quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Teatro que faz a diferença

Malkavian encontrou no próprio corpo sua melhor forma de expressão

Para muitos, subir em um palco, encarar uma plateia e representar um personagem é um verdadeiro desafio. Difícil de ser enfrentado! Imagine agora, fazer tudo isso quando se tem vergonha do próprio corpo. Quando se tem uma deficiência física que o torna diferente da maioria das pessoas. O obstáculo a ser transposto torna-se ainda maior. Márcio Malkavian tem 23 anos, e já pode dizer que tem uma longa carreira nos palcos. São quase dez anos de experiência trabalhando como ator e bailarino, e, não fosse por um problema de má formação congênita que lhe tirou o movimento das duas pernas, Márcio seria igual a qualquer outro ator.

Porém, foi justamente a sua deficiência que o levou a fazer escolhas diferentes. Ainda adolescente ele tinha muita dificuldade em aceitar sua condição. “Eu me sentia muito tímido, tinha vergonha de ir para a escola porque meu irmão mais velho costumava me levar carregado nas costas”. Foi quando, aos 14 anos, ele decidiu entrar para uma oficina de teatro que acontecia em frente à escola onde estudava, no Sítio da Trindade. Na época, Márcio vivia uma fase muito difícil. “Já tinha pensado várias vezes em suicídio, não conseguia ver possibilidades”, disse o ator. O primeiro contato com as artes cênicas foi um verdadeiro divisor de águas. A oficina ministrada pelo diretor Gustavo Vilar dava ênfase a tudo o que Márcio mais temia: a expressão corporal. Era um teatro físico e vigoroso que buscava, principalmente, ressaltar as diferenças de biótipos humanos.

Em “Paralelas”, seu primeiro espetáculo oficial como ator, Márcio pôde testar em definitivo sua capacidade de exposição. “Eu testei o meu limite, estava no palco para me mostrar para as pessoas do jeito que eu sou. A partir dali eu perdi essa posição de coitadinho e quebrei todos os meus tabus”.
Este foi apenas o começo de uma carreira repleta de superações. Dedicado e empenhado ao ofício que escolheu, Márcio nunca parou de aprender. E os desafios nunca pararam de surgir. Em 2008, ele que até então só havia estado no palco como ator, foi convidado pela diretora do grupo de dança Grial, Maria Paula Costa Rêgo, para fazer parte do corpo de bailarinos do grupo. “Ela me perguntou se eu já havia pensado em ser bailarino, e eu respondi que não, justamente porque a minha deficiência é nas pernas”, lembrou Márcio. Na época o grupo estava trabalhando em um projeto no qual os bailarinos dançavam presos a uma parede. Foi a oportunidade perfeita. O espetáculo permitia que ele dançasse adaptando a coreografia às suas possibilidades.

As oportunidades e as conquistas que foram sendo trilhadas em seu caminho profissional serviram para fortalecer o ator também como pessoa. “Hoje sou um homem totalmente diferente. No teatro nunca senti nenhum tipo de preconceito, sempre consegui trabalhar de igual para igual. O preconceito maior ainda é fora do palco, as pessoas acham estranho até o fato de eu ser deficiente e usar piercings, como se a minha deficiência fosse um empecilho para minha maneira de me expressar”, ressaltou Malkavian.

E foi justamente pelo fato de nunca ser taxado de “diferente” que Márcio conseguiu alcançar resultados tão positivos. “O trabalho que fazemos com o Márcio é igual ao de qualquer outro ator, inclusive no que diz respeito à preparação corporal. O que faz a diferença no trabalho dele é a qualidade da sua interpretação. Ele se dedica, estuda, e isso se sobrepõe a sua deficiência. Ele é parte do grupo como qualquer outro”, afirmou o diretor Benedito Serafim, que atualmente dirige Márcio nos espetáculos “O Auto da Barca do Inferno” e “Ex-miseráveis”, da Cia. de Teatro Falaz.

Nesse último espetáculo, inclusive, Márcio realizou a conquista de mais um sonho. Divide o palco com a diva do teatro Pernambucano, Geninha da Rosa Borges. “Quase não acreditei quando ela chegou para o ensaio. É uma responsabilidade bem pesada estar no palco ao lado de Geninha”, disse Márcio com um sorriso estampado no rosto de quem conseguiu reverter a história de uma vida em função dos palcos.

* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 27/08/2009

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