Espetáculo, que foi encenado na terça-feira, no Liceu de Artes e Ofícios, mostra universo feminino“Entrem senhoras, rápido, rápido. Não toquem nas janelas. Aqui vocês terão que seguir as regras”. Ao recebermos essas informações, descobrimos que nós - a plateia - também estamos isolados em um dos cômodos de um hospital psiquiátrico no ano de 1897. A interação público-elenco do espetáculo “Hysteria” é uma das marcas registradas do teatro vivencial feito pelos cariocas do Grupo XIX de Teatro, que se apresentaram na última terça-feira, no Liceu de Artes e Ofícios. Ainda na entrada, homens e mulheres são divididos em dois grupos, e não voltam a se misturar até o fim do espetáculo. Tudo é feito e pensado para que sejamos transportados ao universo de cinco mulheres (quatro pacientes e uma enfermeira) que foram isoladas, e execradas, da sociedade em função das mazelas que as tornaram histéricas.
A ausência de suportes cênicos não compromete, em nada, a qualidade da peça. Ao contrário. A opção do diretor, Luiz Fernando Marques, em sair do teatro e usar espaços pouco convencionais, é mais do que necessária para o envolvimento com a narrativa. Assim como a escolha de usar a luz natural - de final de tarde - do ambiente nos ajuda a compreender a densidade das personagens. A medida que a luz vai caindo, essas mulheres vão tornando-se cada vez mais complexas e dramáticas. E num cenário de quase penumbra, revelam-se insanas por serem sensíveis.
“Hysteria” é na verdade um exercício de compreensão da condição feminina. Daquele distante 1897 até hoje, passaram-se mais de um século. Muitas mudanças aconteceram. As mulheres tornaram-se menos submissas, mais independentes e liberais, houve a revolução sexual, e aquele conservadorismo de outrora já parece não ter mais sentido. Entretanto, mesmo pertencendo a épocas tão distintas, algo naquele cômodo aproxima as mulheres presentes. Amor, casamento, religião, sexo, filhos, temas atemporais, que fazem parte do nosso universo, e que pela capacidade de interação e improvisação das atrizes são imediatamente incorporados pelo público.
Ao final do espetáculo, a frase da enfermeira Nini resume essa identificação inerente: “Mulheres foram feitas para sentir e o sentimento as tornam histéricas”, deixando no ar a sensação de que a plateia, dividida, de fato assistiu a dois espetáculos diferentes.
* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 14/05/2009
A ausência de suportes cênicos não compromete, em nada, a qualidade da peça. Ao contrário. A opção do diretor, Luiz Fernando Marques, em sair do teatro e usar espaços pouco convencionais, é mais do que necessária para o envolvimento com a narrativa. Assim como a escolha de usar a luz natural - de final de tarde - do ambiente nos ajuda a compreender a densidade das personagens. A medida que a luz vai caindo, essas mulheres vão tornando-se cada vez mais complexas e dramáticas. E num cenário de quase penumbra, revelam-se insanas por serem sensíveis.
“Hysteria” é na verdade um exercício de compreensão da condição feminina. Daquele distante 1897 até hoje, passaram-se mais de um século. Muitas mudanças aconteceram. As mulheres tornaram-se menos submissas, mais independentes e liberais, houve a revolução sexual, e aquele conservadorismo de outrora já parece não ter mais sentido. Entretanto, mesmo pertencendo a épocas tão distintas, algo naquele cômodo aproxima as mulheres presentes. Amor, casamento, religião, sexo, filhos, temas atemporais, que fazem parte do nosso universo, e que pela capacidade de interação e improvisação das atrizes são imediatamente incorporados pelo público.
Ao final do espetáculo, a frase da enfermeira Nini resume essa identificação inerente: “Mulheres foram feitas para sentir e o sentimento as tornam histéricas”, deixando no ar a sensação de que a plateia, dividida, de fato assistiu a dois espetáculos diferentes.
* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 14/05/2009

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