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segunda-feira, 19 de abril de 2010

O Olimpo das vaidades


Kataklò é uma palavra de origem grega. Ela define o espírito do trabalho. O nome não poderia ser melhor para uma companhia de dança, que transformou ex-atletas em bailarinos, fazendo uso do vigor físico e de suas possibilidades corporais. Na sexta-feira, no Teatro da UFPE, o público que acompanhou “Play”, destes artistas italianos, não teve dúvidas de que a técnica deles tinha de ser exaustiva, para alcançar a precisão dos movimentos.

Entretanto, para um espetáculo que vislumbra reunir esportes, dança e teatro em uma única apresentação, músculos e acrobacias perfeitas não são suficiente. Em cerca de 17 pequenas coreografias, em dois atos, a companhia tenta aproximar o público de diversas modalidades olímpicas oferecendo outras perspectivas.

Mas na maioria das composições falta maturidade coreográfica, o que torna o espetáculo até previsível. Poucos momentos são surpreendentes, como o do ringue de boxe, no qual os bailarinos camuflados fazem dançar, na verdade, as cordas do ringue, e não os boxeadores. Ou mesmo no movimento em que os bailarinos parecem se transformar em deuses do Olimpo.

“Play” é bonito de ser visto. Humorado, brinca ironicamente com esportes, como no futebol, e outros bem distantes, como o trenó olímpico. Mas ainda assim, fica a sensação de que nenhuma história foi contada, ou sentida. Sob músculos e acrobacias, sente-se falta de profundidade e sensibilidade.


* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 19/04/2010

A “Rainha” tem identidade negra

Companhia brasiliense aproxima dança e literatura para fazer crítica social


Não é de hoje que a bailarina e coreógrafa Laura Virgínia desenvolve trabalhos que reúnem a dança e a literatura. Graduada em Letras pela Universidade Federal de Brasília, Laura começou a seu trabalho de pesquisa, intitulado “Escridançando”, em 1997, quando já dançava profissionalmente. Em 2004, ela fundou a companhia de dança Margaridas - onde atua como diretora, bailarina e coreógrafa -, e com ela chega ao Recife para apresentar o espetáculo “Rainha”, hoje e amanhã, às 19h, no Sesc de Casa Amarela.

De acordo com Laura, “Rainha” nasceu de sua vontade pessoal de explorar com mais profundidade a condição da mulher negra na atualidade. “Eu fiz uma matéria sobre escritoras negras na literatura. A partir daí, cheguei ao livro ‘O olho mais azul’ da estadunidense Toni Morrison (Prêmio Nobel de Literatura), que conta a história de uma menina negra que queria ter o olho igual o da atriz Shirley Temple. A experiência despertou em mim a vontade de me aprofundar na identidade negra”, explicou Laura.

A ideia foi proposta ao grupo, e junto com Cleani Marques, com quem divide o palco, e Édi Oliveira, responsável pela criação coreográfica, o espetáculo começou a ser concebido. E, juntos, optaram por abordar questões relacionadas a gênero, preconceito, classe-social, autoestima, orgulho e ironia. Os poemas foram usados tanto como inspiração para expressar o imaginário feminino negro, como também para compor a própria dança. “Quando trouxemos a pesquisa para o universo editorial do Brasil foi bem diferente. Aqui trabalhamos com autoras com títulos com baixo potencial editorial, enquanto nos EUA há um prêmio como o Nobel”, destaca a bailarina.

Entre os textos selecionados para compor o espetáculo e inspirar suas cenas encontramos material das escritoras brasileiras: Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo (Minas Gerais); Cristiane Sobral e Tatiana (Brasília); Elisa Lucinda (Espírito Santo); e Andréia Lisboa e Negra Li (São Paulo). Os poemas das artistas norte-americanas são de Toni Morrison (Ohio); Alice Walker (Geórgia); Audre Lord (New York) e Maya Angelou (Missouri).

Apesar de se tratar de um espetáculo de dança, “Rainha” segue a premissa da companhia que na tentativa de agregar literatura e dança, trabalha sempre à fala junto com o movimento. “É de fato um trabalho mais difícil, porque além do treinamento corporal, temos aulas com uma fonoaudióloga e com uma professora de canto. Temos sempre um trabalho extra”, diz Laura, fazendo menção a o tipo de estética adotado pela companhia. E completou: “Também é preciso bastante cuidado porque o espetáculo não pode ter uma direção tradicional de teatro. Não temos personagens. Temos narradores que dançam”.

Com figurino e cenografia que valorizam objetos do cotidiano. O objetivo do espetáculo é colocar a mulher numa hierarquia que alcance o patamar mais alto, nesse caso, “Rainha”. A trilha sonora reforça esse universo feminino negro utilizando as canções “Four women” e “Images” de Nina Simone; “Tarata” de Clementina de Jesus; e “Ilu ayê” na voz de Clara Nunes.

As apresentações fazem parte do projeto de circulação do espetáculo, contemplado pelo prêmio Klauss Vianna, da Funarte. E, além de Recife, o grupo vai passar por Brasília, Campo Grande, Palmas, João Pessoa e Goiânia.

Serviço

“Rainha”

SESC Casa Amarela

Sábado (17) e domingo (18), às 19h

Ingressos: R$ 10 (inteira) R$ 5 (meia-entrada)


* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 17/04/201

Dança para refletir sobre o tempo

“5 Minutos Para Blackout” questiona existência humana, o tempo e a vida

Quando fez sua estreia durante o Festival Janeiro de Grandes Espetáculos deste ano, “5 Minutos Para Blackout”, espetáculo da Acupe Grupo de Dança, além de ter repercutido bastante no cenário local, também angariou seis indicações a prêmios em várias categorias do Festival, entre elas para melhor espetáculo de dança, e de melhor trilha sonora, para a composição do músico pernambucano Fred 04, que debutou na função compondo para a montagem. Agora, aqueles que não tiveram a chance de assistir a única apresentação do grupo feita durante o evento, terão a oportunidade de acompanhar o espetáculo, que volta aos palcos do Recife, hoje.

Ao todo serão quatro apresentações. Duas no teatro Barreto Júnior, hoje, às 19h30, e amanhã, às 20h, sendo a primeira apresentação fechada, e gratuita, para estudantes de escolas públicas através de uma parceria com o projeto Educação para o Teatro. As outras duas acontecem no teatro de Santa Isabel, nos dias 28 e 29 de abril.

Partindo das reflexões acerca do tempo feitas pelo coreógrafo e pesquisador austríaco, Rudolf Laban, “5 Minutos Para Blackout” propõe questionamentos sobre a existência humana, o tempo, e a trajetória da vida. “Tinha um interesse pessoal em desenvolver um estudo do movimento proposto por Laban. E a linguagem dele é universal, todo mundo entende, ou no mínimo desperta o interesse para o entendimento”, explicou Paulo Henrique Ferreira, que assina o texto e a direção do espetáculo.

A montagem, que é dividida em quadrantes que representam o tempo, o espaço, o fluxo e o peso - E descrevem a existência humana na trajetória da vida até a morte, na perspectiva de um dia (24h) - marcou ainda o retorno de Maria Eduarda Buarque ao posto de coreógrafa.

“A Maria também fez alguns cursos no Laban/Bartenieff, em Nova Iorque. Passamos dois meses no processo de pesquisa e discussão da proposta. Somente depois começou o processo com os bailarinos. Costumo dizer que eles são coautores, porque a proposta foi feita por nós, mas eles iam imprimindo suas particularidades, e ela ia ajustando tudo isso”, completa fazendo menção aos nomes de Fernanda Lobo, José W. Júnior (em revezamento com Kizer Carvalho), Mieja Chang, Paulo Henrique Ferreira e Roberta Cunha, bailarinos que fazem parte do elenco.

Paralelamente às apresentações, Paulo Henrique também vai ministrar oficinas de dança que fazem parte do projeto. A primeira no Cepoma de Brasília Teimosa, de 19 a 23 de abril, e a segunda no Sesc Santo Amaro, de 26 a 30 de abril. As oficinas são gratuitas.

Serviço

“5 Minutos Para Blackout”

Teatro Barreto Júnior - 15 de abril, às 20h

Teatro de Santa Isabel - 28 e 29 de abril, às 20h

Ingressos: R$15 (inteira) e R$7,5 (meia entrada)

* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 14/04/2010

Um entrelugar no limite do corpo

“4 x 4” reforçou a maestria de Deborah Colker em combinar força com precisão

Quem nunca assistiu, e vai pela primeira vez, a um espetáculo da Cia, de Dança Deborah Colker, compreende o porquê da coreógrafa ser a primeira brasileira a dirigir uma apresentação dos canadenses do Cique du Soleil. Força e vigor físico são características marcantes do espetáculo “4 por 4”, apresentado no último sábado, para um teatro Guararapes quase lotado. Entretanto, mais do que o domínio de corpo, do qual compartilham as duas companhias, em “4 por 4” o que chama mesmo a atenção é a leveza e precisão dos movimentos, bem como a plasticidade do espetáculo.

Dividido em dois atos, a primeira parte traz para o público três movimentos que propõe ao público um encontro da dança com as artes plásticas. Com 17 pessoas em cena, temos os quadros “Cantos” (baseado em Cildo Meireles), “Mesa” (Chelpa Ferro), “Povinho” (Victor Arruda) que são artistas de tempos e formas diferentes virando dança.

Em “Cantos”, os bailarinos interagem com seis estruturas montadas a partir da obra do artista. A dureza dessas estruturas só é quebrada por uma fresta que existe em uma delas, e permite que os corpos se entrelacem. Em “Mesa” - talvez o mais minimalista dos movimentos - os bailarinos dançam sobre um mesa, com uma tela de fundo verde. É plasticamente interessante, mas coreograficamente repetitivo. “Povinho” é colorido, divertido, despretensioso e simples. Bom ver esse tipo de coreografia brincando com a seriedade da experimentação, a qual se impõe o gênero contemporâneo.

Porém, é só no retorno do intervalo que o espetáculo se torna grandioso. “Vasos”é um verdadeiro desafio aos limites do possível. Coreografia angustiante que prende o fôlego do público, enquanto os bailarinos deslizam sobre 90 vasos dispostos no chão. Num dos momentos mais belos do espetáculo, depois que os vasos são içados, Dielson Pessoa - único pernambucano na Cia. - encerra a apresentação com um solo impecável.

* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 22/03/2010

Leveza e precisão “4 por 4”

Cia. Deborah Colker chega ao recife com espetáculo repaginado

No cenário da dança contemporânea nacional, nenhuma pessoa tem um nome tão expressivo quanto Deborah Colker. Primeira mulher no mundo a dirigir um espetáculo do Cirque du Soleil, “O Ovo”, ela vive um momento profissionalmente pleno. Reconhecida não apenas por seu talento evidente como bailarina e coreógrafa, ela se destaca por sua inquietude constante e sua busca de novos espaços na dança. E, claro, a coreógrafa continua a tocar sua Cia. de Dança com a qual retomou a turnê do espetáculo “4 por 4”, concebido originalmente em 2002, e que volta ao Recife para apresentações amanhã e domingo, no teatro Guararapes.

“O espetáculo está afinadinho”, disse Deborah, em entrevista a Folha de Pernambuco, por telefone. A afinação, ao que parece, tem muito a ver com a maturidade dos bailarinos, e com algumas mudanças técnicas ( e cênicas), que aconteceram em função das apresentações no Lincoln Center, em Nova Iorque, em outubro do ano passado. “A tela de fundo é nova, e agora permite que os bailarinos entrem ainda mais na pintura. Também há mudanças de figurino, e na própria experiência dos 17 bailarinos em cena, que já não são os mesmos que eram há oito anos atrás”, explica.

“4 por 4” propõe um encontro entre as artes plásticas e a dança. No palco, os bailarinos interagem com trabalhos de Cildo Meireles, Chelpa Ferro, Victor Arruda e Gringo Cardia. Em alguns momentos, dançam por entre 90 vasos de cerâmica, num exercício de leveza e precisão, que põe em cheque os próprios limites. Além disso, cinco quadros compõe a cenografia.

Para tristeza dos fãs de Deborah - que participa do espetáculo tocando Mozart no piano (uma de suas múltiplas facetas) - ela adianta que não será possível estar no Recife junto com a companhia. “Em função do compromisso com o Cirque precisarei estar em Nova Iorque neste final de semana”, diz. A ausência, entretanto, por certo não deve tirar o brilho do espetáculo, que é considerado um dos mais plásticos da companhia.

Serviço

Cia de Dança Deborah Colker - Espetáculo 4 por 4

Teatro Guararapes - Centro de Convenções

Amanhã, às 20h, e Domingo às 21h

Ingressos:

Platéia R$ 70 inteira e R$35 estudante

Balcão R$ 50 inteira e R$ 25 estudante

Informações: 3182.8020

* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 19/03/2010

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Freddy Krueger é pesadelo no universo da dança

É muito comum encontram espetáculos com nomes inusitados, mas talvez a montagem intitulada “Não Me Fales de Freddy Krueger” seja, por hora, uma das mais curiosas. O solo de dança contemporânea, que tomou como base para o processo criativo os sonhos da bailarina Andrea Anhaia, faz única apresentação hoje, às 19h, no teatro de Santa Isabel, dentro da programação do 16° Janeiro de Grandes Espetáculos.

Em cena, Anhaia apresenta uma viagem coreográfica entre a força pungente do sonhar e o acordar. O nome pouco comum para um espetáculo de dança foi sugestão do diretor, Asier Zabaleta, que trabalhou no processo de montagem junto com a bailarina. “Ele sugeriu esse nome porque achou interessante o fato de uma mulher adulta ter vários medos, inclusive esse, que é uma bobagem tão grande”, disse Anhaia referindo-se ao clássico personagem de “A Hora do Pesadelo” - referência do gênero de terror na década de 1980. “Também existe uma relação dos sonhos, e pesadelos, com a minha vida. Eu realmente tive todos os sonhos que estão no espetáculo”, completa.

A montagem costura momentos de dança, de texto, e de projeções que ao mesmo tempo em que se justificam, também se completam. Andrea Anhaia é pernambucana, radicada em Minas Gerais, e bailarina do Movasse - Coletivo de Criação. Os ingressos custam R$10 (preço promocional para todos).

Shakespeare

Também hoje, às 20h30, no teatro Barreto Júnior, a Companhia do Ator Nú faz única apresentação com o espetáculo “Encruzilhada Hamlet”. Na montagem, o jovem príncipe Hamlet, e seu coveiro, removem a cova onde foram enterrados há cinco séculos e ressurgem para um duelo de classes, de opostos e de sonhos. No elenco, Edjalma Freitas e Henrique Ponzi dão vida aos personagens dessa interessante montagem, levemente inspirada da obra Shakespeare. Os ingressos custam R$10 (inteira) e R$5 (meia-entrada). Veja a programação completa do 16° Janeiro de Grandes Espetáculo na Folha Digital.

* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 19/01/2010

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

A dança rende-se a novos espaços

Entre os destaques da temporada está o Festival Internacional de Dança do Recife

Uma das principais marcas da XIV edição do Festival Internacional de Dança do Recife tem sido romper as barreiras do palco e ocupar espaços diferenciados que aproximam a linguagem da dança do grande público. Ao longo da programação foram apresentações em sinais de trânsito, praças, e parques da cidade. Agora, rumo à reta final, a programação se intensifica ainda mais e ocupa outros lugares inusitados.

Hoje e amanhã, a partir das 17h, a Casa da Cultura será palco do espetáculo “As Partes do Todo”, da Cia. Solo do Outro. A apresentação faz uma investigação corporal que tem como inspiração criativa a história do local, que já foi uma casa de detenção. Não muito longe dali, na Praça do Diário, a escola Guerreiros do Passo presta uma homenagem ao mestre do frevo, Nascimento do Passo, falecido há pouco mais de um mês.

A Cia. Solo do Outro encarou o desafio de ousar ainda mais em suas montagens, e no sábado, às 10h, apresenta o espetáculo “Eu Tava Passando e Resolvi Sair” em meio à confusão do Mercado de São José. A bailarina e coreógrafa Flávia Pinheiro utiliza cores, cheiros, formas e rostos do mercado na composição de sua apresentação. Identidades anônimas se misturam em um espaço democrático de segregação social. A anomalia da cidade é retratada a partir da perspectiva de um dia comum. “Desde o começo pensamos em como interferir no espaço, reorganizando-o. Fomos muitas vezes ao mercado, e acabamos nos tornando parte dele. É muito interessante poder interagir com diferentes histórias”, afirmou Pinheiro.

Outros espaços da cidade também serão tomados pela dança. No sábado, o Nascedouro de Peixinhos recebe a “Mostra de Dança e Cultura Árabe”. A praça do Hipódromo, no bairro de Campo Grande, recebe um aulão de frevo com os Guerreiros do Passo. E uma roda de breaking dance vai tomar conta do Clube do Bolinho, no Alto José do Pinho.

Porém, a grande apoteose dessa integração “dança e público” deve acontecer amanhã e sábado na Rua da Moeda. Um grande palco montado na rua vai dar oportunidade para qualquer pessoa da plateia que queira mostrar que também sabe dançar. Com uma ajuda de um DJ, que deve coordenar as apresentações, talentos poderão ser revelados, provando que o Festival de Dança do Recife tem espaço para todos os ritmos e todas as tribos.

Nos Palcos

Seguindo a programação principal dos teatros o destaque de hoje é o Grupo Grial, que apresenta o espetáculo “Castanha sua Cor”, às 19h, no teatro do Parque. O espetáculo propõe um mergulho no subterrâneo da Cultura Brasileira, proporcionando reencontros com antigos mitos. Amanhã, a carioca Micheline Torres apresenta o espetáculo “Carne”, às 22h, no teatro Hermilo Borba Filho. No sábado, a companhia mineira “Primeiro Ato” encerra a programação do Festival e apresenta o espetáculo “Mundo Perfumado”, às 21h, no teatro de Santa Isabel. Com uma narrativa não linear, a apresentação explora o corpo do bailarino como meio e mensagem. A programação completa do XIV Festival Internacional de Dança do Recife está disponível no site da Folha Digital.

* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 29/10/2009

Festival de Dança começa hoje

De hoje até o próximo dia 31 de outubro a cidade não vai parar de dançar. Isso porque, logo mais a noite, vários espaços serão tomados pelas ações do 14° Festival Internacional de Dança do Recife (FIDR). Nesta edição o Festival reverencia o ano da França no Brasil, trazendo, entre as muitas atrações internacionais, três espetáculos de companhias francesas. A abertura do evento fica por conta da cia. Malka, que apresenta o espetáculo “Meia Lua”, a partir das 21h, no teatro de Santa Isabel.

Um pouco antes da abertura, às 18h30, em frente ao teatro, uma grande roda de Hip Hop vai servir de convite aos passantes, e aquecer o público que estiver chegando para assistir à apresentação. A descentralização do Festival não vai parar por aí, na edição em que os realizadores prometem levar a dança a outros espaços, as apresentações do festival também vão invadir os sinais de transito e até mesmo as paredes dos prédios do Recife.

Desde hoje cedo, várias intervenções chamaram a atenção dos passantes em várias partes da cidade. O segmento FIDR na rua programou dois tipos de ações: “Sinais de Dança” e “Videocidade”. A primeira delas com bailarinos de dança contemporânea e de Hip Hop se apresentando nos sinais de trânsito das avenidas mais movimentadas do Recife. enquanto os sinais estiverem fechados, os artistas apresentarão suas performances ao som de motores e buzinas.

Já com a mostra “Vídeocidade” os pedestres terão acesso aos vídeos dos principais espetáculos de dança do festival, projetados nas paredes das avenidas. Os primeiros vídeos serão projetados nas paredes da Av. Conde da Boa Vista, próximo ao cruzamento da Rua do Hospício. O Vídeocidade prossegue nos dias 26, 28 e 30 de outubro, no Parque 13 de Maio, Av. Agamenon Magalhães e Pina, respectivamente.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Morre um mito do passo

Um dos maiores nomes do frevo pernambucano, Nascimento do Passo será sepultado hoje, às 11h, no cemitério de Santo Amaro
Sombrinha de frevo na mão, e muito, muito passo no pé. Tanto que o talento deixou de ser ofício e passou a ser sobrenome. Nascimento do Passo. Assim passou a ser conhecido Francisco do Nascimento Filho, jovem amazonense de Benjamim Constant, que chegou ao Recife ainda jovem, e fez do frevo a sua vida. Aos 72 anos, o passista faleceu na madrugada de ontem vítima de um câncer no estômago. Nem de longe lembrava mais o bailarino forte e cheio de vitalidade que um dia foi. Estava deprimido. As acusações de abuso contra menores afastaram Nascimento dos palcos, das aulas, e de sua maior paixão: o frevo. Já não dançava. Mas o brilho e o legado deixado por esse mestre não se apagará com sua partida. Nascimento do Passo está para o frevo pernambucano assim como Ana Botafogo está para o balé do Municipal. São coisas indissociáveis e incontestáveis.

Ontem, durante todo o dia, amigos e parentes entravam e saiam do velório. Queriam dar o último adeus àquele a quem chamam de mestre. José Clemente Filho era um deles. Amigo próximo, conhecia Nascimento há 25 anos e aprendeu com ele a cultivar a paixão pelo passo. “Eu já era apaixonado pelo frevo, mas não sabia frevar. Aprendi toda minha técnica com ele. Hoje dou aulas na comunidade do Cardoso”, lembrou José Clemente. O amigo também fez questão de frisar a importância de Nascimento do Passo na divulgação do frevo no Brasil e no mundo. “O negão, meu negão, era internacional. O frevo agora fica mais pobre, em pouco tempo perdemos Salustiano, Eneas e agora Nascimento”, completou emocionado.

A lembrança do trabalho e da figura que foi Nascimento do Passo foi constante entre todos os presentes. Em seus depoimentos, foi unânime o fato de que as acusações contra ele pesaram sobre sua saúde. O afastamento da Escola Pernambucana de Frevo - projeto do qual foi o idealizador -, em 2003, foi um divisor de águas. Apesar de nunca comprovado, o fato teve muita repercussão e o impacto sobre a vida de Nascimento foi devastador.

Em 2002, ele esteve envolvido em denúncias de abuso sexual a adolescentes que tinham aula de frevo com ele, mas o passista se disse inocente, sempre. Ele respondia a quatro processos criminais, sendo que em um já havia recebido a sentença condenatória em fevereiro de 2006. Os outros três tramitavam na Vara de Crimes contra a Criança e Adolescente.De acordo com Gecilandy Lopes (Landinha, quarta mulher de Nascimento do Passo) uma nova audiência estava marcada para outubro.

Landinha, mesmo já separada do Nascimento, continuou cuidando do ex-marido. Acompanhou a evolução de seu quadro de saúde, que, nos últimos tempos piorou em função da dificuldade que ele estava tendo para se alimentar. Depois de ter enfrentado dois acidentes vascular cerebral (AVC), somente há cinco dias, quando foi internado no Hospital Getúlio Vargas, o tumor foi descoberto. “Ele não gostava de tomar medicação. Preferia tratamentos mais naturais, como chás e massagens” disse Landinha.

Nascimento do Passo aprendeu a técnica do frevo com outro mestre, Egídio Bezerra. Dançando, apresentou-se nos mais importantes palcos, e também nas ruas de vários cantos do País e do mundo. Ao longo de sua jornada ensinando o passo, uma geração de bailarinos e professores foi formada.

Agora, Nascimento do Passo se despede de toda uma vida dedicada ao frevo. Deixa seis filhos, a maioria envolvida com a dança. O homem que respirava e transpirava frevo cativou a todos com quem conviveu. Os versos da música que leva o nome de Nascimento do Passo, composta por outro mestre, Antônio Carlos, definem bem sua trajetória. “No frevedouro / Fiz um grande Rebuliço/ Preto, Branco e Mestiço/ Eu chamei pro Bafafá”.

* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 03/09/2009

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Aria estreia nova temporada de “Três Compassos”

Depois de um breve período longe dos palcos do Recife, o espetáculo “Três Compassos” - produção do projeto Aria Social - Criança, Arte e Vida - começa sua temporada 2009 de apresentações. O grupo, formado por jovens entre 15 e 22 anos que fazem parte do projeto, estreia hoje, às 19h30, no teatro Barreto Júnior.

O espetáculo “Três Compassos” é o resultado de um trabalho de dois anos com jovens de escolas municipais, que tem como via de ação o canto e a dança como instrumentos de transformação. No palco, o coral de 50 vozes apresenta um repertório que vai do sacro ao erudito, passando pelas manifestações populares tão conhecidas da nossa cultura. O repertório atende os gostos mais diversos, trazendo composições de nomes como Edu Lobo, Luiz Gonzaga ,Carmina Burana e até mesmo Vangelis. Com direção geral de Cecília Brennand e coreografias de Ana Emília Freire, Carla Machado e Zdenek Hampl, o espetáculo fica em cartaz todas as quintas-feiras do mês de agosto.

Serviço:
“Três Compassos”
Teatro Barreto Júnior
Todas as quintas-feiras de agosto, às 19h30
Ingressos: R$10 (inteira) e R$5 (meia-entrada)
Telefone: 3232-3054

* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 13/08/2009

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Maracatu Nação Pernambuco celébra toda sua majestade

Espetáculo “O Nação Canta e Dança Pernambuco” será apresentado no Santa Isabel

Começa hoje, às 19h, no teatro de Santa Isabel, a segunda etapa da VII Mostra Brasileira de dança. Em grande estilo: o Maracatu Nação Pernambuco sobe ao palco com um de seus espetáculos mais completos: “O Nação Canta e Dança Pernambuco”. O show também marca o início das comemorações do aniversário de 20 anos do grupo (a serem completados dia 15 de dezembro), que ajudou a visão da expressão popular no Estado, no Brasil e no mundo.

Em cena, 30 artistas - entre músicos, cantores e bailarinos - apresentam ao público os principais signos da cultura negra no País. O grupo leva a tradição do baque virado e dos cortejos de rua ao teatro, dando o tom de espetáculo. Esta, inclusive, é uma das principais características do grupo, que conseguiu identificar no maracatu um potencial cênico que possibilitou a apreciação de vários públicos. “Sempre procuramos fazer um tipo de releitura do maracatu tradicional, mantendo a mesma base, incluindo elementos teatrais”, explica a diretora artística do espetáculo, Amélia Veloso.

Contando a história de Xangô e suas três mulheres, desde sua coroação até o Carnaval, “O Nação Canta e Dança Pernambuco” é uma adaptação de um antigo show da companhia: “Batuque da Nação”, montado em 1992. “Aprimoramos técnicas que desenvolvemos ao longo dos anos, mas mantemos a essência do primeiro espetáculo”, diz Amélia. Com arranjos que incorporam os metais e o contrabaixo, instrumentos que não costumam ser usados no maracatu tradicional, o show apresenta um repertório de clássicos, como “Tambores Silenciosos”, “Nação Pernambuco” e “Viver Solto e Viver Virado”, criações do diretor musical e fundador do Maracatu Nação Pernambuco, Bernardino José.

Ao longo desses quase 20 de história, Bernardino trabalhou e acompanhou, diretamente o crescimento da trajetória do grupo. “O Nação foi criado em uma época em que existia a total falta de algo novo. Maracatu era coisa de preto, pobre e xangozeiro”, diz o diretor.

“O intuito era criar um grupo que incorporasse todas as raças e todas as classes sociais num só”, complementa. Hoje, o objetivo foi alcançado, e mesmo com todas as dificuldades de recursos, o trabalho está consolidado. Eles já realizaram pelo menos dez turnês internacionais (a última delas, na China), criaram segmentações do grupo com núcleos em Nazaré da Mata (Congo da Mata), no Auto do Moura (Cambira do Agreste), e até mesmo com um pólo em Paris - a Escola Pernambucongo. E a agenda de apresentações dura o ano todo. “Nossa maior vitória foi ver o maracatu, enquanto manifestação, extrapolar a redoma do Carnaval. Há algum tempo alguém me disse que o maracatu se dividia em duas partes: antes e depois de Nação. E é exatamente isso”, diz Amélia.

Ainda dentro das comemorações de aniversário, o grupo está trabalhando na montagem de um novo espetáculo: “Rádio Nação - Pernambuco falando para o mundo”. Além de um projeto, que está em fase de captação de recursos para a gravação do 1° DVD do Maracatu Nação Pernambuco, e também um livro de fotografias.

Mostra de dança com mais atrações

A VII Mostra Brasileira de Dança dá continuidade a sua programação com sessões amanhã e sábado, sempre às 19h, no Teatro de Santa Isabel. O evento, idealizado pelos produtores Paulo de Castro e Íris Macedo, encerra a temporada de apresentações com grupos de dança de estilos bastante diversificados, sendo em sua maioria, grupos e companhias pernambucanas. As únicas exceções são a companhia do Ballet Eliana Cavalcanti, de Maceió, e a Escola Municipal de Ballet Professor Roosevelt Pimenta, de Natal, que se apresentam, respectivamente, nos mesmos dias das demais.

A segunda etapa da mostra prioriza a apresentação de equipes iniciantes, mesclando com grupos já profissionais, uma das características do evento. Entre os destaques da programação de amanhã estão os pernambucanos do Grupo Endança, o Núcleo de Formação em Dança Espaço Experimental e a Cia. Pernambucana de Sapateado. Já no sábado, o palco do Santa Isabel recebe companhias que vão da Dança do ventre ao Balé Clássico. Destaque para o grupo Gesttus de Dança contemporânea.

Serviço
VII Mostra Brasileira de Dança
Teatro de Santa Isabel
Ingressos - R$15 (inteira) e R$ 7,50 (meia-entrada)
Telefone: 3224-1020

* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 23/07/2009

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Dançar está na moda! É só aprender

“São dois pra lá, dois pra cá”. Os versos imortalizados pela poderosa voz da cantora, Elis Regina, nunca foram tão praticados nas academias de dança do Recife. Em tempos em que a dança de salão virou a vedete de programas de auditório, reality shows e novelas, os aspirantes a Ginger Rogers e Fred Astaire lotam as academias de dança na esperança de aprender bem mais do que o trivial dois pra lá, dois pra cá.

Salsa, Samba de Gafieira, Tango, Forró, e até mesmo o mais recente zouk (ritmo africano, parecido com a lambada, que se tornou bastante popular nas academias), deixaram de ser um desafio distante e passaram a ser parte do cotidiano de gente comum, que nunca tinha se imaginado dançando como profissional.

Como a maioria dos homens, o estudante de Direito, de 24 anos, Philipe Aguiar, sempre achou que perdia a oportunidade de conhecer mulheres interessantes porque não sabia dançar. Mas mesmo assim ainda mantinha um certo preconceito em relação à dança. Há pouco mais de dois meses, Philipe resolveu se livrar das limitações e aprender a dançar. “Acabei mudando a minha visão da dança. Agora, toda vez que saio é somente pra dançar. Tenho o prazer da dança, nem paquero com ninguém”, disse Philipe sorrindo. A paixão se estendeu aos amigos, e ele logo conseguiu angariar parceiras. A colega de faculdade, Lis Brito foi uma delas. Há apenas um mês e meio nas aulas a estudante encontrou uma folga, mesmo com o dia corrido, para aprender ritmos diferentes. “Hoje, não vivo mais sem a dança. As aulas mudaram minha postura, e até mesmo minha atitude. Agora sou menos caseira, a turma da dança virou companhia nas saídas”, explicou Lis.

A mudança não é percebida apenas entre os mais jovens. Ângela Miranda é engenheira florestal, e aos 54 anos descobriu o prazer de dançar. “Costumo dizer que a dança de salão é três em um. Não pago analista, não pago academia e ainda aprendo a dançar”, brincou a engenheira.

Para Wilson Almeida, proprietário de uma escola de dança na torre, os programas de televisão ajudaram a dar mais visibilidade à dança de salão, mas além disso, as pessoas também têm sentido mais necessidade de saber dançar. “As pessoas estão usando a dança como uma forma de aliviar o estresse do dia-a-dia”, disse Wilson. Portanto, trate de arrumar um bom par e sair rodopiando por aí.

Serviço
Escola de Dança Hipérion
Tel: 3088-5660

quarta-feira, 10 de junho de 2009

RecorDança resgata a história da dança local

Projeto montou um acervo histórico-cultural sobre a dança em Pernambuco

Já se passaram quase seis anos, desde que os pesquisadores Roberta Ramos, Valéria Vicente, Liana Gesteira, Marcelo Sena, Ailce Moreira e Duda Freyre resolveram começar a montar um acervo histórico-cultural sobre a dança em Pernambuco. Agora, o projeto avança nas pesquisas e estende o foco de seu trabalho para as produções artísticas de dança que realizaram montagens entre os anos 2000 e 2008, com o objetivo de atualizar os dados dos artistas e grupos mapeados na primeira fase dos trabalhos.

Os interessados em contribuir poderão doar fotos, vídeos, programas, cartazes, e materiais referentes à produção desse período até o dia 18 de junho na sala 03 da Fundação Joaquim Nabuco (Derby), das 9h às 13h. A iniciativa é a segunda etapa de um projeto, bem sucedido, que tem ajudado a resgatar a memória desse segmento artístico que, há muito tempo, vinha sendo posto em um espaço secundário no Estado.

Bailarina de longas datas, foi Valéria quem começou a sentir falta de compreender melhor esse universo e se deparou com uma escassez absoluta de material de pesquisa. Todo material encontrado foi um livro de Goretti Rocha, sobre o Balé Popular do Recife. Todo o resto, era de difícil acesso, ou fazia parte de acervos pessoais. Foi a partir dessa necessidade que o grupo se juntou para tornar possível a construção de um acervo que pudesse ser instrumento de pesquisa para todas as pessoas interessadas no assunto. Surgiu o RecorDança.

Com o projeto aprovado pelo Funcultura, o grupo começou o trabalho inicial de identificação de nomes de grupos, bailarinos e coreógrafos. O marco inicial escolhido para pesquisa foi a profissionalização da dança, em 1976, com a montagem do balé armorial. Na época, sob a tutela do então Secretário de Cultura Ariano Suassuna, o grupo tornou-se a primeira companhia de dança a receber um salário diário para trabalhar em um espetáculo. “Foi a partir daí que delimitamos nossa pesquisa entre as décadas de 70 até 2000, com o foco claro para a dança cênica. Só então começamos a realizar as entrevistas e recolher o material do acervo pessoal das fontes que identificamos” explicou Roberta Ramos, coordenadora da pesquisa.

Como resultado do garimpo de informações realizado pelos pesquisadores foram mapeados 13 grupos (e companhias) de dança. Sendo produzidas 25 biografias, além de 34 CDs de vídeo com registros de espetáculos, que foram disponibilizados para o acesso gratuito em um banco de dados on-line, no site do RecorDança (www.recordanca.com.br). “Nós temos a intuito de ampliar ainda mais esse acervo, a princípio esse novo material que estamos fazendo a coleta não entre de imediato no site, mas esse já é o primeiro passo para dar continuidade à pesquisa”, disse Roberta Ramos.

Além de proporcionar o registro histórico de uma produção que estava em vias do esquecimento, o RecorDança também tem como proposta incentivar a reflexão crítica acerca do universo da dança. “Em paralelo a pesquisa percebemos que essa catalogação era apenas uma parte do trabalho, também queremos colocar em prática o aprofundamento do pensamento em relação a dança”, afirmou Liana Gesteira.

* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 10/06/2009

terça-feira, 26 de maio de 2009

“Floresta Amazônica” faz homenagem a Heitor Villa-Lobos

Um dos mais tradicionais grupos de balé clássico do país chega ao Recife para duas apresentações de sua turnê nacional em homenagem aos 50 anos da morte de Heitor Villa-Lobos. O Ballet do Theatro Municipal do Rio de Janeiro apresenta o espetáculo “Floresta Amazônica”, hoje (26) e amanhã (27), no teatro Guararapes. Na primeira noite de apresentações “A Deusa da Floresta”, protagonista da montagem, será vivida pela bailarina Ana Botafogo.

Um dos maiores clássicos interpretados pelo corpo de baile do Municipal, “Floresta Amazônica” – de Dalal Achcar – fez sua estreia em 1975. Hoje, 34 anos depois, a história de amor entre o homem branco e a deusa indígena, que tem como pano de fundo um dos maiores tesouros naturais do país, continua emocionando plateias por onde passa. Por esse motivo, o espetáculo foi escolhido pelo grupo para homenagear um dos maiores nomes da música erudita no Brasil, o compositor Heitor Villa-Lobos. A trilha sonora de “Floresta Amazônica” é toda montada a partir de suas composições. Além disso, a turnê também marca as comemorações do centenário do Theatro Municipal.

A montagem conta com 60 bailarinos em cena, e um megacenário que reproduz o ambiente da floresta. A iluminação e as projeções de imagens também proporcionam ao público a experiência de entrar em um universo bastante particular.

Para conhecer um pouco mais desse universo, a Folha de Pernambuco conversou com a bailarina Ana Botafogo, que falou um pouco sobre o espetáculo. Além da experiência de uma vida inteira dedicada ao balé clássico, e os rumos de sua carreira.

Como é trabalhar uma temática “homem branco e índio” através da dança?

A montagem é muito bonita, muito lírica, faz parte do repertório dos clássicos. É uma produção essencialmente nacional, que continua atual porque fala do nosso tesouro que é Amazônia. Esse é um balé que gosto muito de dançar porque tem uma beleza e uma delicadeza que são bastante raras.

Um espetáculo para celebrar duas datas especiais como os 100 anos do Theatro Municipal e 50 anos de Villa-Lobos é uma responsabilidade muito grande. Como você se sente com isso?

Nossa maneira de homenageá-lo foi montando esse espetáculo. Por isso escolhemos essa data redonda, que é sempre mais marcante. Foi uma consciência que o Theatro também estivesse comemorando o centenário. Então encontramos uma maneira de fazer como que o balé pudesse estar sempre viajando e levando o nome do Theatro, já que nesse momento ele está fechado para reforma.
Essa é apenas uma das comemorações. Dia 14 de julho faremos um grande espetáculo em homenagem ao centenário, no Rio de Janeiro, com palco ao ar livre. O Coro e a Orquestra do Theatro também participarão.

Você e o Theatro Municipal são coisas indissociáveis, como se sente com isso?

Fico muito orgulhosa em saber disso. Eu dediquei toda minha vida a minha carreira e ao Theatro. Sou bailarina do Municipal há 28 anos. Me sinto totalmente integrada a essa história, porque a vivi intensamente. Fico muito feliz com essa associação.

Em 2002, você recebeu o prêmio da Ordem de Mérito Cultural, como ativista da dança. Ajudar a divulgar o balé clássico é uma de suas prioridades?

Eu ainda continuo muito envolvida com minha atividade de bailarina. Me apresento sempre com vários espetáculos. Na realidade, não tenho esse foco no dia- a-dia. Mas eu sempre incentivo o balé, e tento levar a imprensa para dar visibilidade a projetos que entendem que é possível se transformar através da dança.

Tento trabalhar dentro das minhas possibilidades. A rotina de treinamentos é bastante puxada. Ensaiamos diariamente das 10h às 16h, além disso também precisamos fazer um treinamento físico como pilates, e outras atividades. É uma vida muito difícil que requer muita dedicação.

Em 2006, você se aventurou na televisão, com um personagem na novela “Páginas da Vida”, de Manoel Carlos. Você tem pretensões como atriz?

A novela foi uma experiência maravilhosa, mas tive que tirar uma licença do Ballet porque as gravações me consumiam muito tempo. No momento eu tenho uma agenda de espetáculos muito grande e minha prioridade é ser bailarina.

Mas já estou envolvida em um projeto com Marília Pêra para abril de 2010. Vou participar da peça “O vórtice”, de Noel Coward. E também vou fazer uma participação especial como uma bailarina na próxima novela de Manoel Carlos, “Viver a Vida”.

O que é preciso ter para ser uma boa bailarina, talento sobrevive sem técnica?

Talento sem técnica e determinação, não conseguem vencer em nada na vida. O jovem pode ter talento, mas tem que ter disciplina e disposição para tentar superar suas dificuldades e conseguir torna-se profissional respeitável. É preciso saber abdicar de muitas coisas prol do treinamento.


terça-feira, 19 de maio de 2009

A ditadura da beleza em xeque

Em uma semana o recifense conheceu dois universos distintos tratando de neuroses semelhantes mas antagônicas. Na terça-feira (12), o espetáculo Hysteria, do Grupo XIX de Teatro, emocionou ao mostrar mulheres que se tornaram histéricas, por sentirem em demasia. No final de semana, “Geraldas e Avencas”, do Grupo de Dança 1° Ato, apresentou mulheres (e homens) que chegaram à histeria por serem superficiais.

Até onde a busca pela perfeição plástica nos leva? A questão surge já na primeira cena, quando Marcela Rosa repete o seu perturbado e mecânico: “Boa noite. Sejam bem vindos.É um prazer tê-los aqui”, numa analogia a necessidade das pessoas em agradar para serem aceitas. Cada número apresentado consegue envolver a platéia, num misto de identificação e rejeição, com a ditadura da beleza. Da mulher que quer ser o pôster da revista ao solo da bailarina sem rosto.

Além de instigar no público uma reflexão acerca dessa padronização, “Geraldas...” também tem momentos plasticamente belos: como o dueto da cena de amor e a ciranda final. A luz do espetáculo também é parte atuante na narrativa. Bem como a vídeo-arte, assinada por Tatu Guerra e Chico de Paula, que, entre outras projeções, expuseram a beleza de rugas e cicatrizes marcadas na pele. O espetáculo é coroado com a trilha sonora brilhante de Zeca Baleiro, que em meio a pérolas como “Turbinada”, também criou faixas instrumentais em ritmos diversos.

* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 18/05/2009

quarta-feira, 8 de abril de 2009

A arte de transformar vidas*

Grupo Corpos e Tambores trabalha com crianças e adolescentes que já estiveram em situação de risco social


AMANDA SENA


Marcelo Lacerda

Não é de hoje que arte é usada como instrumento transformador de vidas. Histórias de sucesso e crescimento pessoal a partir do acesso à cultura já foram contadas inúmeras vezes, mas algumas merecem ser contadas por serem, acima de tudo, exemplos de vida que inspiram outras vidas.

Histórias como a de Maria Neves, ex-aluna e professora de dança do Movimento Pró-Criança desde 2003. Maria chegou à Fundação aos 12 anos, quando ainda morava na Comunidade do Caranguejo, em Olinda, e recebeu a visita dos educadores que na época, ainda não tinham sede própria e costumavam fazer seu trabalho visitando as comunidades. Nesse momento, Maria teve seu primeiro contato com o universo da dança, pelo qual se apaixonou e posteriormente o transformou em trabalho.

Depois de sete anos fazendo parte da Cia de Música e Dança do Movimento, um convite inesperado ajudou a estreitar ainda mais os laços de Maria com a dança. Ela recebeu uma bolsa de um ano para estudar balé clássico, dança contemporânea e jazz na escola Alvin Ailey, em Nova York. A instituição é famosa por ter formado algumas personalidades famosas, entre elas a diva pop Madonna. “Foi uma experiência única e tudo serve como bagagem para o nosso trabalho. Apesar de aqui dar aulas de dança popular, toda experiência conta, tudo é válido”, disse Maria, que recebeu o convite para compor a equipe de educadores do Movimento assim que retornou ao País.

Em seu trabalho como coreógrafa do grupo Corpos e Tambores, trabalha com crianças e adolescentes que, assim como ela, estiveram em situação de risco social, mas encontraram na arte motivos de sobra para reverter essa situação. “Até hoje eu me sinto muito feliz, trabalhar aqui é uma forma de retribuição tudo aquilo que o Pró-Criança fez por mim. E que ainda continua fazendo, porque o aprendizado é recíproco”, afia Maria.

O tempo que esses jovens dedicam as aulas e ensaios é um tempo proveitoso e produtivo, é a oportunidade que eles têm de ter acesso à cultura, que por ventura eles não teriam. As aulas acontecem sempre no horário diferente da escola, e para participar das atividades é pré-requisito fundamental conciliar os ensaios com o rendimento escolar.

É o caso de Niedson Oliveira, de 19 anos, que passou uma temporada na instituição, saiu, mas acabou voltando e agora faz parte do grupo de dança. “Estar aqui é uma coisa ótima, descobrimos nossos talentos. E Maria é uma professora maravilhosa, é a nossa mãe. Ela nos ensinou tudo sobre dança, sobre ética...tudo que sabemos”, falou Niedson.

O grupo Corpos e Tambores está em cartaz com a temporada de apresentações do espetáculo “Um passeio pelos ritmos pernambucanos”, que também conta com a participação dos alunos da oficina de música e percussão, ministrada pelo professor Edilson José da Silva. O grupo se apresenta no próximo dia 16, no teatro do Parque, e dias 18 e 19 no teatro Maurício de Nassau.

Celeiro de Sucessos


Com quase 16 anos de história, o Movimento Pró-criança tem formado, ao longo da sua jornada de trabalhos junto às comunidades, vários jovens talentosos que se destacam nas mais diversas áreas. Tanto que, a fundação está preparando um livro que vai contar as “Histórias de Sucesso” que já passaram por lá. São atores, bailarinos, fotógrafos que conseguiram se reinserir na sociedade e se destacar no universo das artes e também dos esportes. “O que é mais gratificante é que todos eles, assim como Maria, não querem sair, têm vontade de ficar aqui até como professores. Mas também temos o cuidado de formá-los para o mundo”, explicou a gestora da unidade Piedade, Adriana Paiva.

Serviço

Um Passeio Pelos Ritmos Pernambucanos
Teatro do Parque
Rua do Hospício, 81, Boa Vista
Dia: 16 de abril às 18h30

Teatro Maurício de Nassau
Vigário Tenório, 135, Bairro do Recife
Dias: 18 e 19, às 18h
Ingressos: R$5,00 (inteira) e R$2,00 (meia)

* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 08/04/2009