muito longe dali, na Praça do Diário, a escola Guerreiros do Passo presta uma homenagem ao mestre do frevo, Nascimento do Passo, falecido há pouco mais de um mês.

A Cia. Solo do Outro encarou o desafio de ousar ainda mais em suas montagens, e no sábado, às 10h, apresenta o espetáculo “Eu Tava Passando e Resolvi Sair” em meio à confusão do Mercado de São José. A bailarina e coreógrafa Flávia Pinheiro utiliza cores, cheiros, formas e rostos do mercado na composição de sua apresentação. Identidades anônimas se misturam em um espaço democrático de segregação social. A anomalia da cidade é retratada a partir da perspectiva de um dia comum. “Desde o começo pensamos em como interferir no espaço, reorganizando-o. Fomos muitas vezes ao mercado, e acabamos nos tornando parte dele. É muito interessante poder interagir com diferentes histórias”, afirmou Pinheiro.

Outros espaços da cidade também serão tomados pela dança. No sábado, o Nascedouro de Peixinhos recebe a “Mostra de Dança e Cultura Árabe”. A praça do Hipódromo, no bairro de Campo Grande, recebe um aulão de frevo com os Guerreiros do Passo. E uma roda de breaking dance vai tomar conta do Clube do Bolinho, no Alto José do Pinho.

Porém, a grande apoteose dessa integração “dança e público” deve acontecer amanhã e sábado na Rua da Moeda. Um grande palco montado na rua vai dar oportunidade para qualquer pessoa da plateia que queira mostrar que também sabe dançar. Com uma ajuda de um DJ, que deve coordenar as apresentações, talentos poderão ser revelados, provando que o Festival de Dança do Recife tem espaço para todos os ritmos e todas as tribos.

Nos Palcos

Seguindo a programação principal dos teatros o destaque de hoje é o Grupo Grial, que apresenta o espetáculo “Castanha sua Cor”, às 19h, no teatro do Parque. O espetáculo propõe um mergulho no subterrâneo da Cultura Brasileira, proporcionando reencontros com antigos mitos. Amanhã, a carioca Micheline Torres apresenta o espetáculo “Carne”, às 22h, no teatro Hermilo Borba Filho. No sábado, a companhia mineira “Primeiro Ato” encerra a programação do Festival e apresenta o espetáculo “Mundo Perfumado”, às 21h, no teatro de Santa Isabel. Com uma narrativa não linear, a apresentação explora o corpo do bailarino como meio e mensagem. A programação completa do XIV Festival Internacional de Dança do Recife está disponível no site da Folha Digital.

* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 29/10/2009

Festival de Dança começa hoje

De hoje até o próximo dia 31 de outubro a cidade não vai parar de dançar. Isso porque, logo mais a noite, vários espaços serão tomados pelas ações do 14° Festival Internacional de Dança do Recife (FIDR). Nesta edição o Festival reverencia o ano da França no Brasil, trazendo, entre as muitas atrações internacionais, três espetáculos de companhias francesas. A abertura do evento fica por conta da cia. Malka, que apresenta o espetáculo “Meia Lua”, a partir das 21h, no teatro de Santa Isabel.

Um pouco antes da abertura, às 18h30, em frente ao teatro, uma grande roda de Hip Hop vai servir de convite aos passantes, e aquecer o público que estiver chegando para assistir à apresentação. A descentralização do Festival não vai parar por aí, na edição em que os realizadores prometem levar a dança a outros espaços, as apresentações do festival também vão invadir os sinais de transito e até mesmo as paredes dos prédios do Recife.

Desde hoje cedo, várias intervenções chamaram a atenção dos passantes em várias partes da cidade. O segmento FIDR na rua programou dois tipos de ações: “Sinais de Dança” e “Videocidade”. A primeira delas com bailarinos de dança contemporânea e de Hip Hop se apresentando nos sinais de trânsito das avenidas mais movimentadas do Recife. enquanto os sinais estiverem fechados, os artistas apresentarão suas performances ao som de motores e buzinas.

Já com a mostra “Vídeocidade” os pedestres terão acesso aos vídeos dos principais espetáculos de dança do festival, projetados nas paredes das avenidas. Os primeiros vídeos serão projetados nas paredes da Av. Conde da Boa Vista, próximo ao cruzamento da Rua do Hospício. O Vídeocidade prossegue nos dias 26, 28 e 30 de outubro, no Parque 13 de Maio, Av. Agamenon Magalhães e Pina, respectivamente.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

P.P.P (des)congelando mentes

Poucos artistas conseguem alcançar uma maturidade criativa a ponto de permitir-se viver uma situação limítrofe de controle - ou melhor dizendo da falta dele - sobre sua obra. É preciso ter segurança absoluta pra mostrar-se falho. Factível de erro. Algo que a grande maioria dos artistas tenta evitar, ou pelo menos esconder. Philippe Ménard não teme. Expõe-se visceralmente, ao longo dos quase 60 minutos de duração do espetáculo P.P.P (Cia. Non Nova), que apresentou no teatro de Santa Isabel no último final de semana, em duas apresentações com casa lotada.

Em sua batalha cênica contra um inimigo perecível, o gelo, Ménard vai aos poucos revelando ao público todas as suas “personas”. Para narrar a sua experiência pessoal, Philippe se expõe como artista, pondo em cheque a sua técnica precisa, arriscando-se em malabares com bolas de gelo. A exposição é ainda maior como ser humano, que enfrentou todos os conflitos e inquietações de não se reconhecer no próprio corpo (uma mulher no corpo de um homem), e encontrou na arte uma maneira de exorcizar seus fantasmas.

No palco, Menárd nos convida a mergulhar em seu universo complexo e conflituoso. Apartir daí, percebemos que todos nós também travamos nossas próprias batalhas. Usando uma iluminação sombria, e com a ajuda de sons repetitivos e difusos, presentes na trilha de “P.P.P”, o artista cria uma atmosfera hipnotizante. Num misto de perfeição plástica, que é bela e agoniante.

Curioso perceber que todos os seus personagens começam serenos e vão, aos poucos, tornando-se intensos e perturbados. Quase que como se não coubessem em si. Passando pela criança ingênua, a descoberta da sexualidade, a rejeição ao corpo e a descoberta da leveza feminina, Ménard constrói sua narrativa em cima da desconstrução, da condição perene de mudança. Até seu próprio cenário vai desfazendo, do teto, bolas de gelo caem e se despedaçam, numa menção a urgência do tempo.

Ao final, Ménard volta a condição que ele repeliu durante toda sua vida. Despe-se e revela-se homem. Deixando a plateia atônita. Entre opiniões divididas alguns aplaudiam, enquanto outros deixavam o teatro desconfortáveis. Confirmando que o objetivo do artista foi alcançado. Todos saíram dali diferentes, de certa forma.

* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 12/10/2009

sábado, 10 de outubro de 2009

O Gelo que transforma

Cia. Non Nova apresenta em “P.P.P” uma metáfora para a transformação

Philippe Ménard é, por si só, a representação absoluta do processo transitório constante presente na vida de qualquer ser humano. Não me refiro apenas ao fato de Philippe ter nascido com o sexo masculino, e ter se tornado mulher. Mas, sim, ao fato de, como artista, e como pessoa, estar sempre buscando uma perspectiva diferente para enxergar o mundo. Seu objetivo foi alcançado em “P.P.P.”, espetáculo que a Cia. francesa Non Nova - fundada por Ménard - apresenta hoje (10) e amanhã (11), às 21h, no teatro de Santa Isabel dentro da programação do Festival de Circo do Brasil. Usando o gelo como principal matéria-prima na composição do seu cenário, o elemento tem um papel que vai muito além de meramente cênico. O gelo é o fio condutor de uma história de mudança de estado, é parte da metamorfose apresentada pelo artista.

A abreviação que dá nome ao espetáculo vem do francês Position Parallèle ao Ploncher - Posição Paralela ao Chão, em uma referência a única posição comum a qualquer pessoa: a do leito de morte. “ A escolha do título lembra que todos acabam da mesma forma. Podemos ter medo, não aceitar, mas o fim é inevitável. O mais interessante é o caminho que percorremos até chegar a ele. O espetáculo fala sobre a utopia do ser humano que luta sempre contra a própria morte, mesmo sabendo que não vai vencer O gelo representa essa luta fictícia, sabemos que no final, inevitavelmente, ele vai derreter”, explica Ménard.

Mas a escolha de trabalhar com uma matéria perecível não foi proposital. “Até hoje não tenho certeza de que o gelo é ideal para essa construção”, brinca o artista. Na verdade, esse encontro se deu casualmente, enquanto Ménard fazia uma turnê pela África. Na ocasião, um dos teatros onde o artista se apresntou não possuía sistema de refrigeração, e uma opção oferecida foi colocar barras de gelo em frente aos ventiladores. “ A temperatura estava em torno de 48 graus, e é claro que o gelo derreteu rapidamente, a água invadiu o palco e arrastou pedaços de gelo que sobraram. A plateia acabou achando que aquilo fazia parte do número, e percebi que podia usar isto de alguma forma”.

É claro que a escolha foi um desafio. Durante o processo de concepção a artista se machucou bastante em função da dificuldade imposta pela temperatura e dureza do gelo. Mas ainda assim, as limitações físicas não foram maiores do que as psicológicas. “Tive que reprogramar minha mente. Fiquei conhecida pela minha técnica perfeita e quando comecei a trabalhar com o gelo toda a minha perfeição sumiu. Tive que aprender a deixar de lado minha virtuosidade e aceitar me expor de uma outra forma” lembra.

Apesar de “P.P.P.” parecer, a princípio, um espetáculo autobiográfico - já que Ménard expõe situações pessoais como aceitação do corpo e suicídio - a artista destaca que a montagem fala de todas as pessoas que viveram uma experiência de mudança profunda. “ Escrevi o espetáculo para que o público possa viver algo diferente, porque acredito que o teatro é o espaço para isso. A intenção é fazer como que o espectador termine o espetáculo se sentindo diferente. Algumas pessoas vão ver apenas um número com gelo, outras vão se emocionar, outras vão voltar a infância. Não tento explicar nada. O mais importante é deixá-los livres”.

A Fantástica Fábrica de Gelo

Montar toda a estrutura que compõe o cenário de “P.P.P” não é tarefa fácil. Ao todo são 350 bolas de gelo de diversos tamanhos, além de congeladores, blocos de gelo e até mesmo um tapete branco, fabricado com raspas de gelo, estão em cena junto com Philippe Ménard. Toda essa megaprodução só é possível graças a uma equipe de cinco franceses, liderada pelo artista plástico Rodoph Thibaud, que assina a cenografia do espetáculo.

Thibaud explica que todo o processo é bastante complicado, e exige muito tempo e organização. Temperatura, clima, altitude, e até mesmo a pureza da água da cidade onde se apresentam, interfere no resultado. “Temos que fazer testes antes de começar a produção, porque tudo influencia no resultado do nosso trabalho”, explica o artista plástico.

Para dar conta do recado, 10 freezers de 400 litros, cada, foram instalados nos bastidores do teatro, e durante cinco dias ininterruptos a equipe trabalhou para deixar tudo pronto para a estreia. Para que tudo dê certo, até a entrada do público no teatro precisa ser cronometrada. “Todas as pessoas precisam estar acomodadas em cinco minutos, do contrário, o cenário começa a derreter” diz Thibaud. Portanto, não atrasem.


* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 10/10/2009

Começa o Festival de Circo no Recife

Foto: Jedson Nobre
Algo de Charles Chaplin esteve presente na abertura da quinta edição do Festival de Circo do Brasil. As atrações que subiram ao palco do teatro de Santa Isabel, na noite de ontem, mostraram mais que um show de talento e técnica. Foi a sensibilidade do corpo, a pantomima no seu mais puro sentido, que falou mais alto. O mestre de cerimônias João Artigos anunciou o que estava por vir. “Estou aqui para fazer um convite para uma noite inesquecível”, disse enquanto entretia o público com suas tortas acrobacias.

E ele estava certo. Quando o mineiro Luís Sartori deu início a apresentação do número “Carton” o público mergulhou em uma outra dimensão. Ainda que a plateia recifense ainda não esteja completamente pronta para experiências desse tipo, aos poucos, Sartori conquistou os olhares deslumbrados com a simplicidade de suas bolinhas, que surgiam em meio ao cenário de papelão. “Carton” foi um belo preâmbulo do que ainda estava por vir.

Na sequência, a cia. francesa Akoreacro apresentou o surpreendente “Pfffffff”. Acrobacias, malabares e números de precisão absoluta, foram apenas a cereja do bolo, em um espetáculo no qual música, teatro, circo e dança se misturam e se complementam de uma forma indivisível. Instrumentos musicais transformam-se em artifícios circenses e os corpos dos artistas narram uma empolgante disputa amorosa. Sob palmas, risos e suspiros da plateia os artistas começaram a fazer história no Festival que começa grandioso.

* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 09/10/2009

Todas as expressões de um novo circo

Festival dá início a uma programação de 10 dias com atrações do Brasil e da França

Está dada a largada para quinta edição do Festival de Circo do Brasil, que promete movimentar a cidade pelos próximos 10 dias. Quem estiver passando hoje pelo centro da cidade por volta das 11h30 vai perceber uma movimentação diferente nas paredes dos prédios da Avenida Conde da Boa Vista. A trupe paulista Acrobático Fratelli é a primeira atração a se apresentar dentro da vasta programação que o Festival vai oferecer (ver matéria página cinco). Não muito distante dali, logo mais à noite, o teatro de Santa Isabel recebe a partir das 21h, a abertura oficial do evento que terá o carioca João Artigo, da Cia. Teatro de Anônimo, como mestre de cerimônia. Além de apresentações de espetáculo nacional, e outro de uma companhia francesa, celebrando o ano da França no Brasil, marca desta edição do Festival.

Abrindo os trabalhos no palco, o mineiro Luís Sartori, apresenta o espetáculo ‘Carton’ (papelão em francês). Atualmente morando em Bruxelas, na Bélgica, Sartori tem formação em Belas Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Foi durante o curso em “Artes do Espetáculo e Técnicas de Difusão e de Comunicação” (especialização em artes do circo) pela Ecole Supérieur des Arts du Cirque (ESAC), que o artista teve a oportunidade de aprofundar sua técnica circense. Hoje, Sartori divide seu tempo entre as atividades como malabarista, acrobata, ilustrador, artista gráfico, intérprete e baterista. Apesar da infinita gama de talentos, ele foge do ‘rótulo’ de multiartista. “Me considero um artista e dentro dessa condição tenho a possibilidade de desenvolver diversas técnicas. Estou sempre tentando experimentar, fazer algo diferente”.

Com ‘Carton’ Sartori brinca com as referências ao cotidiano e as surpresas que ele reserva. O público é convidado a entrar em um universo onde os objetos ganham vida, são manipulados e manipulam o próprio artista. “ Tudo começou a partir da única imagem de uma bolinha entrando em cena sem ser tocada, aos poucos essa ideia foi ficando bem maior”. Em um cenário todo feito em papelão, concebido pelo próprio artista, Sartori mistura malabarismo, acrobacia, dança e teatro, confirmando as várias facetas do artista. “O papelão dá ao número um tom mais lúdico que conquista tanto os adultos, quanto as crianças. Isso é interessante porque fiz ‘Carton’ pensando em mim. Fico muito feliz que o espetáculo tenha conseguido tocar públicos tão distintos”, ressaltou Sartori.

Música, Teatro e Circo num só espetáculo

A grande expectativa da noite de abertura do Festival fica por conta da companhia francesa ‘Akoreacro’ que apresenta pela primeira vez no País, na América Latina, o espetáculo “Pfffffff”. Reunindo técnicas tradicionais de números de rua e de picadeiro, com aquilo que existe de mais contemporâneo no circo francês, a companhia promete apresentar ao público recifense um jeito diferente de se fazer circo.

Criada em 2001 por Maxine Sole, Basile Narcy, Clair Aldedaya e Romain Vigier, todos artistas formados por escolas de circo de Estocolmo, Bruxelas e Moscou, a Akoreakro tem “a mistura” como princípio básico da criação de suas apresentações. Em seu novo espetáculo, juntaram-se a quatro músicos e transformaram a montagem numa verdadeira orquestra-circo. A trilha sonora pop de “Pfffffff” reúne ritmos dos mais eruditos, até os mais modernos como hip hop e o beat box (termo referente à percussão vocal usualmente feita pelos cantores de Hip Hop que dá nome ao espetáculo). “ Cada músico tem uma influência especial no espetáculo. Música clássica, tango, música judaica e até o próprio hip hop, cada um trouxe sua própria referência. Usamos a música como forma de trazer a modernidade para o circo”, explicou Sole.

No palco, entre acrobacias, música e números de malabares com instrumentos, o grupo encena duas pequenas histórias. A primeira delas acerca de uma ave que em seu leito de morte, pede a um gato que tome conta de seu ovo. Numa espécie de metáfora sobre as relações humanas. Na segunda história, sete homens disputam a atenção de uma mulher, provando a ela que cada qual tem suas vantagens: mais forte, mais bonito, mais hábil.

* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 08/10/2009

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Respeitável público, vem chegando o circo

Começa em outubro a quinta edição do Festival de Circo do Brasil

Outubro é o mês da criança, mas tanto os pequenos, quanto os mais crescidinhos vão poder comemorar a data desfrutando de toda a magia que só o circo pode oferecer. Entre os dias oito e 18 de outubro começa no Recife a quinta edição do Festival de Circo do Brasil. Ao longo de dez dias, uma vasta programação com companhias de circo do Brasil, e do exterior, vão movimentar vários pólos espalhados pela cidade. O Festival também marca as comemorações do ano da França no Brasil, e nessa edição vai contemplar as principais companhias de circo dos dois países.

“ Tentamos fazer um pequeno panorama do circo tradicional até circo contemporâneo francês. Ao todo serão seis montagens francesas e mais de onze atrações nacionais”, explica a coordenadora e curadora do evento, Dani Hoover. Há cinco anos à frente da organização do festival, Hoover destaca que a França é hoje um dos principais celeiros de talentos circenses, que conseguem dialogar com técnicas arrojadas e inovadoras. Em conjunção com os espetáculos nacionais, o festival vislumbra apresentar ao público um recorte de toda efervescência da produção de circo ao redor do mundo. “A proposta do festival é cada vez mais ampliar o horizonte do circo, e de como ele é visto pela plateia. Tivemos edições exclusivas de lona, de rua, e de palco. Queremos apresentar as várias expressões que o circo tem no mundo. Toda sua abrangência mesmo que de forma fragmentada. Estamos mostrando que o circo saiu da lona e ganhou outros espaços. É uma arte aberta a várias linguagens”.

Nomes de peso do cenário internacional farão, pela primeira vez, apresentações no país. As companhias francesas Cirque Fusion, Akoreacro e Non Nova, se apresentam em sessões exclusivas do Festival. Entre essas, destaque para um dos mais esperados espetáculos “P.P.P.”, da Non Nova, que vai colocar congeladores e bolas de gelo no palco do Santa Isabel, que serão manipuladas pelo malabarista Philippe Ménard. O espetáculo, que já passou por 60 países, e foi eleito um dos cinco melhores espetáculos pelo Culture France, apresenta toda a técnica e rigor da arte circense. “ O artista constrói uma performance de arte contemporânea, desde a concepção plástica, até a conceitual, que aborda o transexualismo, através da mutação das coisas”, explica Hoover.

Entre as crias da casa, o número do malabarista Luís Sartori, “Carton” será o responsável pela abertura do Festival. Uma da melhores companhias brasileiras, os pelotenses do grupo Tholl retornam à cidade com o espetáculo “ Imagem e Sonho”. Além disso, a intervenção do grupo Acrobático Fratelli, “Travessias Urbanas”, deve movimentar e chamar a atenção de quem passar pela Av. Conde da Boa Vista no dia da apresentação. A programação completa está disponível no site do Festival www.festivaldecircodobrasil.com.br.

Espaço para tradição

Apesar do recorte voltado para números que apresentam a vanguarda das artes circenses, a quinta edição do Festival de Circo do Brasil também terá espaço para as apresentações na linha mais tradicional. A Praça do Arsenal da Marinha, localizada no bairro do Recife, vai se transformar num grande picadeiro com três palcos que receberão vários espetáculos. No dia 12 de outubro, dia das crianças, uma programação especial com Banda Gigante(SP), Trio Zindare (FR) e Cirkologiom (FR) inaugura a temporada na Praça. Entre os dias 13 e 15, haverá na Praça do Arsenal, diariamente, apresentações de palhaços com os espetáculos “Pelo Cano” e “Jogando no Quintal”. Na sexta-feira, 16, o Circo Vox chega para compor o fim de semana de encerramento do Festival. Nos dias 17 e 18 de outubro, estará disponível na Praça do Arsenal uma série de equipamentos - cama elástica, arame, diábolos e malabares - que poderão ser utilizados livremente pelo público. Os franceses Trio Zindare, Triskel e Cirkologiom compõem a grade de programação. Outros locais também receberão espetáculos, como o Parque 13 de Maio e o Parque da Jaqueira.



“Cabaré Circense”

A boate NOX também será um dos roteiros dentro da programação diversificada do Festival. No dia nove de outubro a boate recebe a festa, que é uma tradição dentro dos festivais de circo no mundo todo, intitulada “Cabaré Circense. O evento vai receber apresentações dos grupos O Teatro Mágico e Acrobático Fratelli. Além de ter discotecagem do DJ Dolores, tocando músicas francesas, e DJ Jérome Pigeon - de uma das casas mais famosas de Paris a Favela Chic - pilotando as pic-ups com músicas nacionais. A festa ainda vai abrir espaço para que os artistas presentes façam apresentações espontâneas de seus números favoritos.


* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 30/09/2009

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Cena Aberta leva teatro para as ruas de Arcoverde

Os cariocas da Cia Mystérios e Novidades apresentam “Ciclopes” na abertura do Festival

Município tradicionalmente conhecido pela riqueza de seus cordéis, cantadores, poetas e repentistas, Arcoverde pode ser considerado um dos grandes berços de talentos do Sertão de Pernambuco. Artistas consagrados, a exemplo de Lirinha, do Cordel do Fogo Encantado, saíram de lá para levar o nome da cidade para o resto do País. É com base nessa tradição cultural que Arcoverde dá início, a partir de amanhã, ao primeiro Festival Cena Aberta - Semana Geraldo Barros. A mostra vai receber grupos de teatro do Acre, Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Norte, Pernambuco, e até da França. O objetivo é apresentar espetáculos em diferentes espaços abertos da cidade, com intuito de sensibilizar as autoridades responsáveis para a total ausência de um equipamento público voltado para a atividade teatral no município.

“Estamos levando o Festival para espaços alternativos porque o único teatro da cidade está em obras há 20 anos. A obra foi embargada pelo Ministério Público e até agora a população não teve acesso a esse espaço”, explicou o coordenador do Festival, Romualdo Freitas. Mas mesmo diante da restrição de possibilidades, a causa maior que motivou a realização do Festival foi a vontade de levar uma programação teatral de qualidade para população que não costuma ter esse tipo de contato. “O benefício maior é para os arcoverdenses. Mas não apenas para eles, queremos mostrar que é possível levar um bom teatro mesmo para lugares que não dispõem de uma estrutura específica”, destacou Romualdo.
Além dos espetáculos teatrais, a programação ainda inclui oficinas, entre elas uma oficina de “clown” com a companhia francesa “Cie Du P’Tit Doigt” - que faz apresentações no Estado em função do ano da França no Brasil - exibição de documentários, shows, e dois colóquios que vão discutir “A Cadeia Produtiva da Arte” e “As Artes Cênicas e Seus Espaços de Representação”, com participação de representantes do Ministério da Cultura, Fundarpe, Prefeitura e Movimento Cultural de Arcoverde, entre outras atividades.

Entre alguns dos espaços da cidade que o Festival vai ocupar estão o Presídio Brito Alves, Galpão da Estação da Cultura, Largo de São Geraldo, Praça da Bandeira, Escadaria e Canteiro de Obras do Sesc. O Festival Cena Aberta acontece até o dia 20 de setembro. A programação completa da mostra está disponível no site da Folha Digital.



* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 10/09/2009

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Festival Estudantil reúne novas gerações do teatro e da dança

Em uma quinta-feira de estreias nos palcos recifenses, hoje (13) também será dada a largada para o IV Festival Estudantil de Teatro e Dança. Dessa vez, a mostra competitiva vai ocupar os teatros do Apolo e do Parque, sendo o primeiro responsável por receber a programação teatral dividida em duas etapas de apresentações: a primeira começa hoje e segue até o dia 19 de agosto; e a segunda etapa acontece entre os dias 26 e 30 de agosto. E o teatro do Parque será palco da mostra de Dança que acontece apenas nos dias 22 e 23 do mesmo mês.

Além do espetáculo “A Pedra do Reino” , da Cia Mãos em Cena, a abertura do evento também vai contar com a apresentação da divertida montagem “Deu Com a Pleura”, da Cia. de Teatro FALAZ, às 20h30, no teatro Apolo.O espetáculo - que tem como madrinha Geninha da Rosa Borges - conta a história de três divertidos personagens de uma cidadezinha afastada que satirizam os costumes exagerados da cidade grande.

A programação do Festival continua durante o final de semana. Amanhã é a vez de “Cadê meu Boi” e “Tartufo”, de grupos de teatro do Cabo e de Jaboatão, respectivamente. No sábado apresentam-se os espetáculos “Brincando, Acharemos a Casa”, “ Um Assunto que Não é Brincadeira” e “A Água, o Rio, Tudo Está por Um Fio”. E no domingo o infantil “Pluft, o Fantasminha”, “A Viagem de um Barquinho” e a comédia popular “O Casamento de Fudência na Cidade de Pipas” encerram a agenda do final de semana. O Festival Estudantil de Teatro e Dança é uma realização do produtor cultural Pedro Portugal, e tem o apoio da Prefeitura do Recife, via Sistema de Incentivo a Cultura (SIC).
* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 13/08/2009

domingo, 4 de maio de 2008

Venturas e Desventuras de uma “aprendiz de jornalista” cobrindo um Festival


Olá pessoas que ainda acompanham esse blog,

Peço perdão pela demora nas atualizações, mas vocês devem concordar que administrar dois estágios, uma faculdade, e ainda por cima um blog, é no mínimo complicado.

Nos próximos posts tentarei passar para vocês as minhas impressões do 12º Festival de Cinema de Pernambuco – Cine PE (motivo de minha justificada ausência).

Não farei aqui uma análise crítica dos filmes (talvez de alguns, só os preferidos), mas sim um apanhado geral do que foi o festival: pontos fracos e fortes, presenças marcantes... Enfim, essas baboseiras que jornalista adora reparar.


Primeiro dia do Festival mais esperado do ano: Cine PE, em sua 12ª edição. Eu, como estudante de jornalismo, tendo pela primeira vez a missão de fazer uma cobertura do evento que, até então, acompanhava apenas como cinéfila confessa.

Chego ao Centro de Convenções com um friozinho na barriga. A iluminação, a música, as pessoas... Tudo dá ao lugar um clima diferente de festival. O Festival. Só quem é apaixonado por cinema entende a sensação de saber que vai começar a ver uma maratona de filmes que você, na maioria das vezes, por enquanto só ouviu falar.

Recife, em especial, tem uma cena muito peculiar. Já não é de hoje que o cinema local vem despontando em âmbito nacional. E nomes que costumam freqüentar as mesas de bar da noite pernambucana ganham notoriedade e respeito por executarem trabalhos primorosos.

Eu, como “foca”
[1] que sou, fico na linha tênue entre a tiete e a profissional. Esse festival foi a constatação de que ainda tenho muito o que aprender até conseguir não ficar nervosa ao fazer uma entrevista com alguém que admiro.

Não me considero uma pessoa tímida, mas logo na chegada já senti uma certa “inibição” só de constatar que num mesmo campo de visão eu conseguia registrar as presenças dos diretores Daniel Bandeira, Leo Falcão e Kleber Mendonça, que ainda por cima, é um dos meu críticos preferidos.

Resolvi ir assistir os curtas, antes de começar a maratona de entrevistas. Destaques para os curtas Amanda e Monick, documentário da Paraíba e Até o sol raiá, uma animação Pernambucana (comentarei os curtas e o longa do dia no próximo post).

Voltando para as minhas “desventuras” jornalísticas, tinha que começar a fazer meu trabalho. Enquanto assistia ao último curta do dia, vi que Lenine (sim, o cantor) havia entrado no teatro por uma portinha lateral bem juntinho de onde estava sentada. De imediato pensei em entrevistá-lo durante o intervalo, e fiquei o resto da sessão pensando na melhor forma de abordagem. Sempre fico constrangida com esse tipo de situação porque acho que no fundo, no fundo, todo artista deve achar um saco ficar dando entrevista. Além do mais, morro de medo de falar alguma besteira, principalmente na frente de alguém que admiro. Mas fazer o quê se eles são artistas e eu sou jornalista. Não tem jeito! Fui dar a cara à tapa.

Esperei ele ir para a parte externa, e quando se aglomeraram meia dúzia de jornalistas me meti no meio com a cara e coragem, segurando meu mísero celular para gravar a entrevista (Ontem um amigo me disse que só tem uma coisa pior que ser jornalista, ser estudante jornalismo. Tem que fazer a entrevista na cara dura, sem credencial, sem câmera, sem nada... dependendo da boa vontade alheia). Consegui fazer três perguntas, que Lenine, super simpático e solícito, me respondeu muito calmo e sorrindente. Eu, do outro lado, mantinha um sorriso amarelo, mas tremia e suava mais que "tirador de espírito". Ai que nervoso! Minha primeira entrevista alguém importante de verdade.

Terminei, salvei o arquivo, e voltei para assistir o longa mais esperado da noite: Guia Prático, Histórico e Sentimental da Cidade do Recife, de Léo Falcão. Assisti o filme e voltei para casa com o ego inflado e uma sensação de dever cumprido. Até pegar o celular e procurar o arquivo que deveria ter o nome de “Sonora Lenine”. Procurei em todas as pastas, no telefone, no chip... até na parte de vídeos. A gravação simplesmente desapareceu, ou melhor, eu devo ter apagado, ou feito alguma besteira no auge da minha tremedeira de principiante.

Balanço do primeiro dia, da minha primeira cobertura, da minha primeira entrevista com alguém importante: Eu não tenho nenhuma gravação! Não tenho nada guardado que comprove que eu realmente falei com Lenine. Fazer o quê? São peças que a tecnologia e a vida de principiante pregam na gente. A única coisa que eu posso fazer é contar a história. Acreditem: Eu entreviste Lenine! ;)



[1] Termo usado no jornalimo "o" foca. Jornalista novo, inexperiente. Um foca. Consta que o apelido vem dos remotos tempos do flash a magnésio. Os fotógrafos dos jornais preparavam suas máquinas: focavam e deixavam o obturador (uma pequena "janela") aberto. Quando todos estavam prontos, alguém riscava um fósforo numa placa de magnésio e ela "explodia" num clarão. Essa luz passava pelo obturador aberto e impressionava a chapa, o avô do filme. Ocorre que alguns fotógrafos, inexperientes, demoravam para preparar a máquina - e atrasavam os outros. "Péra aí, estou focando." E os outros: "Foca logo, caramba". E mais tarde... "Ih, lá vem o foca". Esta é a história que eu conheço. Vendo o peixe como comprei. Valdir Sanches é jornalista e colunista do Planeta Express.