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segunda-feira, 19 de abril de 2010

O Olimpo das vaidades


Kataklò é uma palavra de origem grega. Ela define o espírito do trabalho. O nome não poderia ser melhor para uma companhia de dança, que transformou ex-atletas em bailarinos, fazendo uso do vigor físico e de suas possibilidades corporais. Na sexta-feira, no Teatro da UFPE, o público que acompanhou “Play”, destes artistas italianos, não teve dúvidas de que a técnica deles tinha de ser exaustiva, para alcançar a precisão dos movimentos.

Entretanto, para um espetáculo que vislumbra reunir esportes, dança e teatro em uma única apresentação, músculos e acrobacias perfeitas não são suficiente. Em cerca de 17 pequenas coreografias, em dois atos, a companhia tenta aproximar o público de diversas modalidades olímpicas oferecendo outras perspectivas.

Mas na maioria das composições falta maturidade coreográfica, o que torna o espetáculo até previsível. Poucos momentos são surpreendentes, como o do ringue de boxe, no qual os bailarinos camuflados fazem dançar, na verdade, as cordas do ringue, e não os boxeadores. Ou mesmo no movimento em que os bailarinos parecem se transformar em deuses do Olimpo.

“Play” é bonito de ser visto. Humorado, brinca ironicamente com esportes, como no futebol, e outros bem distantes, como o trenó olímpico. Mas ainda assim, fica a sensação de que nenhuma história foi contada, ou sentida. Sob músculos e acrobacias, sente-se falta de profundidade e sensibilidade.


* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 19/04/2010

A “Rainha” tem identidade negra

Companhia brasiliense aproxima dança e literatura para fazer crítica social


Não é de hoje que a bailarina e coreógrafa Laura Virgínia desenvolve trabalhos que reúnem a dança e a literatura. Graduada em Letras pela Universidade Federal de Brasília, Laura começou a seu trabalho de pesquisa, intitulado “Escridançando”, em 1997, quando já dançava profissionalmente. Em 2004, ela fundou a companhia de dança Margaridas - onde atua como diretora, bailarina e coreógrafa -, e com ela chega ao Recife para apresentar o espetáculo “Rainha”, hoje e amanhã, às 19h, no Sesc de Casa Amarela.

De acordo com Laura, “Rainha” nasceu de sua vontade pessoal de explorar com mais profundidade a condição da mulher negra na atualidade. “Eu fiz uma matéria sobre escritoras negras na literatura. A partir daí, cheguei ao livro ‘O olho mais azul’ da estadunidense Toni Morrison (Prêmio Nobel de Literatura), que conta a história de uma menina negra que queria ter o olho igual o da atriz Shirley Temple. A experiência despertou em mim a vontade de me aprofundar na identidade negra”, explicou Laura.

A ideia foi proposta ao grupo, e junto com Cleani Marques, com quem divide o palco, e Édi Oliveira, responsável pela criação coreográfica, o espetáculo começou a ser concebido. E, juntos, optaram por abordar questões relacionadas a gênero, preconceito, classe-social, autoestima, orgulho e ironia. Os poemas foram usados tanto como inspiração para expressar o imaginário feminino negro, como também para compor a própria dança. “Quando trouxemos a pesquisa para o universo editorial do Brasil foi bem diferente. Aqui trabalhamos com autoras com títulos com baixo potencial editorial, enquanto nos EUA há um prêmio como o Nobel”, destaca a bailarina.

Entre os textos selecionados para compor o espetáculo e inspirar suas cenas encontramos material das escritoras brasileiras: Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo (Minas Gerais); Cristiane Sobral e Tatiana (Brasília); Elisa Lucinda (Espírito Santo); e Andréia Lisboa e Negra Li (São Paulo). Os poemas das artistas norte-americanas são de Toni Morrison (Ohio); Alice Walker (Geórgia); Audre Lord (New York) e Maya Angelou (Missouri).

Apesar de se tratar de um espetáculo de dança, “Rainha” segue a premissa da companhia que na tentativa de agregar literatura e dança, trabalha sempre à fala junto com o movimento. “É de fato um trabalho mais difícil, porque além do treinamento corporal, temos aulas com uma fonoaudióloga e com uma professora de canto. Temos sempre um trabalho extra”, diz Laura, fazendo menção a o tipo de estética adotado pela companhia. E completou: “Também é preciso bastante cuidado porque o espetáculo não pode ter uma direção tradicional de teatro. Não temos personagens. Temos narradores que dançam”.

Com figurino e cenografia que valorizam objetos do cotidiano. O objetivo do espetáculo é colocar a mulher numa hierarquia que alcance o patamar mais alto, nesse caso, “Rainha”. A trilha sonora reforça esse universo feminino negro utilizando as canções “Four women” e “Images” de Nina Simone; “Tarata” de Clementina de Jesus; e “Ilu ayê” na voz de Clara Nunes.

As apresentações fazem parte do projeto de circulação do espetáculo, contemplado pelo prêmio Klauss Vianna, da Funarte. E, além de Recife, o grupo vai passar por Brasília, Campo Grande, Palmas, João Pessoa e Goiânia.

Serviço

“Rainha”

SESC Casa Amarela

Sábado (17) e domingo (18), às 19h

Ingressos: R$ 10 (inteira) R$ 5 (meia-entrada)


* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 17/04/201

Dança para refletir sobre o tempo

“5 Minutos Para Blackout” questiona existência humana, o tempo e a vida

Quando fez sua estreia durante o Festival Janeiro de Grandes Espetáculos deste ano, “5 Minutos Para Blackout”, espetáculo da Acupe Grupo de Dança, além de ter repercutido bastante no cenário local, também angariou seis indicações a prêmios em várias categorias do Festival, entre elas para melhor espetáculo de dança, e de melhor trilha sonora, para a composição do músico pernambucano Fred 04, que debutou na função compondo para a montagem. Agora, aqueles que não tiveram a chance de assistir a única apresentação do grupo feita durante o evento, terão a oportunidade de acompanhar o espetáculo, que volta aos palcos do Recife, hoje.

Ao todo serão quatro apresentações. Duas no teatro Barreto Júnior, hoje, às 19h30, e amanhã, às 20h, sendo a primeira apresentação fechada, e gratuita, para estudantes de escolas públicas através de uma parceria com o projeto Educação para o Teatro. As outras duas acontecem no teatro de Santa Isabel, nos dias 28 e 29 de abril.

Partindo das reflexões acerca do tempo feitas pelo coreógrafo e pesquisador austríaco, Rudolf Laban, “5 Minutos Para Blackout” propõe questionamentos sobre a existência humana, o tempo, e a trajetória da vida. “Tinha um interesse pessoal em desenvolver um estudo do movimento proposto por Laban. E a linguagem dele é universal, todo mundo entende, ou no mínimo desperta o interesse para o entendimento”, explicou Paulo Henrique Ferreira, que assina o texto e a direção do espetáculo.

A montagem, que é dividida em quadrantes que representam o tempo, o espaço, o fluxo e o peso - E descrevem a existência humana na trajetória da vida até a morte, na perspectiva de um dia (24h) - marcou ainda o retorno de Maria Eduarda Buarque ao posto de coreógrafa.

“A Maria também fez alguns cursos no Laban/Bartenieff, em Nova Iorque. Passamos dois meses no processo de pesquisa e discussão da proposta. Somente depois começou o processo com os bailarinos. Costumo dizer que eles são coautores, porque a proposta foi feita por nós, mas eles iam imprimindo suas particularidades, e ela ia ajustando tudo isso”, completa fazendo menção aos nomes de Fernanda Lobo, José W. Júnior (em revezamento com Kizer Carvalho), Mieja Chang, Paulo Henrique Ferreira e Roberta Cunha, bailarinos que fazem parte do elenco.

Paralelamente às apresentações, Paulo Henrique também vai ministrar oficinas de dança que fazem parte do projeto. A primeira no Cepoma de Brasília Teimosa, de 19 a 23 de abril, e a segunda no Sesc Santo Amaro, de 26 a 30 de abril. As oficinas são gratuitas.

Serviço

“5 Minutos Para Blackout”

Teatro Barreto Júnior - 15 de abril, às 20h

Teatro de Santa Isabel - 28 e 29 de abril, às 20h

Ingressos: R$15 (inteira) e R$7,5 (meia entrada)

* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 14/04/2010

Um entrelugar no limite do corpo

“4 x 4” reforçou a maestria de Deborah Colker em combinar força com precisão

Quem nunca assistiu, e vai pela primeira vez, a um espetáculo da Cia, de Dança Deborah Colker, compreende o porquê da coreógrafa ser a primeira brasileira a dirigir uma apresentação dos canadenses do Cique du Soleil. Força e vigor físico são características marcantes do espetáculo “4 por 4”, apresentado no último sábado, para um teatro Guararapes quase lotado. Entretanto, mais do que o domínio de corpo, do qual compartilham as duas companhias, em “4 por 4” o que chama mesmo a atenção é a leveza e precisão dos movimentos, bem como a plasticidade do espetáculo.

Dividido em dois atos, a primeira parte traz para o público três movimentos que propõe ao público um encontro da dança com as artes plásticas. Com 17 pessoas em cena, temos os quadros “Cantos” (baseado em Cildo Meireles), “Mesa” (Chelpa Ferro), “Povinho” (Victor Arruda) que são artistas de tempos e formas diferentes virando dança.

Em “Cantos”, os bailarinos interagem com seis estruturas montadas a partir da obra do artista. A dureza dessas estruturas só é quebrada por uma fresta que existe em uma delas, e permite que os corpos se entrelacem. Em “Mesa” - talvez o mais minimalista dos movimentos - os bailarinos dançam sobre um mesa, com uma tela de fundo verde. É plasticamente interessante, mas coreograficamente repetitivo. “Povinho” é colorido, divertido, despretensioso e simples. Bom ver esse tipo de coreografia brincando com a seriedade da experimentação, a qual se impõe o gênero contemporâneo.

Porém, é só no retorno do intervalo que o espetáculo se torna grandioso. “Vasos”é um verdadeiro desafio aos limites do possível. Coreografia angustiante que prende o fôlego do público, enquanto os bailarinos deslizam sobre 90 vasos dispostos no chão. Num dos momentos mais belos do espetáculo, depois que os vasos são içados, Dielson Pessoa - único pernambucano na Cia. - encerra a apresentação com um solo impecável.

* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 22/03/2010

Leveza e precisão “4 por 4”

Cia. Deborah Colker chega ao recife com espetáculo repaginado

No cenário da dança contemporânea nacional, nenhuma pessoa tem um nome tão expressivo quanto Deborah Colker. Primeira mulher no mundo a dirigir um espetáculo do Cirque du Soleil, “O Ovo”, ela vive um momento profissionalmente pleno. Reconhecida não apenas por seu talento evidente como bailarina e coreógrafa, ela se destaca por sua inquietude constante e sua busca de novos espaços na dança. E, claro, a coreógrafa continua a tocar sua Cia. de Dança com a qual retomou a turnê do espetáculo “4 por 4”, concebido originalmente em 2002, e que volta ao Recife para apresentações amanhã e domingo, no teatro Guararapes.

“O espetáculo está afinadinho”, disse Deborah, em entrevista a Folha de Pernambuco, por telefone. A afinação, ao que parece, tem muito a ver com a maturidade dos bailarinos, e com algumas mudanças técnicas ( e cênicas), que aconteceram em função das apresentações no Lincoln Center, em Nova Iorque, em outubro do ano passado. “A tela de fundo é nova, e agora permite que os bailarinos entrem ainda mais na pintura. Também há mudanças de figurino, e na própria experiência dos 17 bailarinos em cena, que já não são os mesmos que eram há oito anos atrás”, explica.

“4 por 4” propõe um encontro entre as artes plásticas e a dança. No palco, os bailarinos interagem com trabalhos de Cildo Meireles, Chelpa Ferro, Victor Arruda e Gringo Cardia. Em alguns momentos, dançam por entre 90 vasos de cerâmica, num exercício de leveza e precisão, que põe em cheque os próprios limites. Além disso, cinco quadros compõe a cenografia.

Para tristeza dos fãs de Deborah - que participa do espetáculo tocando Mozart no piano (uma de suas múltiplas facetas) - ela adianta que não será possível estar no Recife junto com a companhia. “Em função do compromisso com o Cirque precisarei estar em Nova Iorque neste final de semana”, diz. A ausência, entretanto, por certo não deve tirar o brilho do espetáculo, que é considerado um dos mais plásticos da companhia.

Serviço

Cia de Dança Deborah Colker - Espetáculo 4 por 4

Teatro Guararapes - Centro de Convenções

Amanhã, às 20h, e Domingo às 21h

Ingressos:

Platéia R$ 70 inteira e R$35 estudante

Balcão R$ 50 inteira e R$ 25 estudante

Informações: 3182.8020

* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 19/03/2010