
Não é novidade para ninguém que o teatro pernambucano tem uma das produções mais expressivas e consistentes do País, mesmo estando afastado do eixo Rio-São Paulo. Ao longo de várias décadas, atores, diretores e produtores trabalharam e enfrentaram todo tipo de obstáculo, para garantir que suas peças chegassem aos palcos. Nessa jornada, alguns nomes já se tornaram consagrados, enquanto outros começam a construir uma história. Em comum, uma mesma paixão: O teatro.
Para ajudar a contar um pouco dessa trajetória, a Folha de Pernambuco reuniu quatro gerações de mulheres do teatro pernambucano. Geninha da Rosa Borges (87), considerada a primeira-dama do teatro de Pernambuco, Socorro Raposo (77), a eterna compadecida de Ariano Suassuna, Fabiana Pirro (34), sócia e companheira de palco de Lívia Falcão no premiado espetáculo “Caetana”, e Olga Ferrario (17), protagonista da peça infantil “A árvore de Júlia”, despiram-se de rótulos, e ajudaram a fazer o registro de uma história da qual foram protagonistas. O cenário dessa conversa não podia ser outro: Teatro de Santa Isabel. Palco de tantas histórias vividas por essas atrizes, que escolheram o teatro como forma de expressão.
Entrevista:
Folha: Voltando ao passado, quais são as principais diferenças entre o teatro daquela época e o de hoje?
Geninha: O que existia era um preconceito muito grande. Uma mulher não podia pisar num palco. Dr. Valdemar (de Oliveira) dizia que as mocinhas podiam pisar num palco até para receber diploma de datilografia. Mas nunca para fazer teatro. Era o mesmo que ser uma mulher vagabunda.
Socorro: Tornar-se atriz não era uma profissão bem vista.
Geninha: Foi quando Dr. Valdemar, por conta do centenário da medicina, recebeu um convite para fazer um show com médicos. Ele disse vamos fazer uma peça de teatro só com médicos, senhoras e filhas de médicos. A plateia o que seria? Os amigos dos médicos. Dessa forma ninguém iria falar da mulher dos amigos que estavam no palco.O sucesso foi tão grande, que foi o estopim para criação do Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP). Ele pegou gente da mais alta sociedade recifense de todas as áreas e colocou no palco no TAP.
Olga: Pois é, hoje isso já se democratizou mais, não é?!
Folha: Graças a momentos como esse de Geninha, que forçou a barra e foi para o palco.
Olga: Pois é, eu tenho que agradecer. Elas são as precursoras nisso. Por acabar com o preconceito. Hoje posso estar no palco sem ter que enfrentar esse tipo de coisa.
Folha: E por que teatro, e não qualquer outra forma de expressão artística?
Geninha: Eu hoje tenho a experiência de todos os ramos. Já fiz televisão, teatro, cinema, curta, média, longa. Já fiz de tudo. Eu respondo, sem titubear, que escolho o meu teatro. Quando fiz “Da Cor do Pecado” o diretor pedia para que todo mundo olhasse para uma mesa e imaginasse um templo, que não estava lá, ia ser colocado pelo computador. Eu quero lá um negócio desse? Prefiro, meu teatrinho que a gente cresce na emoção. (risos)
Socorro: Eu digo sempre que o teatro é a arte nua e crua. Se você faz bem, está dado o recado. E cinema e televisão você repete quantas vezes for necessário. Em teatro, não.O teatro é emoção pura, e o ator trabalha com emoção.
Fabiana: Todos dizem que o cinema é uma arte muito do editor. O teatro eu acho que é arte do ator mesmo, a gente tem diretor, figurino, cenário, mas quem está no palco com a cara, a emoção e a bagagem é o ator. Você escutar de Geninha que é o teatro que ela escolhe, uma pessoa que tem tantos anos dedicados às artes cênicas, é porque realmente é onde chamamos a responsabilidade pra gente.
Folha: O que mudou em relação a produção e ao público?
Geninha: O esvaziamento do teatro. Eu entendo, porque, naquela época, só existia o teatro como atração. As pessoas se vestiam bem para irem às peças. Agora você liga a televisão tem vários programas, tem shows, muitas escolhas. Agora, já que estamos só mulheres reunidas, acredito que temos que lutar pela volta do bom teatro. Porque hoje em dia só se vai ao teatro para rir e ouvir safadeza.
Fabiana: Mas nós temos essa preocupação. Temos duas companhias, já montamos “Caetana”, “A Árvore de Júlia” e sempre temos esse cuidado. Nosso teatro é experimental, é um teatro buscando uma linguagem, e um texto, que realmente faça a pessoa pensar.
Socorro: Não sou contra o escracho, nem contra o deboche. Mas eu acho que é importante a gente fazer alguma coisa que ajude a elevar nosso espírito Que possa gratificante para quem faz, e também interessante para quem assiste.
Olga: Também acho que não vale a pena reproduzir algo que a gente já vê na vida, já vê na TV. Arte pra reproduzir aquilo que já existe. Só manter igual. Não é interessante.
Folha: Existe uma tendência dos espetáculos fazerem uma reprodução, como Olga falou, para garantir o mínimo de bilheteria. Uma espécie de fórmula do sucesso?
Socorro: Mas ai é que está, no nosso tempo a gente fazia teatro sem ganhar dinheiro.Hoje, a primeira coisa que o ator pergunta, é qual é o cachê? Nunca ninguém se preocupou com isso, a gente fazia teatro por amor.
Geninha: E o meu continua sendo. Não seria no fim da minha vida que eu iria rasgar a minha bandeira de amadorista.
Fabiana: É aí onde está um pouquinho da diferença da época delas para a nossa. Eu acho lindo, quando eu escuto elas falarem que o importante não era o dinheiro, era o amor. É quase um pouco como a gente fala do futebol. Querer comparar aqueles grandes jogadores de antigamente, que jogavam por amor a camisa. Agora é tudo pelo dinheiro. Geninha e Socorro tinham esse amor ao time. Mas ao mesmo tempo, hoje em dia, eu digo isso porque eu sou mãe, tenho uma companhia para tocar e a gente tem uma folha de pagamento para cumprir e poder manter os espetáculos.
Folha: Hoje em dia também percebemos que os elencos estão cada vez mais reduzidos. De uma certa forma, isso não limita a escolha dos textos?
Fabiana: É uma opção de praticidade, para conseguir conciliar a disponibilidade do elenco. Mas o texto dependendo da história que se queira contar, isso é bem flexível. Em “Caetana” mesmo, eu faço sete personagens. Às vezes as pessoas até brincam dizendo que parece que a peça tem mais gente.
Olga: É a montagem que vai se adaptando ao elenco. Nada fica submisso ao texto, isso é algo que se constrói.
Folha: Saindo um pouco do universo do teatro, no começo do ano Geninha fez mais uma participação na televisão, vivendo um personagem de destaque na trama global “A Favorita”. Como foi essa experiência?
Geninha: O diretor me perguntou se eu queria ganhar um presente de Natal. Eu respondi que sim, mesmo sem saber o que era. Foi ai que ele me convidou para interpretar a mãe de Silveirinha. Recebi as passagens junto com o texto. Agora eu perdi minha identidade. Não sou mais Geninha da Rosa Borges, sou a mãe de Silveirinha. (risos)
Fabiana: Você pode ter certeza que o Recife inteiro parou no dia para lhe ver.
Geninha: Mas sabia que isso me deu uma renovada, que vocês não podem imaginar.
Para ajudar a contar um pouco dessa trajetória, a Folha de Pernambuco reuniu quatro gerações de mulheres do teatro pernambucano. Geninha da Rosa Borges (87), considerada a primeira-dama do teatro de Pernambuco, Socorro Raposo (77), a eterna compadecida de Ariano Suassuna, Fabiana Pirro (34), sócia e companheira de palco de Lívia Falcão no premiado espetáculo “Caetana”, e Olga Ferrario (17), protagonista da peça infantil “A árvore de Júlia”, despiram-se de rótulos, e ajudaram a fazer o registro de uma história da qual foram protagonistas. O cenário dessa conversa não podia ser outro: Teatro de Santa Isabel. Palco de tantas histórias vividas por essas atrizes, que escolheram o teatro como forma de expressão.
Entrevista:
Folha: Voltando ao passado, quais são as principais diferenças entre o teatro daquela época e o de hoje?
Geninha: O que existia era um preconceito muito grande. Uma mulher não podia pisar num palco. Dr. Valdemar (de Oliveira) dizia que as mocinhas podiam pisar num palco até para receber diploma de datilografia. Mas nunca para fazer teatro. Era o mesmo que ser uma mulher vagabunda.
Socorro: Tornar-se atriz não era uma profissão bem vista.
Geninha: Foi quando Dr. Valdemar, por conta do centenário da medicina, recebeu um convite para fazer um show com médicos. Ele disse vamos fazer uma peça de teatro só com médicos, senhoras e filhas de médicos. A plateia o que seria? Os amigos dos médicos. Dessa forma ninguém iria falar da mulher dos amigos que estavam no palco.O sucesso foi tão grande, que foi o estopim para criação do Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP). Ele pegou gente da mais alta sociedade recifense de todas as áreas e colocou no palco no TAP.
Olga: Pois é, hoje isso já se democratizou mais, não é?!
Folha: Graças a momentos como esse de Geninha, que forçou a barra e foi para o palco.
Olga: Pois é, eu tenho que agradecer. Elas são as precursoras nisso. Por acabar com o preconceito. Hoje posso estar no palco sem ter que enfrentar esse tipo de coisa.
Folha: E por que teatro, e não qualquer outra forma de expressão artística?
Geninha: Eu hoje tenho a experiência de todos os ramos. Já fiz televisão, teatro, cinema, curta, média, longa. Já fiz de tudo. Eu respondo, sem titubear, que escolho o meu teatro. Quando fiz “Da Cor do Pecado” o diretor pedia para que todo mundo olhasse para uma mesa e imaginasse um templo, que não estava lá, ia ser colocado pelo computador. Eu quero lá um negócio desse? Prefiro, meu teatrinho que a gente cresce na emoção. (risos)
Socorro: Eu digo sempre que o teatro é a arte nua e crua. Se você faz bem, está dado o recado. E cinema e televisão você repete quantas vezes for necessário. Em teatro, não.O teatro é emoção pura, e o ator trabalha com emoção.
Fabiana: Todos dizem que o cinema é uma arte muito do editor. O teatro eu acho que é arte do ator mesmo, a gente tem diretor, figurino, cenário, mas quem está no palco com a cara, a emoção e a bagagem é o ator. Você escutar de Geninha que é o teatro que ela escolhe, uma pessoa que tem tantos anos dedicados às artes cênicas, é porque realmente é onde chamamos a responsabilidade pra gente.
Folha: O que mudou em relação a produção e ao público?
Geninha: O esvaziamento do teatro. Eu entendo, porque, naquela época, só existia o teatro como atração. As pessoas se vestiam bem para irem às peças. Agora você liga a televisão tem vários programas, tem shows, muitas escolhas. Agora, já que estamos só mulheres reunidas, acredito que temos que lutar pela volta do bom teatro. Porque hoje em dia só se vai ao teatro para rir e ouvir safadeza.
Fabiana: Mas nós temos essa preocupação. Temos duas companhias, já montamos “Caetana”, “A Árvore de Júlia” e sempre temos esse cuidado. Nosso teatro é experimental, é um teatro buscando uma linguagem, e um texto, que realmente faça a pessoa pensar.
Socorro: Não sou contra o escracho, nem contra o deboche. Mas eu acho que é importante a gente fazer alguma coisa que ajude a elevar nosso espírito Que possa gratificante para quem faz, e também interessante para quem assiste.
Olga: Também acho que não vale a pena reproduzir algo que a gente já vê na vida, já vê na TV. Arte pra reproduzir aquilo que já existe. Só manter igual. Não é interessante.
Folha: Existe uma tendência dos espetáculos fazerem uma reprodução, como Olga falou, para garantir o mínimo de bilheteria. Uma espécie de fórmula do sucesso?
Socorro: Mas ai é que está, no nosso tempo a gente fazia teatro sem ganhar dinheiro.Hoje, a primeira coisa que o ator pergunta, é qual é o cachê? Nunca ninguém se preocupou com isso, a gente fazia teatro por amor.
Geninha: E o meu continua sendo. Não seria no fim da minha vida que eu iria rasgar a minha bandeira de amadorista.
Fabiana: É aí onde está um pouquinho da diferença da época delas para a nossa. Eu acho lindo, quando eu escuto elas falarem que o importante não era o dinheiro, era o amor. É quase um pouco como a gente fala do futebol. Querer comparar aqueles grandes jogadores de antigamente, que jogavam por amor a camisa. Agora é tudo pelo dinheiro. Geninha e Socorro tinham esse amor ao time. Mas ao mesmo tempo, hoje em dia, eu digo isso porque eu sou mãe, tenho uma companhia para tocar e a gente tem uma folha de pagamento para cumprir e poder manter os espetáculos.
Folha: Hoje em dia também percebemos que os elencos estão cada vez mais reduzidos. De uma certa forma, isso não limita a escolha dos textos?
Fabiana: É uma opção de praticidade, para conseguir conciliar a disponibilidade do elenco. Mas o texto dependendo da história que se queira contar, isso é bem flexível. Em “Caetana” mesmo, eu faço sete personagens. Às vezes as pessoas até brincam dizendo que parece que a peça tem mais gente.
Olga: É a montagem que vai se adaptando ao elenco. Nada fica submisso ao texto, isso é algo que se constrói.
Folha: Saindo um pouco do universo do teatro, no começo do ano Geninha fez mais uma participação na televisão, vivendo um personagem de destaque na trama global “A Favorita”. Como foi essa experiência?
Geninha: O diretor me perguntou se eu queria ganhar um presente de Natal. Eu respondi que sim, mesmo sem saber o que era. Foi ai que ele me convidou para interpretar a mãe de Silveirinha. Recebi as passagens junto com o texto. Agora eu perdi minha identidade. Não sou mais Geninha da Rosa Borges, sou a mãe de Silveirinha. (risos)
Fabiana: Você pode ter certeza que o Recife inteiro parou no dia para lhe ver.
Geninha: Mas sabia que isso me deu uma renovada, que vocês não podem imaginar.
| A minha primeira vez no palco... | |
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Sejam elas divas consagradas, ou atrizes começando a trilhar um caminho no teatro. Foi quando pisaram pela primeira vez em cima de um palco, que elas perceberam que seria aquilo que fariam até o resto de suas vidas. Aqui, Geninha da Rosa Borges, Socorro Raposo, Fabiana Pirro e Olga Ferrario dividem conosco as emoções que sentiram em suas estreias inesquecíveis.
Geninha da Rosa Borges:
Descobri que seria atriz antes, ainda no colégio. Na verdade, as freiras me descobriram. Tudo que acontecia no colégio, quando chegava uma visita importante, mandavam me chamar. O Papa Pio XII, quando ainda era núncio apostólico, veio ao Recife, e foi fazer uma visita ao Colégio São José. As freiras me deram a missão de recitar uma poesia em italiano. Eu não tinha a menor ideia do que estava dizendo. Por isso, minha vida já foi dirigida pequenininha, eu não tive trabalho nenhum. Um pouco mais tarde, Dr. Valdemar (de Oliveira) foi pedir aos meus pais para que eu entrasse no TAP, ele precisou fazer o convite na minha casa e com hora marcada. E depois que eu entrei no teatro, a família toda passou a se envolver. Meu pai ficou sendo o tesoureiro do teatro, minha mãe virou contra-regra. Em dia de espetáculo a casa ficava vazia, porque até os móveis vinham para o teatro.
Fabiana Pirro:
“Desde de muito pequena, minha mãe me levava ao teatro. Sempre que passava aqui pelo Santa Isabel, ficava encantada e dizia para mim mesma, que um dia ia estar no palco desse teatro. No início, falava da boca pra fora, mas no fundo acreditava nisso. Depois eu comecei a fotografar, passei 10 anos trabalhando como modelo, mas ainda assim dizia: Eu quero me apresentar nesse teatro! Uma vez eu disse isso a minha mãe, e ela me disse que o único jeito era virar atriz. Comecei a pensar que já estava envolvida no meio artístico (moda, fotografia), e já fazia parte do mesmo caldeirão. Depois disso fui parar lá na Paixão de Cristo. Em uma das minhas vindas de São Paulo, Xuruca Pacheco me convidou para fazer a cena do bacanal de Herodes. Quando eu vi 10 mil pessoas na frente tive certeza de que fiz a escolha certa. Logo depois, quando subi no palco do Santa Isabel percebi que o que você quer de coração, você consegue. Me tornei atriz por culpa do Santa Isabel.”
Olga Ferrario:
Na verdade eu costumo dizer que comecei na barriga da minha mãe (Lívia Falcão), ela esteve em cena durante os nove meses da gestação. Desde muito pequena, quando me perguntavam o que eu queria ser, eu respondia: Atriz! Continuei fazendo teatro na escola e já tinha muita desenvoltura no palco. Em um curso do TAP, participei da peça “Mateus e Caterina”. Ali foi a primeira vez que senti a energia do grupo todo reunido antes de entrar em cena. Depois disso, lembro de dizer a minha mãe que tinha decidido que era isso o que queria fazer. Foi então que surgiu a oportunidade em “A Árvore de Júlia”. Elas já tinham o texto, e queriam montar há algum tempo, mas faltava uma atriz para viver a protagonista. Foi então que Fabiana disse a minha mãe que Júlia era eu.
Socorro Raposo:
Eu comecei como rádio-atriz na rádio Clube Tamandaré. Mas em teatro mesmo, eu entrei por uma acaso. Clênio Vanderlei foi quem me deu convites para eu ir assistir ao “Auto da compadecida”. Eu fiquei muito feliz, porque nunca tinha ido a um teatro de verdade. Dois dias depois, Clênio foi à minha escola e disse que iria me levar a casa dele para que eu decorasse o texto do “Auto”. Eu perguntei: Mas não é o espetáculo que eu vou assistir? E ele disse: Você não vai mais assistir, você vai fazer. A atriz que ia fazer o papel, Mírian Nunes, havia desistido. E ele lembrou da minha emoção quando recebi os convites. No dia 11 de setembro de 1956, fiz minha estreia como atriz, vivendo a compadecida, aqui no Santa Isabel. Estava tão nervosa que quando procurei o texto na mente, não me veio uma palavra. Rezei com fé, pedindo para conseguir dar todo o texto. De repente consegui falar tudo certinho. Só sei que quando terminou o espetáculo eu estava com 40 graus de febre, com os olhos e a boca tão inchados, que fui parar no pronto socorro. Foi uma estreia inesquecível.
Geninha da Rosa Borges:
Descobri que seria atriz antes, ainda no colégio. Na verdade, as freiras me descobriram. Tudo que acontecia no colégio, quando chegava uma visita importante, mandavam me chamar. O Papa Pio XII, quando ainda era núncio apostólico, veio ao Recife, e foi fazer uma visita ao Colégio São José. As freiras me deram a missão de recitar uma poesia em italiano. Eu não tinha a menor ideia do que estava dizendo. Por isso, minha vida já foi dirigida pequenininha, eu não tive trabalho nenhum. Um pouco mais tarde, Dr. Valdemar (de Oliveira) foi pedir aos meus pais para que eu entrasse no TAP, ele precisou fazer o convite na minha casa e com hora marcada. E depois que eu entrei no teatro, a família toda passou a se envolver. Meu pai ficou sendo o tesoureiro do teatro, minha mãe virou contra-regra. Em dia de espetáculo a casa ficava vazia, porque até os móveis vinham para o teatro.
Fabiana Pirro:
“Desde de muito pequena, minha mãe me levava ao teatro. Sempre que passava aqui pelo Santa Isabel, ficava encantada e dizia para mim mesma, que um dia ia estar no palco desse teatro. No início, falava da boca pra fora, mas no fundo acreditava nisso. Depois eu comecei a fotografar, passei 10 anos trabalhando como modelo, mas ainda assim dizia: Eu quero me apresentar nesse teatro! Uma vez eu disse isso a minha mãe, e ela me disse que o único jeito era virar atriz. Comecei a pensar que já estava envolvida no meio artístico (moda, fotografia), e já fazia parte do mesmo caldeirão. Depois disso fui parar lá na Paixão de Cristo. Em uma das minhas vindas de São Paulo, Xuruca Pacheco me convidou para fazer a cena do bacanal de Herodes. Quando eu vi 10 mil pessoas na frente tive certeza de que fiz a escolha certa. Logo depois, quando subi no palco do Santa Isabel percebi que o que você quer de coração, você consegue. Me tornei atriz por culpa do Santa Isabel.”
Olga Ferrario:
Na verdade eu costumo dizer que comecei na barriga da minha mãe (Lívia Falcão), ela esteve em cena durante os nove meses da gestação. Desde muito pequena, quando me perguntavam o que eu queria ser, eu respondia: Atriz! Continuei fazendo teatro na escola e já tinha muita desenvoltura no palco. Em um curso do TAP, participei da peça “Mateus e Caterina”. Ali foi a primeira vez que senti a energia do grupo todo reunido antes de entrar em cena. Depois disso, lembro de dizer a minha mãe que tinha decidido que era isso o que queria fazer. Foi então que surgiu a oportunidade em “A Árvore de Júlia”. Elas já tinham o texto, e queriam montar há algum tempo, mas faltava uma atriz para viver a protagonista. Foi então que Fabiana disse a minha mãe que Júlia era eu.
Socorro Raposo:
Eu comecei como rádio-atriz na rádio Clube Tamandaré. Mas em teatro mesmo, eu entrei por uma acaso. Clênio Vanderlei foi quem me deu convites para eu ir assistir ao “Auto da compadecida”. Eu fiquei muito feliz, porque nunca tinha ido a um teatro de verdade. Dois dias depois, Clênio foi à minha escola e disse que iria me levar a casa dele para que eu decorasse o texto do “Auto”. Eu perguntei: Mas não é o espetáculo que eu vou assistir? E ele disse: Você não vai mais assistir, você vai fazer. A atriz que ia fazer o papel, Mírian Nunes, havia desistido. E ele lembrou da minha emoção quando recebi os convites. No dia 11 de setembro de 1956, fiz minha estreia como atriz, vivendo a compadecida, aqui no Santa Isabel. Estava tão nervosa que quando procurei o texto na mente, não me veio uma palavra. Rezei com fé, pedindo para conseguir dar todo o texto. De repente consegui falar tudo certinho. Só sei que quando terminou o espetáculo eu estava com 40 graus de febre, com os olhos e a boca tão inchados, que fui parar no pronto socorro. Foi uma estreia inesquecível.
* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 08/06/2009

isso ai tia socorro. ela é um amor a eterna compadecida
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