quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Respeitável público, vem chegando o circo

Começa em outubro a quinta edição do Festival de Circo do Brasil

Outubro é o mês da criança, mas tanto os pequenos, quanto os mais crescidinhos vão poder comemorar a data desfrutando de toda a magia que só o circo pode oferecer. Entre os dias oito e 18 de outubro começa no Recife a quinta edição do Festival de Circo do Brasil. Ao longo de dez dias, uma vasta programação com companhias de circo do Brasil, e do exterior, vão movimentar vários pólos espalhados pela cidade. O Festival também marca as comemorações do ano da França no Brasil, e nessa edição vai contemplar as principais companhias de circo dos dois países.

“ Tentamos fazer um pequeno panorama do circo tradicional até circo contemporâneo francês. Ao todo serão seis montagens francesas e mais de onze atrações nacionais”, explica a coordenadora e curadora do evento, Dani Hoover. Há cinco anos à frente da organização do festival, Hoover destaca que a França é hoje um dos principais celeiros de talentos circenses, que conseguem dialogar com técnicas arrojadas e inovadoras. Em conjunção com os espetáculos nacionais, o festival vislumbra apresentar ao público um recorte de toda efervescência da produção de circo ao redor do mundo. “A proposta do festival é cada vez mais ampliar o horizonte do circo, e de como ele é visto pela plateia. Tivemos edições exclusivas de lona, de rua, e de palco. Queremos apresentar as várias expressões que o circo tem no mundo. Toda sua abrangência mesmo que de forma fragmentada. Estamos mostrando que o circo saiu da lona e ganhou outros espaços. É uma arte aberta a várias linguagens”.

Nomes de peso do cenário internacional farão, pela primeira vez, apresentações no país. As companhias francesas Cirque Fusion, Akoreacro e Non Nova, se apresentam em sessões exclusivas do Festival. Entre essas, destaque para um dos mais esperados espetáculos “P.P.P.”, da Non Nova, que vai colocar congeladores e bolas de gelo no palco do Santa Isabel, que serão manipuladas pelo malabarista Philippe Ménard. O espetáculo, que já passou por 60 países, e foi eleito um dos cinco melhores espetáculos pelo Culture France, apresenta toda a técnica e rigor da arte circense. “ O artista constrói uma performance de arte contemporânea, desde a concepção plástica, até a conceitual, que aborda o transexualismo, através da mutação das coisas”, explica Hoover.

Entre as crias da casa, o número do malabarista Luís Sartori, “Carton” será o responsável pela abertura do Festival. Uma da melhores companhias brasileiras, os pelotenses do grupo Tholl retornam à cidade com o espetáculo “ Imagem e Sonho”. Além disso, a intervenção do grupo Acrobático Fratelli, “Travessias Urbanas”, deve movimentar e chamar a atenção de quem passar pela Av. Conde da Boa Vista no dia da apresentação. A programação completa está disponível no site do Festival www.festivaldecircodobrasil.com.br.

Espaço para tradição

Apesar do recorte voltado para números que apresentam a vanguarda das artes circenses, a quinta edição do Festival de Circo do Brasil também terá espaço para as apresentações na linha mais tradicional. A Praça do Arsenal da Marinha, localizada no bairro do Recife, vai se transformar num grande picadeiro com três palcos que receberão vários espetáculos. No dia 12 de outubro, dia das crianças, uma programação especial com Banda Gigante(SP), Trio Zindare (FR) e Cirkologiom (FR) inaugura a temporada na Praça. Entre os dias 13 e 15, haverá na Praça do Arsenal, diariamente, apresentações de palhaços com os espetáculos “Pelo Cano” e “Jogando no Quintal”. Na sexta-feira, 16, o Circo Vox chega para compor o fim de semana de encerramento do Festival. Nos dias 17 e 18 de outubro, estará disponível na Praça do Arsenal uma série de equipamentos - cama elástica, arame, diábolos e malabares - que poderão ser utilizados livremente pelo público. Os franceses Trio Zindare, Triskel e Cirkologiom compõem a grade de programação. Outros locais também receberão espetáculos, como o Parque 13 de Maio e o Parque da Jaqueira.



“Cabaré Circense”

A boate NOX também será um dos roteiros dentro da programação diversificada do Festival. No dia nove de outubro a boate recebe a festa, que é uma tradição dentro dos festivais de circo no mundo todo, intitulada “Cabaré Circense. O evento vai receber apresentações dos grupos O Teatro Mágico e Acrobático Fratelli. Além de ter discotecagem do DJ Dolores, tocando músicas francesas, e DJ Jérome Pigeon - de uma das casas mais famosas de Paris a Favela Chic - pilotando as pic-ups com músicas nacionais. A festa ainda vai abrir espaço para que os artistas presentes façam apresentações espontâneas de seus números favoritos.


* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 30/09/2009

A adolescência não é limitada

Difícil a vida de um artista que vislumbra transitar por diferentes meios, mantendo sempre um trabalho de consistência. Conseguir êxito no cinema, e no teatro, quando se está impregnado por referências televisivas, talvez seja ainda mais difícil. O espetáculo “Aonde está você agora?”, exibido em três sessões totalmente lotadas (uma no sábado e duas no domingo) no teatro de Santa Isabel, é um bom exemplo dessa celeuma.


Protagonizada e dirigida pelo ator Bruno Gagliasso, que divide o palco com Thiago Martins, a montagem aproxima-se bastante de um clássico folhetim de novela das oito. O que não precisa ser de todo negativo, já que a grande maioria do público (feminino) - munido de máquinas fotográficas, e fazendo pedidos de telefone - estava ali para ver o “Tarso” (personagem de “Caminho das Índias”), independente do que fosse ser apresentado no palco.

Em sendo assim, a história de dois amigos que se conhecem ainda na infância, se separam na adolescência, e seguem caminhos diferentes, até um reencontro emocionado, é suficiente para fazer a plateia rir, e até chorar - “Tem gente chorando”, disparou o ator durante os agradecimentos - com o previsível fim.

Uma pena porque, de fato, tanto Bruno quanto Thiago, revelam-se excelentes atores técnicos. Convencem nos papéis de meninos de oito, 15, e 22 anos. O problema é que existe algo que não se encaixa em “Aonde...“. É um certo ranço de teatro colegial, possivelmente agravado pela trilha sonora do Legião Urbana. Nada contra “Vento no Litoral” - música que inspirou o espetáculo - mas um texto sobre adolescentes, não precisa, nem deve ser limitado.

A peça, que tem tom simplista, com apenas os dois atores em cena, um telão, e a iluminação, fica ainda mais comprometida em função do Santa Isabel. Com uma plateia verticalizada, o público acomodado nos camarotes laterais perdeu a capacidade de acompanhar as imagens projetadas no telão.

Não que ele fosse peça fundamental para o entendimento da história, mas talvez tenha ajudado na composição, e na ambientação dos personagens. No mais, foi bacana ouvir o Gabriel (Martins) entoando clássicos da Legião dos anos 1980, e ver o Pedro (Gagliasso) ensinando aos jovens a diferença entre sexo com amor, e somente sexo. Montagem bem educativa.

* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 28/09/2009


segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Maior idade do deboche

Trupe do Barulho completa 18 anos de muito riso e casa cheia

Quando começaram apresentando um “pocket-show” na boate “Araras Dancing Bar” no início da década de noventa, os atores que viriam a formar a companhia de teatro “ Trupe do Barulho”, não podiam esperar que fariam uma trajetória de tanto sucesso nos palcos. O show de humor “Cinderela a História que sua Mãe não Contou” era baseado no escracho e tinha duração de 40 minutos. Em menos de um ano o púbico praticamente dobrou e a casa já não dava mais conta da demanda. Foi quando surgiu a ideia de estender o show e transformá-lo em um espetáculo para teatro.

Mas, subir aos palcos não foi tarefa tão fácil. O grupo, formado na época pelos atores Jason Walace, Aurino Xavier, Jô Ribeiro , Flávio Luiz, Ináldo Oliveira, Luciano Rodrigues e Edílson Ryggard, encontrou muitos obstáculos para conseguir que a montagem baseada no humor rasgado fosse aceita pelos teatros da Cidade. Chegaram ao teatro Valdemar de Oliveira, casa que acolheu o grupo, e os abriga até hoje. “Devemos isso a Reinaldo Oliveira, que nos abriu as portas com a condição de que a equipe estivesse de acordo. Graças a ele estamos lá até hoje”, relembra Aurino Xavier, um dos fundadores da companhia.

Estrearam no palco à 0h do dia 20 de setembro de 1991 com casa lotada. “ Tivemos uma recepção muito boa porque na época havia um ‘boom’ do movimento das dragqueens e retratamos exatamente esse universo. Nossa estratégia para atrair o público era dizer que o espetáculo tinha de tudo, mas o que acontecia é que estávamos contando uma fábula infantil de uma forma diferente. O que fazemos é brincar com a safadeza, usar a linguagem popular da forma que ela realmente é falada, isso nos aproxima do público. Não existe baixaria. O palavrão está dentro de um contexto”, destaca o ator.

Hoje, 18 anos depois, foi justamente o escracho e o deboche tão característicos da Trupe que os alçou a categoria de uma das mais antigas e bem sucedidas companhias de teatro do Estado. Ao todo, são 10 espetáculos no repertório de comédia do grupo, sendo apenas um deles voltado para o público infantil: “O Mistério das Outras Cores”.

É bem verdade que ao longo dessa jornada a Trupe sofreu algumas baixas. Ainda no final da década de noventa, Jason Walace, protagonista do principal espetáculo da companhia, deixou o grupo para apostar em novas possibilidades para seu personagem “Cinderela”. E em 1997, o falecimento de Edilson Ryggard - que dava vida ao personagem do príncipe do espetáculo - também abalou bastante o elenco. Porém, nada que apagasse o brilho e a vontade de fazer rir.

Em meio a uma trajetória controversa, e aquém do olhar atravessado dos críticos, que insistiam em torcer o nariz para o tipo de representação feita pela Trupe do Barulho, o grupo conseguia, ano após ano, renovar seu público e garantir o sucesso das bilheterias. Eduardo Japiassú, um dos atores do elenco de “Apareceu a Margarida” - montagem mais recente da companhia - lembra que ao entrar para a Trupe conseguiu pela primeira vez o reconhecimento dos fãs, mesmo depois de mais de 20 anos nos palcos. “ A relação do público com a trupe é o que existe de mais fascinante. Temos blogs, fã-clubes, e gente que não perde um só espetáculo”, Disse Japiassú.

O reconhecimento é o reflexo de um trabalho sério e profissional feito por todos aqueles que apóiam o trabalho da companhia. “ Fazemos um trabalho de pesquisa igual ao de qualquer outro grupo, temos compromisso e responsabilidade com nossos personagens. Com isso, conseguimos atingir todos os públicos. Nossa plateia não é segmentada, temos gente que vem de Boa Viagem, e do Auto do Mandu. Todos se divertem da mesma forma”, afirma Flávio Luiz.

HISTÓRIA

Entre alguns dos muitos sucessos que marcam a trajetória da Trupe do Barulho, “Cinderela - A História que Sua Mãe não Contou”, é sem sombra de dúvidas o espetáculo que teve mais repercussão no repertório da companhia. Tanto que foi o personagem que projetou Jason Walace a uma perspectiva Nacional. E fez do bordão “Ôxe Mainha” um verdadeiro hit.

O sucesso foi tanto que os atores costumam contar com orgulho um episódio no qual, certa vez, quando se apresentavam pelo projeto “Todos com a Nota” esgotaram a capacidade do teatro do Parque e levaram uma multidão à Avenida Conde da Boa Vista em busca de ingressos. A procura foi tanta, que forçou os organizadores do evento a agendarem uma nova apresentação. Dessa vez o local escolhido foi o ginásio do Geraldão que também teve sua capacidade esgotada e confirmou perante todos que a fórmula do riso e do deboche dá resultado.

* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 21/09/2009

A arte de projetar

Arquitetura como expressão artística reflete transição dos tempos

Já parou para pensar que sempre que queremos citar um exemplo de beleza arquitetônica fazemos menção a prédios antigos? Um erro recorrente, e que é usualmente repetido por pessoas em diversas áreas, é excluir a arquitetura do ramo das expressões artísticas, como se a mesma não representasse o mais puro significado de arte. Principalmente no que diz respeito à arquitetura contemporânea.

Porém, tanto quanto os estilos de outrora, os projetos modernos e pós-modernos também possuem o seu charme e estão carregados de significado e inspiração de seus projetistas. O fenômeno de incompreensão da arquitetura como representação artística começou a acontecer durante o Movimento Moderno. Prédios que antes eram repletos de ornamentos, a partir do século XX começaram a perder essa característica em função do paradigma “forma x função”. “Influenciados pelas artes plásticas, os arquitetos começaram a pensar projetos mais simples que tinham base na composição de volumes e cores, não mais na ornamentação”, destaca o Doutor em Teoria e História da Arquitetura pela Universidade da Cataluña, e professor da UFPE, Maurício Rocha.

De acordo com o professor, a arquitetura é uma arte cara, feita para ser vista e usada. Por esse motivo, durante o período das duas grandes guerras mundiais, uma de suas principais características - a ornamentação - foi abandonada pela necessidade de se reconstruir cidades inteiras de forma rápida e barata. “A perda do ornamento foi uma questão de ordem prática”, lembra Rocha.

Para entendemos melhor esse processo podemos traçar uma linha do tempo de edificações. No Recife, três construções servem como bom exemplo de fachadas ornamentadas. A igreja de São Pedro dos Clérigos (XVIII) tem características do Barroco, enquanto que o Teatro de Santa Isabel (XIX) apresenta características do Historicismo Neoclássico. O prédio do Palácio da Justiça (primeira metade do séc. XX) é caracterizado como um edifício eclético, que possui características de vários estilos, chegando ao máximo de ornamentalidade em um único espaço. A partir daí, os projetos começaram a seguir a tendência mundial trazida pelo Movimento Moderno, linhas mais retas e funcionais ditavam um estilo, que pode ser muito bem representado pelo edifício Acaiaca, na Avenida Boa Viagem.

Entre os projetos mais recentes, o Fórum Desembargador Rodolfo Aureliano (Joana Bezerra), pode representar alguns indícios do Pós-Modernismo na paisagem da cidade. Com uma estrutura menos rígida, a construção já permite a volta do ornamento. “Ainda temos pouquíssimos exemplos pós-modernistas pelo preconceito em torno do ornamento que foi criado pelo movimento moderno. No sul e sudeste já é mais comum encontramos a presença do adorno em correntes que podemos chamar de “retrô”, explica o professor. “O mais importante é entendermos que sempre que mudam os paradigmas as pessoas acreditam que a arte acabou, mas o que acontece é que a arte se adapta. Cada tempo tem sua arte, e ela representa o estilo de seu próprio tempo”.

* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 20/09/2009


Uma verdade cheia de “clichês”

Se existe um mérito para o novo filme do diretor Robert Luketic, “A verdade nua e crua” (The Ugly Truth, EUA, 2009), é o fato da narrativa de uma comédia romântica ser construída sob a perspectiva masculina de relacionamentos. Fato pouco visto em filmes do gênero. Apesar de ter uma mulher como protagonista da história - a produtora de TV obsessiva, controladora e solitária, Abby Richter, vivida pela atriz Katherine Heigl - a verdade que Luketic pretende expor são as mais profundas aspirações dos “machões” de plantão.

O problema é que para cumprir seu objetivo o diretor pesa na mão, e exagera na dose de “clichês” para retratar o universo dos machos alfas. Mike Chadway, interpretado por um dos atuais queridinhos de Hollywood, Gerard Butler, é o apresentador de um programa sobre relacionamentos especializado em dar conselhos para mulheres desesperadas, dispostas a aceitar qualquer tipo de opinião machista para conquistar um namorado. Depois de um embate com uma telespectadora revoltada, a própria Abby Richter, Mike é convidado a trabalhar na emissora de Abby, que passa a ser sua produtora. A missão de ambos: elevar os índices de audiência às custas dos conselhos de Mike. Ou seja, às custas de muita baixaria. Em paralelo, Mike também tem a missão de ajudar Abby a conquistar Colin (Eric Winter) A partir daí, o filme segue uma receita de bolo tão precisa que chega a ser tediosa. E claro que os dois vão acabar se apaixonando.

É bem verdade que alguns momentos rendem boas risadas, como a cena em que Abby usa uma calcinha com vibrador durante uma reunião de negócios. Mas apesar dos poucos momentos bem sucedidos, a fórmula usada é a mesma conhecida por todos. A ideia inicial de expor o “lado b” da relação acaba sendo descaracterizada, os personagens perdem seus traços mais extremados (que eram os mais interessantes), e tornam-se iguais a diversos outros já bastante íntimos do público. Reafirmando o conceito desgastado de que nesse gênero de filme, o que mais vale é deixar o espectador livre de surpresas.

* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 18/09/2009

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O ácido e o doce do homem

CENAS fortes ora constrangem, ora encantam o público

Escuta-se a campanhia anúnciando que o round de uma batalha vai começar. Como no boxe, combatentes se enfrentam numa batalha de palavras, ou da ausência delas. Mas esta é uma batalha de vencidos e vencedores que se dá no palco. “Carícias”, peça de estréia do cineasta Leo Falcão, que iniciou temporada sábado no Hermilo Borba Filho, nos leva a perceber o que há de mais delicado nas relações humanas: o próprio ser-humano.

Os conflitos entre pais, filhos, irmãos, namorados, amantes... são o principal foco no texto escrito pelo catalão Sergi Belbel. Porém, é na leitura feita por Leo, com ajuda da irmã Karina Falcão - assistente de direção - que a narrativa ganha outra dimensão. O Realismo Fantástico, traço estilístico mencionado pelo diretor, está presente, e se faz crucial para suavizar o peso de relações tão desgastadas e viciosas.

Em um tabuleiro de um jogo imaginário da vida, os personagens se revezam em situações comuns a todos nós. O casal que vive um casamento falido, a filha que não aceita ouvir verdades de sua mãe, o marido que enlouqueceu ao perder a mulher para outra mulher. Conflitos possíveis de verdades embaraçosas, difíceis de ouvir. As pessoas temem suas próprias verdades, e comunicar-se vira uma barreira intransponível.

O talento do elenco com Ana Cláudia Wanguestel, Carlos Lira, Cira Ramos, Marcelino Dias, Paula de Renor e Rodrigo Garcia são um atrativo a mais. Afinados com o diretor, eles dão leveza a assuntos difíceis. Cenas como a da banheira partilhada por pai e filho, ou a do rompimento dos amantes, ganham ares surreais pela verdade quase nunca dita. Ora constrangendo, ora encantando a platéia, que assiste a tudo como se fosse o vizinho que aponta as mazelas do apartamento ao lado, esquecendo de suas próprias.

“Carícias” com frescor de novidade

Um final de semana de estreias promete movimentar o mundo das artes cênicas na cidade. Duas grandes produções começam suas respectivas temporadas hoje, mas antes mesmo de colocar o resultado no palco (e por razões diferentes), já estão dando o que falar. Uma das grandes expectativas do sábado é o espetáculo “Carícias”, que marca o “debut” do cineasta Leo Falcão, à frente da direção teatral. A peça, que tem texto do dramaturgo catalão Sergi Belbel (com tradução da carioca Christiane Jathay), propõe uma viagem através das relações humanas e as situações limites com as quais nos deparamos em mundo que prima pela comunicação, mas no qual comunicar-se passou a ser um desafio.
Com uma carreira de mais de 10 anos no cinema, Leo Falcão, tem em seu currículo filmes como “Lugar Comum” (2002), “A Vida é Curta” (2008) e “Guia prático, histórico e sentimental da cidade do Recife” (2008). Agora, o diretor deixa sua zona de conforto, e se aventura em novas formas de expressão. “Eu estou experimentando outros meios narrativos, acho curioso como parâmetros expressivos funcionam em linguagens diferentes. O teatro é um ambiente rico para experimentar”, explicou o diretor.

O convite para dirigir o espetáculo partiu do elenco formado pelos atores Ana Claudia Wanguestel, Carlos Lira, Cira Ramos, Marcelino Dias, Paula de Renor e Rodrigo García. O grupo queria experimentar uma nova forma de fazer teatro, e, para isso, precisavam de alguém novo que topasse o desafio. A transição de meios ficou mais fácil com a ajuda da irmã, Karina Falcão, que assina a assistência de direção e preparação de elenco do espetáculo. “Eu o ajudei a fazer o link do estilo que ele já tem com o teatro. Foi tudo bem tranquilo”.
Para falar de relacionamentos, Leo Falcão faz uso da metaliguagem e coloca os atores em um grande tabuleiro. Durante rodadas de um jogo, as relações interpessoais vão se desenhando, e fica exposta a fragmentação existente no processo de comunicação do homem contemporâneo. O Realismo Fantástico, traço recorrente no trabalho do diretor, também se faz presente a partir da metáfora usada para tratar dos conflitos. “O texto é muito visceral, e podia pedir uma montagem mais realista. Mas optei por algo mais leve”, disse Falcão.

Serviço:
“Carícias”
Teatro Hermilo Borba Filho - Recife Antigo
Sábado (12), apenas convidados /
Temporada: sábados e domingos, às 20h
Ingressos: R$ 15,00 e R$ 7,50
Informações: (81) 3232-2030 3232-2028
* A matéria foi publicada no caderno "Programa" da Folha de Pernambuco de 12/09/2009