quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O deleite de uma carreira promissora

Sucesso nos anos 80, o espetáculo “Doce Deleite”, de Alcione Araújo, arrebatou o público da época a partir da interpretação magistral de Marília Pêra e Marco Nanini. A dupla dava vida a diversos personagens, em uma sequência de 12 esquetes, consideradas as precursoras do gênero besteirol. Hoje, quase 30 anos depois, os atores Reynaldo Gianecchini e Alessandra Maestrini (Toma lá dá cá) encaram o desafio de uma nova montagem, agora, com Marília assumindo a direção do espetáculo. Para saber um pouco mais da trajetória da peça, que já está há um ano e meio em turnê pelo País, o caderno Programa conversou com o ator, que falou sobre o processo de composição dos personagens, os desafios da montagem, e também sobre sua trajetória de ascensão como ator.

Quando surgiu o convite da Marília qual foi a primeira coisa que passou pela sua cabeça?
Eu tenho uma coisa comigo, que é muito do signo de escorpião, de ser movido a desafios. Quando surgiu o convite achei uma maravilha poder aprender com a Marília. Era um projeto irrecusável.A gente já vinha querendo trabalhar junto há muito tempo, só que nunca rolava. Mas logo depois que eu aceitei o convite é que a ficha caiu. Bateu aquele ‘Meu Deus! Eu nunca dancei, nunca cantei’. Mesmo assim topei o desafio. Quando surgiu o convite eu estava todo enrolado por causa das gravações da novela. Combinamos de esperar e durante esse tempo fui fazendo aulas de preparação de dança, e de canto, junto com a Camila (Morgado). Essa foi a melhor parte pra mim. A Marília nos acompanhava nas aulas de dança. Passamos oito meses muito juntos, nos conhecendo, e nos tornamos amigos.

Deu medo de fazer um papel que foi do Nanini?
Eu acho o Nanini um gênio. Nunca assumi isso pelo lado da responsabilidade. Não encaro pelo lado da substituição, acho que é uma honra poder ocupar esse lugar.

Quais são suas impressões em relação ao texto de Alcione. A nova montagem só repete três esquetes do texto original, mesmo assim elas ainda funcionam?
Na verdade são quatro esquetes daquela época. A primeira montagem tinha outros autores, agora só usamos textos do Alcione. Mas os tempos são outros. Lá era o começo do besteirol, o público era outro, os atores eram outros. Eu e a Camila somos atores diferentes e só com isso a mesma esquete já estimula reações diferentes. Para mim a peça é um grande borrão para gente brincar em cima. Somos dois atores brincando com a criação dos personagens, trazendo os recursos que temos enquanto atores para o mundo.

Qual é o maior desafio do espetáculo: cantar, dançar, ou dar vida a diversos personagens numa só montagem?
Tudo pra mim é um grande desafio. Eu interpreto sete personagens diferentes, todos com perfis de comédia distintos. Isso por si só, já é um desafio. Mas para mim o mais difícil de todos foi o canto. Foi o que me deu mais insegurança porque precisei partir do zero. Ao contrário da dança. Eu sofria muito nas aulas de canto. O aprendizado não fica tão evidente porque na música você trabalha músculos que estão por dentro, tudo é muito subjetivo.

Há pouco mais de dois meses a Camila precisou ser substituída pela Alessandra (Maestrini) isso interferiu de alguma forma no ‘time’ da peça?
A Camila acompanhou o processo desde o começo. A peça foi montada em cima da gente, das nossas percepções. Foi muito doloroso para todos nós quando ela precisou sair por causa das gravações. Mas não tinha outro jeito. A Alessandra se encaixou como uma luva. Ela já tinha a bagagem do canto lírico e também é comediante. Claro que a peça muda toda, mas foi gostoso porque ambas são muito boas atrizes.

Desde sua estreia em Laços de Família (2000), quase 10 anos se passaram. Como foi a experiência de passar de ator criticado a ator escolhido para protagonizar um espetáculo dirigido por um dos maiores mitos do teatro nacional?
É um processo de muito trabalho. É óbvio que qualquer profissional em início de carreira tem dificuldades, mas não sou de ficar acomodado. Isso não quer dizer que você vá acertar sempre, mas para mim, o mais importante é que eu dou sempre o meu melhor. Às vezes, claro, não é tão bom, e você é criticado. Mas o mais importante é ter respeito por esse trabalho e pela experiência que se pode tirar dele. Nesses 10 anos tive a oportunidade de aprender com muita gente boa.

No livro lançado com o texto da peça e entrevistas com você e a Camila, você fala que não te desanima o fato de saber que muita gente só vai ao teatro pra ver o galã da novela. Ao longo de mais de um ano de turnê com a peça, você tem sentido essa relação se modificar?
Realmente não me incomoda. Como cada público é diferente, quando você começa o espetáculo dá pra perceber que tem um monte de gente buscando o cara da TV. Isso muda ao longo do espetáculo. A peça é muito comunicativa, nós vamos ganhando as pessoas aos poucos. E no final, é realizador ver que todo mundo está envolvido com a gente.

Serviço:
“Doce Deleite”
Teatro da UFPE - Campus Universitário
Hoje, às 21h, e domingo às 20h
Ingressos: R$80 (inteira) e R$40 (meia) plateia / R$60 (inteira) R$30 (meia) balcão
Informações 3207-5757 / 3207-1144

* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 02/10/2009

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